Monday, January 15, 2007

Alguém de mim usa com orgulho
A medalha da humildade

De ter amor ao poder
Perde o poder do amor

Tem tanto de si
Que a si não tem

Cospe no que quer
Porque vive de querer

De tão simples, é impossível a verdade
Escorrega, não tem complicação onde agarrar.

Sabeis senhores quem sois
Sem as vestes que usais?
Como ficareis depois
Nus como animais?

Despi-vos de nobrezas
Largai vossas carteiras
Perdei vossas certezas
Baixai vossas bandeiras

Deixai-vos estar nus
A sós convosco
Apresentai-vos à luz
Sem olhar fosco

Todos conheceram parteira
Cara que viram primeiro
Mas a face derradeira
Será aquela do coveiro

Sois diferentes em adereços
Coisas doutas e habilidades
Pagais diferentes preços
Ao comprar identidades

Mas todos usam penico
Seja d’ouro ou de cartão
Faz o pobre e faz o rico
E limpa com o que tem à mão

Adornam-se de banalidades
De esforços para ser
Fazem guerras de vontades
Grandes lutas a vencer

Fiquem nus de pança ao léu
Não tapem a vossa vergonha
Só andam debaixo do céu
Até que a morte a mão vos ponha

Mirem-se bem, tudo a nu
Não são assim tão importantes
Todos têm boca e cu
E na vida são passantes.

No minuto infinito
Condensa-se o ser
Sinto quando permito
Deixar-me conhecer

Angústia de ser em memória
Fuga de enredos meus
Ser apenas em história
É fechar os olhos a Deus

Desejo de perfeição que esquece
Dor do oposto vivido
Luto que não fenece
De tudo o que é querido

Querer mais do que é
Servir a dor do desejo
Torna a vida ré
De tudo o que almejo

Não fico pelo que sou
Nem sou pelo que fico
A vida já se gastou
E eu o simples complico

Quero aceitar o real
Deitar-me no seu leito
Conflito fundamental
Não aceito que não aceito

Ser não querendo ser
Não sendo e querer
Pela vida me estendo
Vivendo o não viver.

A Dinastia de Ser Feliz
Tornou-se a casa reinante
Na alma que é o meu país
E onde vivo como infante

Neste reino de alegria
Sem muralhas ou castelos
Vivem lendas hoje em dia
E poetas sempre belos

São novas as catedrais
E os sinos que lá brilham
Lançam rimas os jograis
Em canções que maravilham

E as ruas que são sorrisos
Trazem gentes de mundos novos
Outros olhos são precisos
Para a luz dourada destes povos

Os rostos que me abraçam
São novos porque os vejo
Outras vidas em mim passam
Neste ser feliz em cortejo

Novo mundo no meu mundo
Chegou o teu reino a mim
És tu que me dás a ver profundo
Neste reinar de que sou Delfim.

Escrevo para dizer
Que só o silêncio
Pode falar
O que é ser

O ser não fala
Ouve-se
Quando nada se ouve
Quando nada se escreve

A palavra é pouca
É um inevitável menos
Do que aquilo que quer dizer
Fica sempre a meio caminho
Para aquilo a que quer dar ser

A palavra quando fala
Deixa sempre por dizer
O todo que o ser está a ser
E que é tudo em si o que tem para ser

A palavra não chega
Diminui o que é completo
Mas o seu ruído de ficar aquém
Torna o silêncio sempre novo

O silêncio nasce (e renasce)
Onde morre a palavra
São condição um do outro
E por isso falo
E por isso escrevo
Para me calar a seguir
E ouvir o que se ouve
Quando nada se ouve
E tudo se é

O silêncio não prende o ser
Ao limite da palavra
O silêncio liberta
E devolve o tudo
Ao que é

Vou já a seguir calar-me
E quem me lê vai deixar de ler-me
Aí, partilhemos o silêncio
Porque é completo, nada lhe falta

A palavra quer ser
O silêncio já é.

