Wednesday, March 28, 2012

Versos corridos com o mote EU SOU

Eu sou

O mar de Agosto
O perfume do prado recém nascido

Eu sou
Sou eu

A nota musical que brilha nas lágrimas
Poema entregue à vida

Sou

Sou o ser que é
Sem ser o que é

Sou o som de: Eu sou

Sou esta página
Não sou

Acabo de ser
O ser inacabado de ser

Sou o teu olhar
Olho o teu ser

Canto o ser
Sou o canto

E a vida
Que é em mim

Sou a noite
Sim, sou a noite

Sou e não sou
Porque não deixo de ser
Aquilo que não sou
Sendo aquilo que sou

Sou o não sou

Sou tudo

Sou o amor que ama
E amo amar o amor

Eu sou aquilo que amo

Eu sou tu
Tu és eu

Sou quem tu és
Porque ambos somos o ser que é

Eu sou nós

Porque o que eu sou
É-me dado pelo que és em mim.

Tuesday, March 13, 2012

Poemazito teimoso, que saiu por sair

hoje nasceu do meu peito
o desejo de te beijar
e assim, por desejar
beijo-te por beijar
que desejar por desejar
É o meu desejar eleito

Friday, February 24, 2012

Mulher Dança

Filigrana de gestos labareda
Esculpem de existência o nada
Carne que se antecipa à queda
A verdade é a sua espada

Olhar seara e infinito
Montanha régia de ser
Nascente de sonho e mito
Fome de desaprender

Desejo hasteado no mundo
Vermelho como a seiva da vida
Sentir que se enraíza no fundo
Da sua identidade cumprida

Cabelo ao vento esperança
Coroa de espiga e malmequer
Enamoro-me da tua dança
Deusa de encanto, Mulher.

Thursday, February 16, 2012

VERSOS IMPERFEITOS SOBRE A PERFEIÇÃO

Amar é olhar com o coração
E o coração não julga, sente
E naquele instante presente
Está contida a perfeição

É perfeito aquilo que existe
Se não quisermos mais do que seja
Pois querer diferente do que se veja
Não é perfeição que se conquiste

Perfeito é ver como respirar
Natural como a erva na estrada
Que não quer que seja nada
Diferente de ali só estar

A perfeição é o amor a olhar
Que por amar tal como vê
Diz ao que ama: mostra-te e sê
E mais não sejas que ser a amar.

Tuesday, January 24, 2012

Sou o centro ampliado do gesto
Volúvel como as sombras na neve
Suspira-se na antecâmara da palavra
O broto pulsante de infinito
Que acede à vertigem de ser

Sou a floresta mais antiga que o olhar
Vento que desbrava a certeza
Sulcos de ritmo despido e sanguíneo
Borbulham na seiva luminosa do meu peito
A dança veste-se de mim e do sopro universal

Sou inteiramente vivo e escancarado
Pela força serena e brutal das manhãs do princípio
Arrancado da lisura adormecida
Tomo a forma da paixão urgente dos náufragos
Dançando a criação do mundo no estrondo de quem se mergulha

Sou e serei
O rosto de céu dos virgens fecundos
Paraíso ondulante e descalço que se pare em cada gesto

Sou e serei
A dança que em mim se dança e sem mim já era dança
E desde o tempo em que o tempo é tempo brilha nos olhos de uma criança.

Na véspera do sentir
Abri a janela dos dias

Pássaro incolor debruçado
Na réstia esquiva da memória

Útero subversivo
Remissão do tempo perdido

Alcance do grito primal
De quem nasce sozinho

Viver à sombra dos embates
Das máscaras soluçantes

Semente de fogo que rasga
A pele rugosa do inevitável

É tempo de ser presença
Vida sempre e criança

No sal estupefacto da lágrima
Cresce a rosa do amor.

Palavras de pedra
Abruptas como a morte

Sulcos na margem do olhar
Enquanto sombras liquefeitas
Rasgam o espaço entre os dias

Abrir o sangue, abrir
Ao sopro da vertigem concreta
Na fome dos passos de inverno

Escasseia a carne no sentir
E a febre de partir
Entrançado de lágrimas na rota dos vencidos

As pegadas no teu peito
São o rosário da minha descrença
E já nem sonho sonhar em ter esperança

A música fechou-se no teu ventre antigo
E a garra que me marca sempre esteve contigo.

Tuesday, January 10, 2012

Do fundo do teu bosque antigo irradiam riachos de luz verde-esmeralda
Tremeluzem encantos na sombra das árvores, raízes poemas no abraço das copas

A terra respira-se no espaço ínfimo entre o sonho e a palavra
Teu peito desnudo cumpre a saga do amor

Lágrimas de assombro no mar da despedida, a boca vermelha no murmúrio do prazer

Mas é a tua noite de céu sistino que relembra a vitória da dança
Prado diamantino acima da memória, vento de março que traz o regresso

Hoje és Tu, ante e após o impossível
Rugido imperial dos Vivos pela ousadia de ser carne... e verdade

A marca do teu voo angelino esculpe os gestos do amor
Sobre os cumes da poesia, nos rostos altivos dos deuses

Serás sempre quem te ama
Pois quem te ama é mais ser
E amar...
É ver-te a Ser.

