Friday, January 5, 2007

Adoro o Sol dos teus olhos
Suspenso no céu de quem és
Vivo religião antiga e natural
Sem escrituras que me guiem
Neste sentir de começos primordiais
Universos criados sobre o teu sorriso

Adoro esse Sol no templo que me sinto
Em liturgia sempre nova
Nunca lá fui
( E sempre lá estive)
Ao Sol dos teus olhos

Tenho medo de Ícaro
Quando o olho de olhos despidos
Vou tão alto que caio de mim
Vejo-me tanto que não me conheço
Sou tão eu que pareço outro

Preciso desta religião
Torna-me santo de mim mesmo
Sou sacerdote e noviço
Para adorar o Sol dos teus olhos

Em mistério sagrado da fé
Olho o Sol de frente
Com olhos abertos e francos
Revela-se o milagre
Em força sobrenatural

Quanto mais olho este Sol
Mais sou e mais vejo
E mais sei que quero ver.

Não te vou perder
Porque nunca te tive
Não és coisa minha
És alma do vento e do espaço

Nunca te tive
Nem te vou ter
Mas tenho-te mais
Do que aquilo que é meu.

Há poemas que não escrevo
Porque não lhes toco
Ou não me tocam eles
E andam por aí
À espera de serem escritos

Por vezes roçam-me a superfície
E quase os sinto
E quase os escrevo
Mas não se deixam saber
E fico amnésico duma lembrança que nunca tive

Às vezes começo-os e não os acabo
Como se conhecesse um rosto ao longe
Mas que é estranho quando lá chego
E não acontece a conversa
Que era suposto ter acontecido

Outras vezes nem se começam
Mas vêm tão perto de começar
Que fico inquieto e estranho
Mudo, em frente ao papel
Em tensão de acontecer que não acontece

Nestes momentos escrevem-se em mim
Vontade de qualquer coisa
Qualquer coisa na vontade
Que não é
E é por não ser

Escrevo este poema
A todos os poemas que não escrevo
Dando-lhes existência porque os falo
E os sei sem os saber
Por saber que nunca os saberei.

Poesia

A minha casa é nos abraços de quem amo
E o meu jardim brilha nos olhos de quem me quer
A cidade que percorro constrói-se nas conversas e nos risos
Avenidas de luz aberta e becos secretos que dão para as traseiras

O meu emprego é amar
É ser lírico no meio dos burocratas
E servir utopia ao balcão da vida
Mantendo conta no Banco Sentir & Companhia

Produzo momentos que não produzem
E tenho o lucro de não dar lucro
Que eu sou muito mais que o preço que me dão
E tenho muito mais do que aquilo que tenho

Sou aquilo que se é por se ser
E tenho aquilo que se tem por não se ter
Choro-me porque não sou mais, é certo
Mas tenho-me mais por me chorar

Dizem-me que não tenho futuro
Que a vida não é feita de poesias e amores perfeitos
Mas o futuro vem sempre com o amanhã
E a minha vida é mais vida no amor da poesia.