A vida é feita de pequenos nadas, dizem
Fala-se da vida como de um queijo, daqueles com buracos
Como se a vida fosse qualquer coisa, feita de coisa qualquer
Pensa-se na vida como feita, como tivesse fábrica que a fizesse
É que vivemos no mundo onde tudo se faz, e muito, com medo de não haver que chegue

Mas a vida engana quem faz
A vida é nada de pequenos feitos.

Dobrei a esquina e vi-me a alma
Que não sabia onde andava
Do segredo dei-lhe a palma
De ser eu não se queixava

Não lhe vi querer que eu soubesse
De tanto olhar já me dormia
Sonho breve de quem já esquece
Que alma sou e não queria

Tenho esquinas a dobrar
Mudo a rua do que me estranha
Transeunte do não parar
Para que a alma não me venha

Em exílio dou-me espaço
Crio o meu próprio estado
Em deserto fogo e abraço
Rir de viver desalmado.

Estou de joelhos
Para não cansar
Os sapatos velhos
Que não sei largar

Rezo como intervalo
Espaço na glória
Desci do cavalo
Que usei na vitória

Olhos de espada
Cabelo de cota
Lua fechada
Velas da frota

Costume inédito
Dar-me ao chão
Carne em frémito
Sorriso vão

Estou-me em altura
Ontem à frente
Dor que cura
Tentar ser gente.

Sunday, January 14, 2007

Não vás embora
Porque se fores ficas cá
No que sinto por ti
Na tristeza de não te ver
Na dor por teres partido

Não vás
Porque eu sou impotente
Para mandar embora
A presença da tua ausência
O estares comigo
Por não estares comigo

Fica
Dá-me a tua presença
Dá-me o suspiro
De acordar a teu lado

Fica
Quero sentir que estás comigo
Mesmo quando não estás comigo
E ver-te em mim sem te ver a ti

Fica, não vás
Porque se fores
Eu irei contigo.

POETAS MORNOS

Orpheu beijou-me em Almada
Deixou-me Negreiros no peito
Sou Pessoa sem gente
Causa sem efeito.

Penetrei-me e não soube
Que o vento mascarou de Tudo
E de Nada
O que se deixa penetrar
E que é
Para ser
Penetrado

Sou
E penetrei-me
Ao penetrar o Universo.

Friday, January 12, 2007

Mantenham-se juntos nesse mar
Eu que o riso se atrapalha envolto na fumaça
Sobre a muralha de areia que é o destino
De quem vive só para morrer

A estrela dessa rua onde moram
Saltita pelos carris do eléctrico
Enquanto a chuva se demora a cantar
Nos cabelos de quem se apanha a amar

Em solo de campanha sangrenta
Dos gritos das varinas encarnadas
Vesgos que são poetas
Soletram as sopas de letras que não comem
A riqueza não dá para mais
Pão que se desfaz no sereno
Das áfricas de Lisboa

As janelas enriquecidas
Dos que fizeram fortuna noutras costas
Tremoceiros magricelas
Ás portas das igrejas sem santos
E estendais de roupa preta

Ventania que leva o riso
Repartida por quem pede
O sono da alvorada primeira
Flores nas mãos dos peregrinos
Joelhos a sangrar de martírio

Com as damas nos salões
Vestidos menores que se aprendem
Na certeza das solidões
Junto aos barris da vida
Tudo satisfaz quem olha
E chama quem está perto
Porque viver são coisas pequenas
E nada tem de fazer sentido.

Existe um vento que me despe
Me desprende de mim
Me eleva na nudez

Vento que navega o Sol
E trás os mares consigo
Marés vivas que me banham

Vento poder sideral
Que me solta em equadores
Portos meus onde não estive

Vento montanha que me sobe
Por ravinas sem mapa
De tão fundo eu me sinto

Vento sorriso arco-íris
Que põe primaveras em mim
Nos vales que tinha perdido

Vento Tu que eu amo
E me sopra para onde lembro
Que por ti também sou Vento.