Saturday, October 29, 2011

DANÇA DE SHIVA

A dançar...
O deus comeu da minha carne
E bebeu do meu sangue

Centro da Existência

Umbigo primordial criador de galáxias

Imobilidade e-terna
Oculta na vertigem do movimento

Real-idade do eixo do mundo

Presença...

Algo de mim é mais que Divino.

Monday, May 16, 2011

A mão que agride
A voz que oprime
O olhar que mata
Esculpem os corpos
E o futuro.

Monday, February 21, 2011

A vida soletra-se nos meus passos

Sou o chão que me caminha
E o raio de imensidão que me atinge por dentro

Sou a carne o silêncio e o sangue
A fúria de brotar de si

Sou o sexo ungido e total
Coluna do templo absoluto
Que respira em conjunto com os deuses

Sou os teus olhos de amor
A febre do teu desejo
A explosão do teu voo dourado

Sou a púrpura túnica
Que te dispo
A música que me lambe os sentidos
O grito murmurado do êxtase

Sou a glória da vida que se cumpre
No alcance inesperado da verdade

Sou, por vos ser a ser
Vejo, porque me dão a ver

E a terra sagrada é nossa
De corações a arder.

Thursday, October 7, 2010

O teu rosto
Claro
De luz suave
Verdadeira
Onde a asa do anjo
Acabou de tocar

Traz a vida erguida
Por ser tão vida
E um pai tão vivo
Por ser feliz
E de ter tanto
Ser aprendiz

No teu rosto
Querida filha
Reescreve-se a história
E recria-se o mundo
Que baila e brilha
No teu sorriso

E é tudo do sonho
O que preciso.

Friday, October 1, 2010

O Dionísio que me habita
Faz-me ferver e soletrar a loucura
Dos que se mergulham para se encontrarem
Na vastidão desmembrada do êxtase

Quer tornar-te bacante do meu ritual
Da minha religião desnudada
Sombra nocturna que sobe até ao cume dos apetites
E corpos entregues à irremediável explosão cósmica
Dos que chegaram à praia saciada e remota do descanso…

Tuesday, August 10, 2010

Ser livre
Ser tudo
E tudo poder ser

Ser mar
Ser Mundo
E nada ser não ter

Viver o sonho
Comer a vida
Ter o céu como corpo
Saltar o nunca
Furar o não
Mudar destino com o coração

E ter, ter, ter, ter
Tanto que não haja mais a querer
E ser, ser, ser, ser
Nada, não ter mais nada a ser

Movimento absoluto de não fazer

Não ter limite, nunca
E ser, só sendo, a viver
No todo que me espera
De não ter dia de morrer.

Sunday, August 1, 2010

O fogo de Dionísio tomou-me por dentro

E o meu sangue dourado vibra de heresia

Cavalgando o Dragão púrpura até ao centro do vulcão

Lanço a seta da loucura desperta

No último momento do suspiro

Instante prévio do fim

Que tudo inicia...

Wednesday, May 5, 2010

Poesia
É o pão rasgado pelos dentes da fome
O sangue que escorre no matadouro
O uivo arcaico da mulher a parir

Poesia
É a estalada recente na cara do bruto
O punho erguido acima da turba
O fogo que aquece as mão calejadas

Poesia
É o sexo aberto na beira da noite
A febre vermelha que frita os corpos
O copo partido contra a parede

Poesia
É a faca cravada na vida de alguém
O riso tremente na boca do louco
O xaile caído na esquina da rua

Poesia
Não é nada disto nem deixa de ser
E eu que não sei dela
Lamento-me a escrever.

Wednesday, March 31, 2010

Sim, eu sei

Eu entendo

Essa dor que confunde

Que estilhaça por dentro



Parece um sentir sem sentido

Um abismo que acena

Para a queda



Eu sei,

Custa muito

Lidar com feridas

Tão grandes

Que parece que

Somos ferida

Que somos dor



Sim, eu sei

Que por doer tanto

Apetece fugir

Saltar para longe

De quem somos



Eu entendo

Custa muito

E parece que

Todos os abraços

Do mundo

Não chegam



Para limpar as lágrimas

Do fundo secreto de nós mesmos



Nesse centro do labirinto

Onde estão as feras

Que temos medo que nos devorem



Eu sei, porque aí estive

E a dançar, no terreiro do amor

Fui descobrindo o caminho de volta

Para o céu dos abraços

Para a paisagem dos encontros

E dos olhares de cura



Vem

Dança connosco

Deixa-nos abraçar-te

Deixa-nos olhar-te

Dizer-te que tudo está bem

Que tudo está certo



O abismo não é abismo

É a antecâmera do voo

Nas asas douradas do amor



E as feras, depois de olhadas

São apenas sombras à procura da luz

Trá-las para dançar também




E deixa encantarmo-nos

Com a beleza do teu ser.

