Tapetes de coragem e tempo
Copos de choro sobre a mesa
Onde se come alegria e luta
Cama amor, descansa a alma
Candeeiros de luz esperança
Janelas sobre o amanhã
Ontem nas molduras nas paredes
Risos secretos nas gavetas
Histórias a dourar no forno
Pão suor em fatias
E tu querida, em olhares
Que lavam o soalho que me tem
Arejas as salas que sinto
Da casa vida que é minha
Porque eu mereço, e já é tempo.
Thursday, January 11, 2007
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11:50 AM
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Riu alto para não ouvir o choro
Que lhe pingava dentro
Bebia aflito o mundo
Porque não podia com ele
Fundo atrás de fundo
De copos e viver
Bebia o velho negrume
De não saber ser
De não ter queixume
E só saber queixar
Loucura acelerada, medo de parar
Outra garrafa, talvez conforto
De si mesmo aborto
Navega sem porto
Ri alto outra vez...e mais um copo.
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11:48 AM
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Vivo na fé de ti
Prosto-me no altar dos teus olhos
Quando me perco entre escolhos
De males que não pedi
Santificas-me com prazer
Rituais de pele e lábios
Suspiros astrolábios
Mapas de quem quer crescer
Louvor de religião profana
Mistério de cidade santa
É meu corpo que em ti canta
Glória aos véus, hossana
Invisíveis os salmos que te escrevo
De máscara as letras que aqui ponho
Descerão em ti no tempo do sonho
Sem segredo deles não me atrevo
Estou em amor peregrino
Buscando Graal no teu peito
No caminho mais estreito
Heróico feito o meu destino
Alegria ingénuo do acordar
Catedral de riso em coro
Procissão de mãos dadas no choro
De quem não quer mais que amar.
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11:38 AM
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Sinto que já soube
Sinto cá atrás, lá longe, ao pé de mim
Parece que esqueci, mas de esquecer não lembro
Não sei se esqueci que esqueci
Ou se já só vivo de querer lembrar
E não lembro de viver.
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11:36 AM
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Quero escrever, preciso
Escrevo o que estou a escrever
Não para dizer algo de interessante
De novo, sublime, ou poético
Escrevo porque preciso, agora
Tentei escrever algo que tocasse as pessoas
Que tivesse força mítica ou filosófica
Ou beijasse o sentir de quem me lesse
Mas não consegui
Assim escrevo isto por carência
Como o dependente em ressaca
Que chuta droga sem qualidade
Na ânsia da satisfação
É assim o meu vício
Uma fome de sempre e de muito
Que tenta saciar-se nas migalhas
Que caem no chão desta página
Vou continuar com fome, eu sei
Vou ressacar outra vez
Mas estas migalhas que escrevo agora
Têm a memória do pão de onde caem
O pouco lembra-me o sabor do muito
E assim escrevo este nada
Para poder sonhar com o tudo
Que irei escrever sempre amanhã.
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11:35 AM
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Eu escrevo muitas vezes sobre mim
Eu, que escrevo, sou o mesmo sobre quem escrevo?
Precisa haver espaço entre eu que observo, e mim, aquele sobre quem escrevo
Se existe espaço entre entre eu e mim não faz dois?
Então não sou eu que escrevo, ou não é sobre mim que o faço
Por isso eu nunca escrevo sobre mim
Escrevo sobre o outro a quem chamo eu.
A QUEM CHAMO EU.
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8:57 AM
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Galopas o teu cavalo querer
Na margem do rio vermelho
Onde estátuas de tanto sentir
Estão quietas de não fugir
Teus olhos futuro trazem ver
Em sonhos vitória para sempre
Na mão em riste a tua lança
Arma Sol de cor esperança
Cabelos força dão-te coroa
Manto negro largado ao vento
Do corpo régio que te és
Botas de ouro nos teus pés
O dia é mais dia por onde passas
Galope fêmea de todos os tempos
Deixando castelos que encimam o mundo
Nos reinos que crias de quem é profundo
Mulher galope em terras vivas
Luta que luta para não mais lutar
Pelos estandartes que não são seus
Em guerras derrota para cá de Deus
Com sorrisos milagre por armadura
Mulher História em actos nobreza
Vento mudança de quem te ama
Sopro vida na minha chama
É tempo de paz no teu galope
A tua glória é seres quem és
Sem esforço de guerra na tua arte
Fizeste-me cavaleiro do reino amar-te.
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8:55 AM
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Existo-me na impossibilidade do amor
Alimento-me da fome que me engorda
Suspendo-me em quereres que não passam
Porque não sou , sendo o querer
Tenho-me sido querendo
Em ter, não me seria
Seria o que realmente sou
E eu sou-me em não me ser
Sou-me na impossibilidade de mim
Sou o projecto de vir a ser
O futuro que não será
O amor que não virá
Quero-me a querer
Sou possível na impossibilidade
Amo querer amar
E amo o amor que não amo.