Força da minha carne
Choro por ti no meu desejo
Que desejo não chorar

Tenho-te vida por seres tu
Tenho-me eu por seres tu
Não te tenho por seres tu

Ausência tão presente
Mim que de ti se sente
Senti o estar sem ti

Esfomeado de quem és
Não te quero sem ti
Alimento-me da tua fome

Deixa-te estar onde és
Não me venhas sem ti
Que de ti quero-te a ti

Amo o cá não estares
Porque amo tudo de ti
Mesmo o vazio que deixas quando não estás.

O que sinto que sinto
É um sentir com sentido
Por te sentir, não minto
De me sentir cumprido

Sinto e quero sentir que sinto
O que sinto por te sentir
Sangue vermelho tinto
O coração a abrir

Senti que sem ti eu sinto
Sentir que não é sentir
É mais um estar faminto
Um estar não estando sem ir

De sentir tanto que sinto
O que sinto por te sentir
Novos céus eu pressinto
Caminhos alma a florir

Sinto este sentir que sinto
E é sentir que jamais tive
Nunca se conhecerá por extinto
Tão grande sentir em mim vive.

Voltámos as costas um ao outro para nos vermos
No sentido de não fazer sentido
Para sentirmos o que há a ser sentido
Toques de longe de querer sem querermos

A tua face longe que eu quero
Vejo sempre no que vejo
Olho o mundo em tom beijo
Beijar-te a ti me espero

Viajo-te no barco da vontade
Ventos de ti me bolinam
Mares frios me ensinam
De ti ser deus da saudade.

E a chuva que não pára
Como se nunca tivesse deixado de cair
Desde que me lembro
Começou a chover quando abri os olhos
Berrando por me querer ir embora
Ainda tenho o sabor do sangue na pele
E nas noites que não durmo
E a chuva que não lava
Nem apaga
Não sei bem o quê
Que não me deixa
Mas que me lembra chuva
Que vejo lá fora
E sinto cá dentro
Não sei
Nem sei se quero saber
O que me chove
Me afecta
E infecta
Desperta
Na noite que não passa
No sonho que não lembro
E chove lá fora
Força que se deixa cair
E eu cá dentro sem dormir.

Thursday, January 11, 2007

Em toques de riso dancei-te na minha fronteira
Na alegria de ter sido descoberto
Por me ver nos teus olhos

Tão bom levantar-me até mim para estar contigo
Feliz por descobrir que já sabia
Que em ti me sou

Abraças o quarto dos brinquedos da minha alma
Onde o menino triste se lembra da cor
Por lhe soprares o pó

Com lágrimas de sol aguaste o gelo do outro inverno
Bebo a esperança de não ter mais sede
Ao dizeres a fonte minha

Se mais não vir o rosto que te veste agora
Minha deusa de mim próprio
Que me veja com teus olhos.

Tapetes de coragem e tempo
Copos de choro sobre a mesa
Onde se come alegria e luta

Cama amor, descansa a alma
Candeeiros de luz esperança

Janelas sobre o amanhã
Ontem nas molduras nas paredes
Risos secretos nas gavetas
Histórias a dourar no forno
Pão suor em fatias

E tu querida, em olhares
Que lavam o soalho que me tem
Arejas as salas que sinto
Da casa vida que é minha

Porque eu mereço, e já é tempo.

Riu alto para não ouvir o choro
Que lhe pingava dentro

Bebia aflito o mundo
Porque não podia com ele
Fundo atrás de fundo
De copos e viver

Bebia o velho negrume
De não saber ser
De não ter queixume
E só saber queixar

Loucura acelerada, medo de parar
Outra garrafa, talvez conforto

De si mesmo aborto
Navega sem porto

Ri alto outra vez...e mais um copo.

Vivo na fé de ti
Prosto-me no altar dos teus olhos
Quando me perco entre escolhos
De males que não pedi

Santificas-me com prazer
Rituais de pele e lábios
Suspiros astrolábios
Mapas de quem quer crescer

Louvor de religião profana
Mistério de cidade santa
É meu corpo que em ti canta
Glória aos véus, hossana

Invisíveis os salmos que te escrevo
De máscara as letras que aqui ponho
Descerão em ti no tempo do sonho
Sem segredo deles não me atrevo

Estou em amor peregrino
Buscando Graal no teu peito
No caminho mais estreito
Heróico feito o meu destino

Alegria ingénuo do acordar
Catedral de riso em coro
Procissão de mãos dadas no choro
De quem não quer mais que amar.