Wednesday, March 17, 2010

Ser
Como quem tenta
Agarrar o nevoeiro

Gestos desertos
No corpo engrenagem
Sentir á margem

Semântica anestesista
Que derrota pela conquista
Sorrisos uniforme em tons néon

A vida a meia haste
Não há que chegue
Não há que baste

Penumbra intermitente
Viver sozinho no meio da gente.

Friday, March 12, 2010

Alguém

(Que pensa nestas coisas)

Disse

E eu ouvi

Que este universo

Não é isso

Universo

É apenas mais

Um

Verso

Do Multiverso



Disse

Que múltiplos cosmos

Flutuam

Como bolas de sabão

Na imensidão

Da não existência



Como berlindes

Nas mãos de miúdos

Que faltaram à escola

Ou bolas de naftalina

Que caíram do saco



Eu, que fiquei a pensar nisso

Porque alguém

(que estuda estas coisas)

O disse e eu ouvi



Pensei

Que raio é que interessa

O que penso sobre isso

Ou sobre quem pensa em pensar nisso

Já que pensava na minha

Pequenez de pensar

Em frente de algo tão grande

Que pensar ou não pensar

É o mesmo que o inverso

E tanto faz se lembro ou esqueço

De esquecer ou de lembrar



Apre! Tropecei no passeio

Perdi-me em desequilíbrio

No susto de ir ao chão



Lá se foi a cosmologia

A coxear pela rua abaixo.

Thursday, March 11, 2010

Aquele momento
Aquele momento
Infinitamente pequeno
Tão pequeno
Que o tempo já não se é
Fica a olhar para si
Eterno
Tão grande
Por ser tão infinitesimal

Sim, esse momento
Antes
Mesmo antes
Exactamente antes
De levar um murro na cara

Instante relâmpago
Dimensão outra
Tempo outro
De um universo contido
Colapsado
Num punho

Toda a existência
Concentrada
Focada
Situada
Num objecto de carne
E ossos

Naquele instante
Muito menos que instante
Tão pequeno que teríamos
De inventar
Uma nova palavra
Se o quiséssemos dizer

Nesse não instante
Nesse não momento
Sim, esse mesmo

O corpo ruge
Rebenta
Sem som
Na erupção
Violenta
Da sua animalidade

Toda a história
Cósmica
Evolutiva
Filogénica

Explode
Estilhaça os diques
Os limites

Da normalidade
Neo cortical
Verbal
Individual
Para ser
Animal

Esse momento
Infinito
Parado
Em movimento

Mesmo antes
Exactamente antes
De levar um murro na cara

Rasga qualquer filosofia
Oblitera toda a crença
Remorso ou esperança

Todo o ser
Resumido
Ao antecipar do embate

Na inevitabilidade
Suprema
Absoluta
Abrupta

Do instante
Sim, esse
Esse mesmo
Exactamente antes
De levar um murro na cara

Tuesday, March 9, 2010

Viste o céu?
Sei lá
A noite
Já não é minha

E a ternura?
Murchou
Talvez
De se ter cansado

Já não voltas?
No sonho
Talvez na cantiga
Ou na chuva sobre a pele

Porquê?
A vida é dona dela
E o rio não pede desculpa
Por ter como destino o mar.

Friday, February 19, 2010

Já tudo foi dito
O que há a dizer
Não pode ser dito
Aquilo que é ser

E eu que o digo
Só para o dizer
Sou sendo o que digo
E dizendo sou ser.

Tuesday, January 19, 2010

A existência surda e fria
Desta mesa
Só é fria e surda
E existência
Porque eu existo
E tenho consciência
De que existo
E tenho consciência
E dou nome
E qualidade
À existência

A mesa é o que é
Mas só é
Porque eu sou
E a sinto
E a penso a ser
Não fosse eu
E não a pensasse
Não seria
Ou seria o que fosse
Não sendo eu a ser.

Sunday, November 22, 2009

A menina Pinóquio

Feita de carne e vontade

Aprendeu o que é próprio

A uma menina da sua idade



Para agradar ao carpinteiro

Senhor do bom e do mau

Anulou-se por inteiro

Tornou-se menina de pau



Agora fios invisíveis

Estão a guiar-lhe os gestos

E dos mundos possíveis

Só lhe sobraram os restos



Não suporta a verdade

Nem a vida que é acesa

Vive-se pela metade

E precisa de certeza



Defende de queixo erguido

O senhor que a manobra

Que lhe criou o sentido

Na tentação da cobra



Ai que o prazer é maldito

O sacrifício é que eleva

O sentir é proscrito

E da luz fez-se treva.

Wednesday, November 4, 2009

Que a dor de ser
Não me faça
Um ser de dor
E que beber
Da rubra taça
Me traga o amor.

