Sunday, August 1, 2010

O fogo de Dionísio tomou-me por dentro

E o meu sangue dourado vibra de heresia

Cavalgando o Dragão púrpura até ao centro do vulcão

Lanço a seta da loucura desperta

No último momento do suspiro

Instante prévio do fim

Que tudo inicia...

Wednesday, May 5, 2010

Poesia
É o pão rasgado pelos dentes da fome
O sangue que escorre no matadouro
O uivo arcaico da mulher a parir

Poesia
É a estalada recente na cara do bruto
O punho erguido acima da turba
O fogo que aquece as mão calejadas

Poesia
É o sexo aberto na beira da noite
A febre vermelha que frita os corpos
O copo partido contra a parede

Poesia
É a faca cravada na vida de alguém
O riso tremente na boca do louco
O xaile caído na esquina da rua

Poesia
Não é nada disto nem deixa de ser
E eu que não sei dela
Lamento-me a escrever.

Wednesday, March 31, 2010

Sim, eu sei

Eu entendo

Essa dor que confunde

Que estilhaça por dentro



Parece um sentir sem sentido

Um abismo que acena

Para a queda



Eu sei,

Custa muito

Lidar com feridas

Tão grandes

Que parece que

Somos ferida

Que somos dor



Sim, eu sei

Que por doer tanto

Apetece fugir

Saltar para longe

De quem somos



Eu entendo

Custa muito

E parece que

Todos os abraços

Do mundo

Não chegam



Para limpar as lágrimas

Do fundo secreto de nós mesmos



Nesse centro do labirinto

Onde estão as feras

Que temos medo que nos devorem



Eu sei, porque aí estive

E a dançar, no terreiro do amor

Fui descobrindo o caminho de volta

Para o céu dos abraços

Para a paisagem dos encontros

E dos olhares de cura



Vem

Dança connosco

Deixa-nos abraçar-te

Deixa-nos olhar-te

Dizer-te que tudo está bem

Que tudo está certo



O abismo não é abismo

É a antecâmera do voo

Nas asas douradas do amor



E as feras, depois de olhadas

São apenas sombras à procura da luz

Trá-las para dançar também




E deixa encantarmo-nos

Com a beleza do teu ser.

Wednesday, March 17, 2010

Ser
Como quem tenta
Agarrar o nevoeiro

Gestos desertos
No corpo engrenagem
Sentir á margem

Semântica anestesista
Que derrota pela conquista
Sorrisos uniforme em tons néon

A vida a meia haste
Não há que chegue
Não há que baste

Penumbra intermitente
Viver sozinho no meio da gente.

Friday, March 12, 2010

Alguém

(Que pensa nestas coisas)

Disse

E eu ouvi

Que este universo

Não é isso

Universo

É apenas mais

Um

Verso

Do Multiverso



Disse

Que múltiplos cosmos

Flutuam

Como bolas de sabão

Na imensidão

Da não existência



Como berlindes

Nas mãos de miúdos

Que faltaram à escola

Ou bolas de naftalina

Que caíram do saco



Eu, que fiquei a pensar nisso

Porque alguém

(que estuda estas coisas)

O disse e eu ouvi



Pensei

Que raio é que interessa

O que penso sobre isso

Ou sobre quem pensa em pensar nisso

Já que pensava na minha

Pequenez de pensar

Em frente de algo tão grande

Que pensar ou não pensar

É o mesmo que o inverso

E tanto faz se lembro ou esqueço

De esquecer ou de lembrar



Apre! Tropecei no passeio

Perdi-me em desequilíbrio

No susto de ir ao chão



Lá se foi a cosmologia

A coxear pela rua abaixo.

Thursday, March 11, 2010

Aquele momento
Aquele momento
Infinitamente pequeno
Tão pequeno
Que o tempo já não se é
Fica a olhar para si
Eterno
Tão grande
Por ser tão infinitesimal

Sim, esse momento
Antes
Mesmo antes
Exactamente antes
De levar um murro na cara

Instante relâmpago
Dimensão outra
Tempo outro
De um universo contido
Colapsado
Num punho

Toda a existência
Concentrada
Focada
Situada
Num objecto de carne
E ossos

Naquele instante
Muito menos que instante
Tão pequeno que teríamos
De inventar
Uma nova palavra
Se o quiséssemos dizer

Nesse não instante
Nesse não momento
Sim, esse mesmo

O corpo ruge
Rebenta
Sem som
Na erupção
Violenta
Da sua animalidade

Toda a história
Cósmica
Evolutiva
Filogénica

Explode
Estilhaça os diques
Os limites

Da normalidade
Neo cortical
Verbal
Individual
Para ser
Animal

Esse momento
Infinito
Parado
Em movimento

Mesmo antes
Exactamente antes
De levar um murro na cara

Rasga qualquer filosofia
Oblitera toda a crença
Remorso ou esperança

Todo o ser
Resumido
Ao antecipar do embate

Na inevitabilidade
Suprema
Absoluta
Abrupta

Do instante
Sim, esse
Esse mesmo
Exactamente antes
De levar um murro na cara

Tuesday, March 9, 2010

Viste o céu?
Sei lá
A noite
Já não é minha

E a ternura?
Murchou
Talvez
De se ter cansado

Já não voltas?
No sonho
Talvez na cantiga
Ou na chuva sobre a pele

Porquê?
A vida é dona dela
E o rio não pede desculpa
Por ter como destino o mar.