Sinto que já soube
Sinto cá atrás, lá longe, ao pé de mim
Parece que esqueci, mas de esquecer não lembro
Não sei se esqueci que esqueci
Ou se já só vivo de querer lembrar
E não lembro de viver.

Quero escrever, preciso
Escrevo o que estou a escrever
Não para dizer algo de interessante
De novo, sublime, ou poético
Escrevo porque preciso, agora

Tentei escrever algo que tocasse as pessoas
Que tivesse força mítica ou filosófica
Ou beijasse o sentir de quem me lesse
Mas não consegui

Assim escrevo isto por carência
Como o dependente em ressaca
Que chuta droga sem qualidade
Na ânsia da satisfação

É assim o meu vício
Uma fome de sempre e de muito
Que tenta saciar-se nas migalhas
Que caem no chão desta página

Vou continuar com fome, eu sei
Vou ressacar outra vez
Mas estas migalhas que escrevo agora
Têm a memória do pão de onde caem

O pouco lembra-me o sabor do muito
E assim escrevo este nada
Para poder sonhar com o tudo
Que irei escrever sempre amanhã.

Eu escrevo muitas vezes sobre mim

Eu, que escrevo, sou o mesmo sobre quem escrevo?
Precisa haver espaço entre eu que observo, e mim, aquele sobre quem escrevo

Se existe espaço entre entre eu e mim não faz dois?
Então não sou eu que escrevo, ou não é sobre mim que o faço

Por isso eu nunca escrevo sobre mim
Escrevo sobre o outro a quem chamo eu.




A QUEM CHAMO EU.

Galopas o teu cavalo querer
Na margem do rio vermelho
Onde estátuas de tanto sentir
Estão quietas de não fugir

Teus olhos futuro trazem ver
Em sonhos vitória para sempre
Na mão em riste a tua lança
Arma Sol de cor esperança

Cabelos força dão-te coroa
Manto negro largado ao vento
Do corpo régio que te és
Botas de ouro nos teus pés

O dia é mais dia por onde passas
Galope fêmea de todos os tempos
Deixando castelos que encimam o mundo
Nos reinos que crias de quem é profundo

Mulher galope em terras vivas
Luta que luta para não mais lutar
Pelos estandartes que não são seus
Em guerras derrota para cá de Deus

Com sorrisos milagre por armadura
Mulher História em actos nobreza
Vento mudança de quem te ama
Sopro vida na minha chama

É tempo de paz no teu galope
A tua glória é seres quem és
Sem esforço de guerra na tua arte
Fizeste-me cavaleiro do reino amar-te.

Existo-me na impossibilidade do amor
Alimento-me da fome que me engorda
Suspendo-me em quereres que não passam
Porque não sou , sendo o querer

Tenho-me sido querendo
Em ter, não me seria
Seria o que realmente sou
E eu sou-me em não me ser

Sou-me na impossibilidade de mim
Sou o projecto de vir a ser
O futuro que não será
O amor que não virá

Quero-me a querer
Sou possível na impossibilidade
Amo querer amar
E amo o amor que não amo.

Tuesday, January 9, 2007

Beijo-te como quem come
Para tornar tua carne
Minha carne

Quero-te dentro em mim
Enquanto entro em ti
Em eus de avesso

Estás quente, quente
E o suor que é rio
Da lava que me explodes

Dói-me o que te quero
E dói-me o que te entro
Termómetro da minha febre

Meio escuro meio luz
Aperto-te entre mim
No que me apertas em ti

E vejo, eu vejo
Esta mulher a quem beijo
Por te beijar assim

És tu, mulher que eu quero
E beijo-te porque te quero
E quero-te para beijar assim.

Ser livre
Não é ser livre de alguma coisa
É não ter alguma coisa de que ser livre.