Nas galés da produção
Ao som do chicote sucesso
Congela-se o coração
Não se lhe pode dar preço

Ecoa o tambor da escassez
Ainda falta o que satisfaça
Nunca chega o que se fez
E a fome que não passa

Mantêm o desejo nos curros
Conforto de não ousar
Minguam o touros a burros
E alegram-se a comprar.

Thursday, October 29, 2009

Primeira Dança

Recordo-me de estar contigo
Algures em mim
No abrir de olhos da madrugada
No rio que trouxe a descoberta

Estive contigo
Tenho a certeza que sim
A minha pele recorda quem tu és

Corremos juntos, talvez
À sombra da grande montanha
Que segura o céu

Conquistámos a beleza
Criámos a verdade de estarmos vivos
No embalo da nossa dança

Já cá estiveste
No meu sorriso arco-íris
Encantamento que cá deixaste

Olha-me, agora
Lembras-te de mim?
Sou aquele que por te recordar
Te ama sem te conhecer.

Wednesday, August 26, 2009

Uma gota de Universo
Caiu-me na renúncia
Á esperança

O sonho duplicou-se
De ambrósia
E o amor tornou-se rei.

Marcar a folha
Com a marca da palavra
Para haver mais
Para ser mais

E com a marca da palavra
Entrar dentro do corpo
De quem lê
Através dos olhos
E pela voz que lê
Dentro

A palavra
Feita de pontos e linhas
E sons dentro da cabeça
Que por um código
Que existe
Apenas porque sim
Evoca
Invoca
Sensações
Imagens
Memórias
Significados

Esta palavra
Aqui escrita
E lida
Agora
Deixará de ser palavra
Quando não estiver ninguém
A lê-la

Nesse momento
Já não é palavra
Será apenas pontos e linhas

Ou já será coisa nenhuma
Porque não haverá alguém
Que veja e sinta
Que é alguma coisa

Assim, esta palavra
Daqui a pouco
Já não será.

Liberdade
Escusa
Esquina
Difusa
Reserva de sonho
Recusa

Centro
Invisível
Ser o
Possível
Sondar a presença
Desnível

Religião
Certeza
Vida
Represa
Perder a conquista
Torpeza

Palavra
Verso
Ser o
Inverso
Escrever a impulso
Imerso

Gestos fragmento
De sentir disperso.

Monday, August 24, 2009

Raiar penumbra
No recôndito espaço
Solene
Da solidão

Pátria sanguínea
Recobro da ternura
Deslumbramento

Luz confessa
Regressada à noite
Após a batalha
De ser gente

Ser vítima
È o estatuto
Dos esquecidos
De si.

Thursday, August 20, 2009

Dizem
Ao homem
Pequeno
Que é livre

E ele acredita
Até houve
Uma revolução
Para o libertar

E assim
Ele
Livremente
Escolhe
A servidão.

Corpo
Preso
Á máquina
Estilizada
Esterilizada
Brilhante
Cortante
Que o alimenta
Fragmenta
Dormenta
Automatiza
Des-somatiza
E o corpo
Autoriza.

Todo o homem
Nasce
De mulher

No caminho
Para ser
Homem

Tem de separar-se
Largar
A casa
Do feminino

E voltar
Quando quiser
Tornar-se Pessoa.

Sunday, August 16, 2009

A procura de sentido
Esgota-se no sentido
Da procura

Procurar o sentido
Separa o sentido
Do sentir

Sentir o sentir
Sem procurar
O sentido

Dá sentido ao sentir
Sem sentido encontrar
Por sentir se bastar.

Thursday, August 13, 2009

Para a vastidão cósmica
Uma galáxia é mais pequena
Que um átomo para um homem

O universo fica impassível
Infinitamente indiferente
À morte de um homem

Mas quando morre
Um homem
Morre um universo.

Antes do princípio
De tudo
Não havia antes
Nem tudo
Nem havia não haver

Havia nada
Que não havia
Porque para haver
Nada
Teria de haver
E nada havia

Antes do princípio
Não havia fim
Porque não havia
Que fosse
E acabasse

Antes do princípio
Não havia
Quem pensasse
No que havia
Antes de haver pensar
E antes de haver que houvesse
Que desse que pensar.

Wednesday, August 12, 2009

Vento descalço
Delírio
Ombreira das sombras

Chuva imóvel
Cigarro
Cheiro de vidas opacas

Cristal difuso
Presente
Função de estar sozinho

Intenção reclusa
Desnorte
Rua sem regresso

Corpo escancarado
Fuga
Venda em que se perde

Olhar remoto
Ausência
Velho em tom criança.

Tuesday, August 11, 2009

A António Sarpe, mestre e amigo.