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8:52 AM
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Tuesday, January 9, 2007
Beijo-te como quem come
Para tornar tua carne
Minha carne
Quero-te dentro em mim
Enquanto entro em ti
Em eus de avesso
Estás quente, quente
E o suor que é rio
Da lava que me explodes
Dói-me o que te quero
E dói-me o que te entro
Termómetro da minha febre
Meio escuro meio luz
Aperto-te entre mim
No que me apertas em ti
E vejo, eu vejo
Esta mulher a quem beijo
Por te beijar assim
És tu, mulher que eu quero
E beijo-te porque te quero
E quero-te para beijar assim.
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10:39 AM
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Ser livre
Não é ser livre de alguma coisa
É não ter alguma coisa de que ser livre.
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9:14 AM
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Quase brilho
Vulto atrás da cortina
Catedral de pedra vento
Sonho esquecido sem saber
Luar em fundo de poço
Estendal de murmúrios
De teatro que se suspeita
Segredo de porta fechada
Carta de amor que não veio
Tela em branco quando o pintor morreu
É assim que me adivinho
No quase ser do que podia ter sido.
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9:13 AM
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Monday, January 8, 2007
Teremos na mão a verdade
Quando não tivermos vontade
Os olhos fecharmos
E com a noite contarmos
Perdidos em momentos
Viajando com os ventos
Alma escancarada ao mar
Forte impulso de estar
Boca firme de desejo
Pele molhada de beijo
Trigo de ventre aberto
Lonjura de estar perto
Chuva branca de jasmim
Principio que não tem fim
É nisto que está o verdadeiro
Em cada momento derradeiro.
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1:57 PM
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Seduzes-me porque não me seduzes
Tocas-me porque não me tocas
Sinto-te no que não fazes, fazendo
És, e chega, que é tanto
E este poema escreve-se sem mim
Que eu não sei parar o que me escorre da alma
Porque transbordei-me de ti.
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11:10 AM
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Saturday, January 6, 2007
TERNOGRAFIA
Teus cabelos pingaram sobre o meu peito
No meio de um arfar rarefeito
Beijaste-me a testa de mansinho
Como taça branca despeja o vinho
Sorriste com olhos entorpecidos
Pingos de sangue por amor vencidos
A nossa paixão feroz, saciada
Levou-nos à paz, à enseada
Nossos corpos, ardentes sóis
Rolaram de bordo nos lençóis
Separados de corpo, não de alma
Permanecemos juntos nesta calma
O imenso silêncio que nos olhava
Tocou-nos de eterno, pois amava
Neste subir inerte, tão profundo
Deixou repente d’haver mundo
Ficámos sós, a respirar
E o divino, longe, a invejar.
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5:58 PM
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Lá, onde a liberdade é não pensar em liberdade
As coisas são o que são, sem murmúrios
Sem nada que as separe do que é ser
Nem mesmo o saber que são
E a vida não tem quem fale dela
E se esqueça de viver
Com fome de sim e de não
Lá, onde não há aqui
Os olhos abrem e fecham
Sem nunca deixar de ver
Que o céu é chão
E as palavras são só isso, palavras
Não há vontade de as escrever
Porque entopem o coração.
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2:07 PM
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Hoje estou em dia não
Era quarta-feira quando acordei
Mas o dia ficou teimoso
Dia não
Gosto do dia sim
Do dia talvez
E do eventualmente
Não gosto do dia não
Não dá para conversar com ele
Sem ficar com dor de cabeça.
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3:48 AM
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Friday, January 5, 2007
Procurei-te em sonhos esquecidos na vertigem da dor
Lancei-me na conquista de partes de ti onde não estavas
Lutei com a noite e com o demónio da tua ausência
Estilhacei-me em escombros de mim mesmo, por ti
Marquei a carne com o aço fervente da minha fúria
Beijei a morte com a paixão do desespero
E morri…
Acordei como flor vermelha hasteada em frente ao Mundo
Para teus olhos verem, meu amor
Por favor não me colhas
Cresce comigo.
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4:11 PM
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Ser livre
Ser tudo
E tudo poder ser
Ser mar
Ser Mundo
E nada ser não ter
Viver o sonho
Comer a vida
E ter o céu como corpo
Saltar o nunca
Furar o não
Mudar destino com um sopro
E ter, ter, ter, ter
Tanto que não haja mais a querer
Nada, não ter mais nada a ser
Movimento absoluto de não fazer
Não ter limite, nunca
E ser, só sendo, a viver
No todo que me espera
De não ter dia de morrer.