Quase brilho
Vulto atrás da cortina
Catedral de pedra vento
Sonho esquecido sem saber
Luar em fundo de poço
Estendal de murmúrios
De teatro que se suspeita
Segredo de porta fechada
Carta de amor que não veio
Tela em branco quando o pintor morreu

É assim que me adivinho
No quase ser do que podia ter sido.

Monday, January 8, 2007

Teremos na mão a verdade
Quando não tivermos vontade
Os olhos fecharmos
E com a noite contarmos
Perdidos em momentos
Viajando com os ventos
Alma escancarada ao mar
Forte impulso de estar
Boca firme de desejo
Pele molhada de beijo
Trigo de ventre aberto
Lonjura de estar perto
Chuva branca de jasmim
Principio que não tem fim

É nisto que está o verdadeiro
Em cada momento derradeiro.

Seduzes-me porque não me seduzes
Tocas-me porque não me tocas
Sinto-te no que não fazes, fazendo
És, e chega, que é tanto
E este poema escreve-se sem mim
Que eu não sei parar o que me escorre da alma
Porque transbordei-me de ti.

Saturday, January 6, 2007

TERNOGRAFIA

Teus cabelos pingaram sobre o meu peito
No meio de um arfar rarefeito
Beijaste-me a testa de mansinho
Como taça branca despeja o vinho

Sorriste com olhos entorpecidos
Pingos de sangue por amor vencidos
A nossa paixão feroz, saciada
Levou-nos à paz, à enseada

Nossos corpos, ardentes sóis
Rolaram de bordo nos lençóis
Separados de corpo, não de alma
Permanecemos juntos nesta calma

O imenso silêncio que nos olhava
Tocou-nos de eterno, pois amava
Neste subir inerte, tão profundo
Deixou repente d’haver mundo

Ficámos sós, a respirar
E o divino, longe, a invejar.

Lá, onde a liberdade é não pensar em liberdade
As coisas são o que são, sem murmúrios
Sem nada que as separe do que é ser
Nem mesmo o saber que são

E a vida não tem quem fale dela
E se esqueça de viver
Com fome de sim e de não

Lá, onde não há aqui
Os olhos abrem e fecham
Sem nunca deixar de ver
Que o céu é chão

E as palavras são só isso, palavras
Não há vontade de as escrever
Porque entopem o coração.

Hoje estou em dia não
Era quarta-feira quando acordei
Mas o dia ficou teimoso
Dia não

Gosto do dia sim
Do dia talvez
E do eventualmente

Não gosto do dia não
Não dá para conversar com ele
Sem ficar com dor de cabeça.

Friday, January 5, 2007

Procurei-te em sonhos esquecidos na vertigem da dor
Lancei-me na conquista de partes de ti onde não estavas
Lutei com a noite e com o demónio da tua ausência
Estilhacei-me em escombros de mim mesmo, por ti
Marquei a carne com o aço fervente da minha fúria
Beijei a morte com a paixão do desespero

E morri…

Acordei como flor vermelha hasteada em frente ao Mundo
Para teus olhos verem, meu amor
Por favor não me colhas
Cresce comigo.

Ser livre
Ser tudo
E tudo poder ser
Ser mar
Ser Mundo
E nada ser não ter

Viver o sonho
Comer a vida
E ter o céu como corpo
Saltar o nunca
Furar o não
Mudar destino com um sopro

E ter, ter, ter, ter
Tanto que não haja mais a querer
Nada, não ter mais nada a ser
Movimento absoluto de não fazer

Não ter limite, nunca
E ser, só sendo, a viver
No todo que me espera
De não ter dia de morrer.

Nunca te beijei
Mas já te beijei tantas vezes
Em sonhos de mel desejo
Suspiro em forma de beijo

Nunca te beijei
Mas beijo-te a todo instante
Em sorrisos que me sinto
Novos quadros que me pinto

Nunca te beijei
Mas beijo-te para sempre
Sem futuro que eu tema
Beijo em forma poema.