Suave como amanhecer
Desliza na força do corpo Mundo
Enraizado no coração

Alegria primavera
Ave do paraíso
Lançando a semente dourada

Abraços universais
Criam constelações de ser feliz
No ninho branco da esperança

Deus que é mais deus
Por ser o berço de deuses
No fulgor da doçura encantada

Palavra, carne e sangue fortaleza
Prazer de ter prazer no mar de ser grande
Cores da renascença da vida

Conquistaste esta praia com a nau do teu sorriso
Desfraldando o padrão da liberdade
E nós que te bebemos, encontrámos o tesouro.

Larga o riso, João
Senta-te à mesa direito
Com o peso do olhar que te põe freio

Sabes, João
Querer ser mais faz mal
Sonhar tira o pão da mesa

Pois é, João
Eu também nunca fiz o que quis
Temos de fazer sacrifícios para sermos alguém

Se eu me sinto alguém?
Não faças perguntas parvas
E come a sopa!

Diáspora inerte
Respiração nocturna
Fragmentos de sentir peremptório
Império ajoelhado a si mesmo

Realidades metafóricas equilibram-se
Na tristeza emprestada

Dormir é o desejo
De quem marcha em seu redor
Buscando a nota certa
Que alivie o acordar.

O ser deixou de só ser
Quando passou a existir
Olhou-se no espanto de si
Começando a reflectir

Ser só ser já não chegava
Precisava de sentido
“Se existo é para quê?”
Queria sentir-se cumprido

Ao descobrir-se mortal
Criou deuses eternos
Negou a vida acabar
Vieram céus e infernos

Para livrar-se do medo
Colou ordem ao caos
Tornou o mito em lei
Selando os bons e os maus

O medo que não acaba
Demarcou-se a terra
Sobre muros e estandartes
Começou-se a guerra

De tanto querer existir
Deu cabo da existência
Reaprender a só ser
Impõe-se a nova ciência

Bastar-se no que se é
Na luz de cada olhar
Em que tudo é perfeito
Por apenas ali estar.

Friday, August 7, 2009

Para os seres que são
E pensam no que é ser
Não ser é uma intrusão
Que não podem conceber

Só se conheceram sendo
Não sendo não se conheciam
Paradoxo tremendo
E do facto desconfiam

Não pode a morte ser morte
Traria o fim infinito
E num golpe de sorte
São salvos pelo mito

Já não morrem afinal
Porque matam o não ser
Acontece a vida total
Só depois de morrer.

Wednesday, August 5, 2009

“O que hei de fazer?”
Resigna-se o explorado
Desnutrido do poder
Que lhe mudaria o fado

Uma mão invisível
Pesada como aço
Limita-lhe o possível
Sustenta-lhe o cansaço

“Temos de produzir
Dar lucro ao país”
Repete a sorrir
Levantando o nariz

Orgulho de cego
Na sua falta de luz
Martelando no prego
Que o prende à cruz

A dominação é completa
Quando o dominado
Aceita como certa
A lógica do seu estado.

Thursday, July 2, 2009

A cadela entrou na igreja
E urinou no altar
Na sua voz que troveja
Correu o padre a gritar

Ai, tinhosa que te esgano
Candelabro como clava
Persegue o bicho profano
Que de medo se raspava

Arremesso bem medido
Da lança improvisada
Coxeio e ganido
Da fêmea escanzelada

Vá de retro saco de pulgas
Uivou alto o guardião
Quem é que tu te julgas
Digna de salvação?

Ficou feliz o sacerdote
Do seu acto sacrossanto
Ajeitando o seu capote
Como de rei fosse o manto

É tão bom ser dos bons
Ser um porteiro do céu
Concentrar em si os dons
E saber para cá do véu

E eu que sou ignorante
E percebo pouco de fés
Ficaria radiante
Se o bicho lhe mijasse nos pés.

Tuesday, June 30, 2009

Corpo de Mar

Deusa descalça

Celebra a dançar

O sonho de amar

Que o gesto realça



Sorriso estandarte

Do reino carícia

Que leva a amar-te

Só por olhar-te

Serena delícia



Danças a vida

E a vida te dança

Em cor divertida

Por ser tão vivida

No teu riso criança



O Universo conspira

Juntou-nos enfim

E este poema respira

Esta Deusa que inspira

A vida em mim.

Wednesday, June 24, 2009

Pulsar

A noite espessa e antiga escorre sangue virgem
Retorno alucinado nos uivos das bacantes

A lua reina metáfora de si mesma
Explodindo nas sombras e nos olhares de vida abrupta

A fêmea resfolega de insaciedade no centro dos sexos que se mergulham
Fúria acesa de imortalidade, rasgar de carnes e fronteiras

O deus renascido emerge dos corpos diluídos
A dança ferve-se e tolda-se orgásmica e soluçante
Paroxismo tremente dos perdidos

O vórtice enraíza-se no seu útero de seiva renovada
Fecundando a terra aberta e receptiva
Que da morte necessária faz emergir a vida

Na curva que recria o início
As dançarinas despejam-se esgotadas no torpor de sexo sanguíneo
Deixando-se no sono inerte dos vencidos

O silêncio primordial ecoa e dissolve as formas
Corpos universo em sentir de éden amniótico
Só Um em êxtase de si mesmo

Novo cosmos
Novo tempo
Natureza reiniciada

Pulsa o ritmo do retorno
No limiar da luz

Imagina-se a manhã no fresco que ensopa a pele

Regresso
Encontro do outro em si
E de si no outro

Abrem-se os olhares
Chegou o Sol, a palavra, a regra.