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4:02 PM
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Nunca te beijei
Mas já te beijei tantas vezes
Em sonhos de mel desejo
Suspiro em forma de beijo
Nunca te beijei
Mas beijo-te a todo instante
Em sorrisos que me sinto
Novos quadros que me pinto
Nunca te beijei
Mas beijo-te para sempre
Sem futuro que eu tema
Beijo em forma poema.
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4:00 PM
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Nunca te vi, mas sinto-te em mim
Como palavra que já soube e esqueci
Como palavra debaixo da língua que quero lembrar
Palavra que, sei, eu soubesse, traria todas as palavras
As palavras que falam do riso
As que falam do prazer
As que falam do que tremo quando me escreves
E aquelas que falam do tanto que sonhei contigo
Sem te ver
Sem saber
Mas sabendo
Que um dia te lembrarei
Na alma
No corpo
Naquilo que não sei dizer
E recordarei quem tu és
E recordarei quem eu sou.
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3:09 PM
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Labels: Tu
É tão grande o mar que tenho dentro
Tão grande, tão grande
Por vezes afogo-me nele
E já não sou eu
Neste mar que é meu
Mas que me é tão estranho
E tão cheio de tudo e de tanto
Este mar que não sou eu
Navega-me por ser seu
Tudo o que já me doeu
Tão grande, tão grande
Este mar impossível
Este mar sem praias
Que me dissolve
E me resolve
E me deixa sem terra
A meio caminho do céu
Este mar é grande
E eu, tão pequeno
Sou tão grande
Por este mar estar cá dentro
E me dar a ser mais
Do que aquilo que eu sou.
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2:50 PM
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Adoro o Sol dos teus olhos
Suspenso no céu de quem és
Vivo religião antiga e natural
Sem escrituras que me guiem
Neste sentir de começos primordiais
Universos criados sobre o teu sorriso
Adoro esse Sol no templo que me sinto
Em liturgia sempre nova
Nunca lá fui
( E sempre lá estive)
Ao Sol dos teus olhos
Tenho medo de Ícaro
Quando o olho de olhos despidos
Vou tão alto que caio de mim
Vejo-me tanto que não me conheço
Sou tão eu que pareço outro
Preciso desta religião
Torna-me santo de mim mesmo
Sou sacerdote e noviço
Para adorar o Sol dos teus olhos
Em mistério sagrado da fé
Olho o Sol de frente
Com olhos abertos e francos
Revela-se o milagre
Em força sobrenatural
Quanto mais olho este Sol
Mais sou e mais vejo
E mais sei que quero ver.
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12:16 PM
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Não te vou perder
Porque nunca te tive
Não és coisa minha
És alma do vento e do espaço
Nunca te tive
Nem te vou ter
Mas tenho-te mais
Do que aquilo que é meu.
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12:13 PM
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Há poemas que não escrevo
Porque não lhes toco
Ou não me tocam eles
E andam por aí
À espera de serem escritos
Por vezes roçam-me a superfície
E quase os sinto
E quase os escrevo
Mas não se deixam saber
E fico amnésico duma lembrança que nunca tive
Às vezes começo-os e não os acabo
Como se conhecesse um rosto ao longe
Mas que é estranho quando lá chego
E não acontece a conversa
Que era suposto ter acontecido
Outras vezes nem se começam
Mas vêm tão perto de começar
Que fico inquieto e estranho
Mudo, em frente ao papel
Em tensão de acontecer que não acontece
Nestes momentos escrevem-se em mim
Vontade de qualquer coisa
Qualquer coisa na vontade
Que não é
E é por não ser
Escrevo este poema
A todos os poemas que não escrevo
Dando-lhes existência porque os falo
E os sei sem os saber
Por saber que nunca os saberei.
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11:52 AM
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Poesia
A minha casa é nos abraços de quem amo
E o meu jardim brilha nos olhos de quem me quer
A cidade que percorro constrói-se nas conversas e nos risos
Avenidas de luz aberta e becos secretos que dão para as traseiras
O meu emprego é amar
É ser lírico no meio dos burocratas
E servir utopia ao balcão da vida
Mantendo conta no Banco Sentir & Companhia
Produzo momentos que não produzem
E tenho o lucro de não dar lucro
Que eu sou muito mais que o preço que me dão
E tenho muito mais do que aquilo que tenho
Sou aquilo que se é por se ser
E tenho aquilo que se tem por não se ter
Choro-me porque não sou mais, é certo
Mas tenho-me mais por me chorar
Dizem-me que não tenho futuro
Que a vida não é feita de poesias e amores perfeitos
Mas o futuro vem sempre com o amanhã
E a minha vida é mais vida no amor da poesia.
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11:31 AM
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