Sunday, August 16, 2009

A procura de sentido
Esgota-se no sentido
Da procura

Procurar o sentido
Separa o sentido
Do sentir

Sentir o sentir
Sem procurar
O sentido

Dá sentido ao sentir
Sem sentido encontrar
Por sentir se bastar.

Thursday, August 13, 2009

Para a vastidão cósmica
Uma galáxia é mais pequena
Que um átomo para um homem

O universo fica impassível
Infinitamente indiferente
À morte de um homem

Mas quando morre
Um homem
Morre um universo.

Antes do princípio
De tudo
Não havia antes
Nem tudo
Nem havia não haver

Havia nada
Que não havia
Porque para haver
Nada
Teria de haver
E nada havia

Antes do princípio
Não havia fim
Porque não havia
Que fosse
E acabasse

Antes do princípio
Não havia
Quem pensasse
No que havia
Antes de haver pensar
E antes de haver que houvesse
Que desse que pensar.

Wednesday, August 12, 2009

Vento descalço
Delírio
Ombreira das sombras

Chuva imóvel
Cigarro
Cheiro de vidas opacas

Cristal difuso
Presente
Função de estar sozinho

Intenção reclusa
Desnorte
Rua sem regresso

Corpo escancarado
Fuga
Venda em que se perde

Olhar remoto
Ausência
Velho em tom criança.

Tuesday, August 11, 2009

A António Sarpe, mestre e amigo.

Suave como amanhecer
Desliza na força do corpo Mundo
Enraizado no coração

Alegria primavera
Ave do paraíso
Lançando a semente dourada

Abraços universais
Criam constelações de ser feliz
No ninho branco da esperança

Deus que é mais deus
Por ser o berço de deuses
No fulgor da doçura encantada

Palavra, carne e sangue fortaleza
Prazer de ter prazer no mar de ser grande
Cores da renascença da vida

Conquistaste esta praia com a nau do teu sorriso
Desfraldando o padrão da liberdade
E nós que te bebemos, encontrámos o tesouro.

Larga o riso, João
Senta-te à mesa direito
Com o peso do olhar que te põe freio

Sabes, João
Querer ser mais faz mal
Sonhar tira o pão da mesa

Pois é, João
Eu também nunca fiz o que quis
Temos de fazer sacrifícios para sermos alguém

Se eu me sinto alguém?
Não faças perguntas parvas
E come a sopa!

Diáspora inerte
Respiração nocturna
Fragmentos de sentir peremptório
Império ajoelhado a si mesmo

Realidades metafóricas equilibram-se
Na tristeza emprestada

Dormir é o desejo
De quem marcha em seu redor
Buscando a nota certa
Que alivie o acordar.

O ser deixou de só ser
Quando passou a existir
Olhou-se no espanto de si
Começando a reflectir

Ser só ser já não chegava
Precisava de sentido
“Se existo é para quê?”
Queria sentir-se cumprido

Ao descobrir-se mortal
Criou deuses eternos
Negou a vida acabar
Vieram céus e infernos

Para livrar-se do medo
Colou ordem ao caos
Tornou o mito em lei
Selando os bons e os maus

O medo que não acaba
Demarcou-se a terra
Sobre muros e estandartes
Começou-se a guerra

De tanto querer existir
Deu cabo da existência
Reaprender a só ser
Impõe-se a nova ciência

Bastar-se no que se é
Na luz de cada olhar
Em que tudo é perfeito
Por apenas ali estar.

Friday, August 7, 2009

Para os seres que são
E pensam no que é ser
Não ser é uma intrusão
Que não podem conceber

Só se conheceram sendo
Não sendo não se conheciam
Paradoxo tremendo
E do facto desconfiam

Não pode a morte ser morte
Traria o fim infinito
E num golpe de sorte
São salvos pelo mito

Já não morrem afinal
Porque matam o não ser
Acontece a vida total
Só depois de morrer.

Wednesday, August 5, 2009

“O que hei de fazer?”
Resigna-se o explorado
Desnutrido do poder
Que lhe mudaria o fado

Uma mão invisível
Pesada como aço
Limita-lhe o possível
Sustenta-lhe o cansaço

“Temos de produzir
Dar lucro ao país”
Repete a sorrir
Levantando o nariz

Orgulho de cego
Na sua falta de luz
Martelando no prego
Que o prende à cruz

A dominação é completa
Quando o dominado
Aceita como certa
A lógica do seu estado.

Thursday, July 2, 2009

A cadela entrou na igreja
E urinou no altar
Na sua voz que troveja
Correu o padre a gritar

Ai, tinhosa que te esgano
Candelabro como clava
Persegue o bicho profano
Que de medo se raspava

Arremesso bem medido
Da lança improvisada
Coxeio e ganido
Da fêmea escanzelada

Vá de retro saco de pulgas
Uivou alto o guardião
Quem é que tu te julgas
Digna de salvação?

Ficou feliz o sacerdote
Do seu acto sacrossanto
Ajeitando o seu capote
Como de rei fosse o manto

É tão bom ser dos bons
Ser um porteiro do céu
Concentrar em si os dons
E saber para cá do véu

E eu que sou ignorante
E percebo pouco de fés
Ficaria radiante
Se o bicho lhe mijasse nos pés.

Tuesday, June 30, 2009

Corpo de Mar

Deusa descalça

Celebra a dançar

O sonho de amar

Que o gesto realça



Sorriso estandarte

Do reino carícia

Que leva a amar-te

Só por olhar-te

Serena delícia



Danças a vida

E a vida te dança

Em cor divertida

Por ser tão vivida

No teu riso criança



O Universo conspira

Juntou-nos enfim

E este poema respira

Esta Deusa que inspira

A vida em mim.