Wednesday, June 3, 2009

A promessa da vida depois da vida criou o desprezo pela vida
É a vida de um “santo” mais santa do que a de uma criança a morrer de fome?
A vida é os seres que a vivem!

Enfiem Platão dentro da caverna a que nos condenou.

Wednesday, May 27, 2009

DEMÉTER E DIONÍSIO

Estou bêbado de ser
Mergulhado na ambrósia do encontro

Toda a vida é uma vida
Todo o corpo é um corpo
E a música enraíza-me em ti

Partilhamos pão e vinho
Casa e mundo
Divino e humanidade

Viço de corpos semente
Gestos colheitas
Ritmos da criação

Esta dança de fogo sagrado
É um casamento divino
Dura este momento fugaz
Mas é um mistério eterno
Que dura um mundo inteiro

Porque os deuses dão-se vida
Nos suspiros da nossa entrega.

CANÇÃO DE EMBALAR

Pequenino
Pequeno funcionário
Tudo encolhes
Nas contas do teu rosário

Tuas certezas
E pompas arrogantes
Misérias convictas
Do céu dos ignorantes

Pequenino
Pequeno ditador
Apodreces
Os frutos do amor

São teus filhos
Coisas sem vontade
A tua sombra
Esmaga a liberdade

Pequenino
Pequeno moralista
Dás morte ao sonho
Desprezas a conquista

Vê se dormes
Para te calares
Um bom soninho
Sem nos chateares.

Wednesday, May 13, 2009

Minotauro

Ariadne
Dá-me a segurança da tua espera
Repousa-me com a tua guia luzente
Que vou lançar-me neste útero
Labirinto pulsante e irrigado de desejo

Está em mim o Mito
A renúncia de quem avança

Vou perder-me
Tenho de perder-me
Se quero receber-me em glória

Mantém-me ligado ao fora
Ao terreiro dos olhares
Que lá dentro estou comigo sem mim

Senta-te e espera-me
Com o teu vaso de água fresca
E o cesto de romãs
Que eu já venho

Vou salvar o Minotauro
Libertá-lo da vergonha que o prendeu aqui

O resgate do seu poder
Será a salvação do nosso reino, Ariadne

Os deuses serão mais homens
E os homens serão mais deuses

E deusas, Ariadne

Espera-me, meu amor sereno
Que eu vou libertar a vida
Lá longe

Sem sair do teu colo.

Fundo do Poço

Na queda olhava o fundo

Tentando antecipar o dano

Do embate todo humano

De quem lhe dói o mundo


E por olhar para o fundo

Nem sonho de luz via

O negrume não alumia

No seu abraço rotundo


Precisou bater no fundo

Sofrer a dor do embate

Desamparo sem resgate

Ricochete imundo


Para a queda ser parada

Que todo o ser lhe doa

Neste fundo de ser pessoa

Mentira derrotada


O fundo também é chão

Sustenta o levantar

E agora já pode o olhar

Erguer-se em elevação


E é no escuro menos dia

Abismo que tudo reduz

Que consegue ver a luz

Que a cair não via.

Tuesday, April 28, 2009

Antes do nada
Recuperar a semente
Nocturna
No frio da certeza

Umbigo terreno
Sobre a sombra vasta
Pegadas de água
No princípio

Ir à fonte
Ir ao centro
Que é agora
Cutelo da pergunta

Recordação
Eco de sentir
Névoa de batalha
Ruído da bonança

As palavras já não marcam
E o sonho já não vence
Porque a vitória agora é do corpo
E tudo é natural como o amor.

Wednesday, April 1, 2009

Cama desfeita sobre o mar, enraizada no solstício do ser
Poalha de gestos inacabados, sussurros inertes de desaprender
Braços sonho, sorrisos verbo, constelação de sonhos refeitos
Brisa que dança descalça no limite dos corpos eleitos

Soberana fonte invertida, no arco primal do templo
Quadro que se pinta a si mesmo na certeza do exemplo
O tempo parou a olhar-se, na elipse da pele sem segredo
Erigiu o padrão nesta praia, onde o amor venceu o medo.

Saturday, March 28, 2009

Tango

Geme a noite
Ardente
Chama de sangue
Em gente

Corpos juntos
Num beijo
Olhos flecha
Desejo

A música chora
Segredo
Passo que rasga
O degredo

Luta e conquista
Abraço
Morder em gesto
O espaço

Feroz doçura
Entrega
Mão na cintura
Refrega

O fim a noite
Que o traga
Que o tango começa
Só quando acaba.