Friday, February 19, 2010

Já tudo foi dito
O que há a dizer
Não pode ser dito
Aquilo que é ser

E eu que o digo
Só para o dizer
Sou sendo o que digo
E dizendo sou ser.

Tuesday, January 19, 2010

A existência surda e fria
Desta mesa
Só é fria e surda
E existência
Porque eu existo
E tenho consciência
De que existo
E tenho consciência
E dou nome
E qualidade
À existência

A mesa é o que é
Mas só é
Porque eu sou
E a sinto
E a penso a ser
Não fosse eu
E não a pensasse
Não seria
Ou seria o que fosse
Não sendo eu a ser.

Sunday, November 22, 2009

A menina Pinóquio

Feita de carne e vontade

Aprendeu o que é próprio

A uma menina da sua idade



Para agradar ao carpinteiro

Senhor do bom e do mau

Anulou-se por inteiro

Tornou-se menina de pau



Agora fios invisíveis

Estão a guiar-lhe os gestos

E dos mundos possíveis

Só lhe sobraram os restos



Não suporta a verdade

Nem a vida que é acesa

Vive-se pela metade

E precisa de certeza



Defende de queixo erguido

O senhor que a manobra

Que lhe criou o sentido

Na tentação da cobra



Ai que o prazer é maldito

O sacrifício é que eleva

O sentir é proscrito

E da luz fez-se treva.

Wednesday, November 4, 2009

Que a dor de ser
Não me faça
Um ser de dor
E que beber
Da rubra taça
Me traga o amor.

Nas galés da produção
Ao som do chicote sucesso
Congela-se o coração
Não se lhe pode dar preço

Ecoa o tambor da escassez
Ainda falta o que satisfaça
Nunca chega o que se fez
E a fome que não passa

Mantêm o desejo nos curros
Conforto de não ousar
Minguam o touros a burros
E alegram-se a comprar.

Thursday, October 29, 2009

Primeira Dança

Recordo-me de estar contigo
Algures em mim
No abrir de olhos da madrugada
No rio que trouxe a descoberta

Estive contigo
Tenho a certeza que sim
A minha pele recorda quem tu és

Corremos juntos, talvez
À sombra da grande montanha
Que segura o céu

Conquistámos a beleza
Criámos a verdade de estarmos vivos
No embalo da nossa dança

Já cá estiveste
No meu sorriso arco-íris
Encantamento que cá deixaste

Olha-me, agora
Lembras-te de mim?
Sou aquele que por te recordar
Te ama sem te conhecer.

Wednesday, August 26, 2009

Uma gota de Universo
Caiu-me na renúncia
Á esperança

O sonho duplicou-se
De ambrósia
E o amor tornou-se rei.

Marcar a folha
Com a marca da palavra
Para haver mais
Para ser mais

E com a marca da palavra
Entrar dentro do corpo
De quem lê
Através dos olhos
E pela voz que lê
Dentro

A palavra
Feita de pontos e linhas
E sons dentro da cabeça
Que por um código
Que existe
Apenas porque sim
Evoca
Invoca
Sensações
Imagens
Memórias
Significados

Esta palavra
Aqui escrita
E lida
Agora
Deixará de ser palavra
Quando não estiver ninguém
A lê-la

Nesse momento
Já não é palavra
Será apenas pontos e linhas

Ou já será coisa nenhuma
Porque não haverá alguém
Que veja e sinta
Que é alguma coisa

Assim, esta palavra
Daqui a pouco
Já não será.

Liberdade
Escusa
Esquina
Difusa
Reserva de sonho
Recusa

Centro
Invisível
Ser o
Possível
Sondar a presença
Desnível

Religião
Certeza
Vida
Represa
Perder a conquista
Torpeza

Palavra
Verso
Ser o
Inverso
Escrever a impulso
Imerso

Gestos fragmento
De sentir disperso.

Monday, August 24, 2009

Raiar penumbra
No recôndito espaço
Solene
Da solidão

Pátria sanguínea
Recobro da ternura
Deslumbramento

Luz confessa
Regressada à noite
Após a batalha
De ser gente

Ser vítima
È o estatuto
Dos esquecidos
De si.

Thursday, August 20, 2009

Dizem
Ao homem
Pequeno
Que é livre

E ele acredita
Até houve
Uma revolução
Para o libertar

E assim
Ele
Livremente
Escolhe
A servidão.

Corpo
Preso
Á máquina
Estilizada
Esterilizada
Brilhante
Cortante
Que o alimenta
Fragmenta
Dormenta
Automatiza
Des-somatiza
E o corpo
Autoriza.

Todo o homem
Nasce
De mulher

No caminho
Para ser
Homem

Tem de separar-se
Largar
A casa
Do feminino

E voltar
Quando quiser
Tornar-se Pessoa.