Wednesday, June 24, 2009

Pulsar

A noite espessa e antiga escorre sangue virgem
Retorno alucinado nos uivos das bacantes

A lua reina metáfora de si mesma
Explodindo nas sombras e nos olhares de vida abrupta

A fêmea resfolega de insaciedade no centro dos sexos que se mergulham
Fúria acesa de imortalidade, rasgar de carnes e fronteiras

O deus renascido emerge dos corpos diluídos
A dança ferve-se e tolda-se orgásmica e soluçante
Paroxismo tremente dos perdidos

O vórtice enraíza-se no seu útero de seiva renovada
Fecundando a terra aberta e receptiva
Que da morte necessária faz emergir a vida

Na curva que recria o início
As dançarinas despejam-se esgotadas no torpor de sexo sanguíneo
Deixando-se no sono inerte dos vencidos

O silêncio primordial ecoa e dissolve as formas
Corpos universo em sentir de éden amniótico
Só Um em êxtase de si mesmo

Novo cosmos
Novo tempo
Natureza reiniciada

Pulsa o ritmo do retorno
No limiar da luz

Imagina-se a manhã no fresco que ensopa a pele

Regresso
Encontro do outro em si
E de si no outro

Abrem-se os olhares
Chegou o Sol, a palavra, a regra.

Wednesday, June 3, 2009

A promessa da vida depois da vida criou o desprezo pela vida
É a vida de um “santo” mais santa do que a de uma criança a morrer de fome?
A vida é os seres que a vivem!

Enfiem Platão dentro da caverna a que nos condenou.

Wednesday, May 27, 2009

DEMÉTER E DIONÍSIO

Estou bêbado de ser
Mergulhado na ambrósia do encontro

Toda a vida é uma vida
Todo o corpo é um corpo
E a música enraíza-me em ti

Partilhamos pão e vinho
Casa e mundo
Divino e humanidade

Viço de corpos semente
Gestos colheitas
Ritmos da criação

Esta dança de fogo sagrado
É um casamento divino
Dura este momento fugaz
Mas é um mistério eterno
Que dura um mundo inteiro

Porque os deuses dão-se vida
Nos suspiros da nossa entrega.

CANÇÃO DE EMBALAR

Pequenino
Pequeno funcionário
Tudo encolhes
Nas contas do teu rosário

Tuas certezas
E pompas arrogantes
Misérias convictas
Do céu dos ignorantes

Pequenino
Pequeno ditador
Apodreces
Os frutos do amor

São teus filhos
Coisas sem vontade
A tua sombra
Esmaga a liberdade

Pequenino
Pequeno moralista
Dás morte ao sonho
Desprezas a conquista

Vê se dormes
Para te calares
Um bom soninho
Sem nos chateares.

Wednesday, May 13, 2009

Minotauro

Ariadne
Dá-me a segurança da tua espera
Repousa-me com a tua guia luzente
Que vou lançar-me neste útero
Labirinto pulsante e irrigado de desejo

Está em mim o Mito
A renúncia de quem avança

Vou perder-me
Tenho de perder-me
Se quero receber-me em glória

Mantém-me ligado ao fora
Ao terreiro dos olhares
Que lá dentro estou comigo sem mim

Senta-te e espera-me
Com o teu vaso de água fresca
E o cesto de romãs
Que eu já venho

Vou salvar o Minotauro
Libertá-lo da vergonha que o prendeu aqui

O resgate do seu poder
Será a salvação do nosso reino, Ariadne

Os deuses serão mais homens
E os homens serão mais deuses

E deusas, Ariadne

Espera-me, meu amor sereno
Que eu vou libertar a vida
Lá longe

Sem sair do teu colo.

Fundo do Poço

Na queda olhava o fundo

Tentando antecipar o dano

Do embate todo humano

De quem lhe dói o mundo


E por olhar para o fundo

Nem sonho de luz via

O negrume não alumia

No seu abraço rotundo


Precisou bater no fundo

Sofrer a dor do embate

Desamparo sem resgate

Ricochete imundo


Para a queda ser parada

Que todo o ser lhe doa

Neste fundo de ser pessoa

Mentira derrotada


O fundo também é chão

Sustenta o levantar

E agora já pode o olhar

Erguer-se em elevação


E é no escuro menos dia

Abismo que tudo reduz

Que consegue ver a luz

Que a cair não via.

Tuesday, April 28, 2009

Antes do nada
Recuperar a semente
Nocturna
No frio da certeza

Umbigo terreno
Sobre a sombra vasta
Pegadas de água
No princípio

Ir à fonte
Ir ao centro
Que é agora
Cutelo da pergunta

Recordação
Eco de sentir
Névoa de batalha
Ruído da bonança

As palavras já não marcam
E o sonho já não vence
Porque a vitória agora é do corpo
E tudo é natural como o amor.

Wednesday, April 1, 2009

Cama desfeita sobre o mar, enraizada no solstício do ser
Poalha de gestos inacabados, sussurros inertes de desaprender
Braços sonho, sorrisos verbo, constelação de sonhos refeitos
Brisa que dança descalça no limite dos corpos eleitos

Soberana fonte invertida, no arco primal do templo
Quadro que se pinta a si mesmo na certeza do exemplo
O tempo parou a olhar-se, na elipse da pele sem segredo
Erigiu o padrão nesta praia, onde o amor venceu o medo.