Nunca te vi, mas sinto-te em mim
Como palavra que já soube e esqueci
Como palavra debaixo da língua que quero lembrar
Palavra que, sei, eu soubesse, traria todas as palavras
As palavras que falam do riso
As que falam do prazer
As que falam do que tremo quando me escreves
E aquelas que falam do tanto que sonhei contigo
Sem te ver
Sem saber
Mas sabendo
Que um dia te lembrarei
Na alma
No corpo
Naquilo que não sei dizer
E recordarei quem tu és
E recordarei quem eu sou.

É tão grande o mar que tenho dentro
Tão grande, tão grande
Por vezes afogo-me nele
E já não sou eu
Neste mar que é meu
Mas que me é tão estranho
E tão cheio de tudo e de tanto

Este mar que não sou eu
Navega-me por ser seu
Tudo o que já me doeu

Tão grande, tão grande
Este mar impossível
Este mar sem praias
Que me dissolve
E me resolve
E me deixa sem terra
A meio caminho do céu

Este mar é grande
E eu, tão pequeno
Sou tão grande
Por este mar estar cá dentro
E me dar a ser mais
Do que aquilo que eu sou.

Adoro o Sol dos teus olhos
Suspenso no céu de quem és
Vivo religião antiga e natural
Sem escrituras que me guiem
Neste sentir de começos primordiais
Universos criados sobre o teu sorriso

Adoro esse Sol no templo que me sinto
Em liturgia sempre nova
Nunca lá fui
( E sempre lá estive)
Ao Sol dos teus olhos

Tenho medo de Ícaro
Quando o olho de olhos despidos
Vou tão alto que caio de mim
Vejo-me tanto que não me conheço
Sou tão eu que pareço outro

Preciso desta religião
Torna-me santo de mim mesmo
Sou sacerdote e noviço
Para adorar o Sol dos teus olhos

Em mistério sagrado da fé
Olho o Sol de frente
Com olhos abertos e francos
Revela-se o milagre
Em força sobrenatural

Quanto mais olho este Sol
Mais sou e mais vejo
E mais sei que quero ver.

Não te vou perder
Porque nunca te tive
Não és coisa minha
És alma do vento e do espaço

Nunca te tive
Nem te vou ter
Mas tenho-te mais
Do que aquilo que é meu.

Há poemas que não escrevo
Porque não lhes toco
Ou não me tocam eles
E andam por aí
À espera de serem escritos

Por vezes roçam-me a superfície
E quase os sinto
E quase os escrevo
Mas não se deixam saber
E fico amnésico duma lembrança que nunca tive

Às vezes começo-os e não os acabo
Como se conhecesse um rosto ao longe
Mas que é estranho quando lá chego
E não acontece a conversa
Que era suposto ter acontecido

Outras vezes nem se começam
Mas vêm tão perto de começar
Que fico inquieto e estranho
Mudo, em frente ao papel
Em tensão de acontecer que não acontece

Nestes momentos escrevem-se em mim
Vontade de qualquer coisa
Qualquer coisa na vontade
Que não é
E é por não ser

Escrevo este poema
A todos os poemas que não escrevo
Dando-lhes existência porque os falo
E os sei sem os saber
Por saber que nunca os saberei.

Poesia

A minha casa é nos abraços de quem amo
E o meu jardim brilha nos olhos de quem me quer
A cidade que percorro constrói-se nas conversas e nos risos
Avenidas de luz aberta e becos secretos que dão para as traseiras

O meu emprego é amar
É ser lírico no meio dos burocratas
E servir utopia ao balcão da vida
Mantendo conta no Banco Sentir & Companhia

Produzo momentos que não produzem
E tenho o lucro de não dar lucro
Que eu sou muito mais que o preço que me dão
E tenho muito mais do que aquilo que tenho

Sou aquilo que se é por se ser
E tenho aquilo que se tem por não se ter
Choro-me porque não sou mais, é certo
Mas tenho-me mais por me chorar

Dizem-me que não tenho futuro
Que a vida não é feita de poesias e amores perfeitos
Mas o futuro vem sempre com o amanhã
E a minha vida é mais vida no amor da poesia.