Monday, March 16, 2009

Mantenham os deuses na terra
Aqui, onde a vida se cria a si mesma
Como ímpeto irreprimível

Matem os deuses sem corpo
Que têm medo do prazer
E dominam pelo prazer na dor

Esqueçam os deuses infantis
Que de tão pequenos precisam de adoração
Para se sentirem grandes

E vingam-se de quem se liberta
De quem assume o seu poder criador
Com eternidades de danação

Invoquem os deuses que dançam
Que riem e que bebem
Se deleitam na vida

Os deuses que nutrem do seus seios
Procriam pelo orgasmo
E celebram a grandeza das criaturas

Porque a Criação é o Deus de si mesma
A vida adora-se na sua exuberância
No ser só sendo apenas para ser.

Thursday, March 12, 2009

Versos Inacabados

Solitário viajante
Acolhido de passagem
Em vidas estrangeiras
Regido pelas despedidas

Todas as partidas
São regressos
À sua natureza
De órfão perene

O aconchego do hábito
Mantém-no quente
No frio das terras ermas
E no silêncio da noite

Nunca chegará ao destino
Porque cada chegada
È um novo começo de estrada
E parar é sentir

Palavras do Mundo Novo

Sar précisaer
Novais palevraeis
Pareis criaser
Onia novrael
Mundral
Ondias or amorfelizar
Serflorer ol crestrela
Librardeluz ol naturfestir
Cimer ror Solcolorir
Dior mafresca diar Verarlelicitar.

"São precisas
Novas palavras
Para criar
Um novo
Mundo
Onde o amor
Seja e cresça
Livre e natural
Como o Sol
Numa manhã de verão"

Novas palavras para o amor

Sar précisaer
Novais palevraeis
Pareis criaser
Onia novrael
Mundral
Ondias or amorfelizar
Serflorer ol crestrela
Librardeluz ol naturfestir
Cimer ror Solcolorir
Dior mafresca diar Verarlelicitar.

"São precisas
Novas palavras
Para criar
Um novo
Mundo
Onde o amor
Seja e cresça
Livre e natural
Como o Sol
Numa manhã de verão"

Tuesday, March 10, 2009

Movimento lento de eternidade
A música sou eu
A dança é o Universo

Fundido no êxtase de estar vivo
Na vida dos outros
Na vida da vida

Carne, sangue e silêncio
Retorno ao grande mar
Onde tudo começou

Vive em mim o princípio
Agora, neste enlevo de transe
Sopro divino que me move

Nasço agora que danço
E com olhos recém nascidos
Celebro a vida que é vida em mim.

Praia inquieta
Pegadas levadas na onda

Nada fica
Tudo é sendo

Como o Sol que me queima
Já foi
E não é
O que me queima agora

Tudo é
Por haver o que não seja
È em frente ao não ser
Que o ser se é

Como a praia
Que só é
Por não ser mar
E o céu
Por não ser terra

Mas tudo deve ser
Mesmo que não seja

Porque nesta praia de luz
Deixo-me ser

Com os pés frios de água
E a cara quente de Sol

Não sendo
Também sou mar
Também sou céu
Também sou praia.

Emerge o ser que sou
No espaço entre mim
E o olhar do outro

Epifania
De mim
No nós

Cresço-me
Pelos olhares
Que me amam

Amo olhar
Quem eu amo.

Gestos prévios
Corpo ampliado

Corpo sem corpo
De ter o Universo
Como corpo

Ser antes
De vir a ser

Flutuar
No vazio
Que é tudo

Respirar
Eternidade

Sonhar galáxias
Parir os mundos
Mãe e Pai do infinito

De cada ser
Ser o ser

Imperativo da vida
No fogo das estrelas
Nas asas da borboleta

No suspiro do teu amor.

Thursday, February 12, 2009

A minha chuva cai em ti
Troar cósmico de Úrano
Na dança criadora de mundos

No Centro do vulcão do teu ventre, Minha Gaia
Afunda-se o Áxis Mundi fervente
Que trás novos começos

Abre-se um universo de universos
Galáxias de vida emergente
Descem para ti em rio de luz eterna

Tu, Mãe, acolhes os novos mundos no teu seio
Deuses de vir a ser que te mergulham
Na fome infinita da criação

O Ser torna-se carne pelo nosso desejo
O Amor pode viver-se na nossa seiva
Explodindo num tremendum de flores vida

Dançamos desde de antes do tempo, Deusa
Eu que te crio por te deixar criares-me
Deus Céu que só existe na tua Terra

Nasceu o Filho do Homem que tu alimentas com o teu sangue
Brotou o Príncipe dos Príncipes inteiro e já com reino
Da suavidade da tua imensidão serena

Neste abraço do começo da vida
Deixamo-nos dormir na imobilidade da perfeição
Que se move no rugir dos nossos corpos

Amo-te, Deusa das primaveras, por receberes o meu fruto dourado
E solto-me no meu descanso divino de quem acabou de criar o Mundo.

Wednesday, February 4, 2009

Os ignorantes
Que não sabem
Que não sabem
Julgam que sabem
E dizem-no de boca
E peito cheios
Como se a suas
Verdadezinhas
De zé ninguém
Fossem a doutrina
O livrinho vermelho
O evangelho de absoluto

Os ignorantes
Por não saberem
Julgam que sabem
E que sabem mais
Do que os outros
E até acham que sabem
Como os outros
Deviam de ser
E fazer

Os ignorantes
Por não saberem
Que não sabem
Acham que o mundo
Seria melhor
Se fossem eles
A mandar
O Universo
Seria perfeito
E criaram os deuses
Ás suas imagens

Porque eles
Pensam que sabem
Sem saber
Que não sabem
As suas verdadezinhas
São isso mesmo
Inhas
São a parte que lhes cabe
Da percepção do mundo

Os ignorantes
Por acharem que sabem
Não levantam os olhos
Dos seus umbigos
Não vêem mais alto
Que a sua pequenez

Os ignorantes
Por não saberem
Que não sabem
Mandam
E querem mandar
Precisam disso
De meter o mundo
Num torno
Para tornar verdade
A mentira da sua ignorância

È por isso que os ignorantes
São os pais e as mães
De todas as ditaduras.

Muitos pais
Não são
Os degraus
Que ajudam
A elevar
Os filhos
São as solas
Dos sapatos
Que os espezinham.

Sunday, January 11, 2009

Nu
Despido de toda a História
Entrego-me ao teu olhar

Flameja em mim
O corpo sagrado
Que tu envolves
Na túnica rubi dos teus beijos

Solta-se de mim a lágrima esquecida
Faminta
Selo da memória
De todos os desertos gelados
E das guerras perdidas

Deixo-me
Entorno-me no teu peito
Afundo-me na confiança da tua presença

Saboreio o teu saboreio de mim
Pingos de eternidade no meu corpo
Reflexos de céu sobre a pele

Largo-me de mim
Para ser eu
Nós

Cai por mim um soluço eterno
Alívio por retornar a casa
Onde nunca vivi
Mas aonde sempre quis regressar

Sonhei com este momento tantas vezes
Tantas vezes
A esperança de o ter foi o meu farol
A estrela polar das minhas viagens

Quero chorar

Chorar agora é a minha vitória
Cheguei e agora posso chorar

Embala-me no teu amor
Cura-me com o teu olhar
Ajuda a pôr de pé outra vez
Este anjo caído do alto de si

Agora sim
Sou amado, logo existo.

Tuesday, December 30, 2008

Meus amigos cães
Gostava que soubessem ler
Tal como sabem amar
E dar-me alegria pela vossa generosidade

Gostava que soubessem ler
Tendo eu o talento suficiente
E vos escrevesse um poema
Uma ode
Uma epopeia rimada
Algo de tanta elevação estética
Que vos conseguisse alcançar
Na vossa pureza afectuosa
No vosso brilho por me ver chegar
Na simplicidade sábia com que amam

Tivesse eu talento
Meus queridos cães
E vós soubessem ler
Escreveria belamente o amor que vos tenho
Para que o soubessem, meus amigos
Teriam dele mais certeza, talvez
Por o ver em coisa escrita.

Porém
Ainda bem que não sabem ler
Ainda bem que não tenho talento
Porque isto pouco importa
Quando daqui a pouco
Estiver no chão da sala
A rebolar-me convosco às gargalhadas
Enquanto tentam morder-me as orelhas.

Monday, December 29, 2008

É triste
Quando alguém morre

Mas é mais triste
Que alguém
Tenha feito alguém
Ficar tão triste

Que ninguém
Fique triste
Quando morre.

Tuesday, December 2, 2008

Quinta das Murtas - Sintra

A fonte pinga pequenos oceanos
Que sobressaltam o silêncio fresco
O verde eterno abraça a casa
Como nós nos abraçamos com o olhar

Tudo nasceu hoje
Tudo é agora
Nada há a vir
Aqui já está tudo o que há a sentir.

Thursday, November 6, 2008

Toco nestas teclas
Onde escrevo
Pensamentos
Tornaram-se vontade
Ou vontade tornou-se
Pensamentos
Não sei
Mas oiço esta voz por dentro
Que me dita o que escrevo
E o movimento nasce
Cresce até aos dedos
Que batem
E eu sinto o prazer
Deste toque
Que cria sentido
Para quem entender este código
Linhas e curvas pretas
Contra um fundo branco
Tornam-se sons
Dentro da cabeça de quem as ler
Isso evocará pensamentos
Imagens
Sensações
Noutro que não eu

Onde estiver a ler
Longe daqui
Onde escrevo
E eu
Imagino quem será
O que sentirá essa pessoa
Como será ser esse outro
Como será estar nessa pele
Nessa vida
E sinto-me próximo dessa pessoa
Por pensar nela
Por imaginá-la
Enquanto escrevo
Sentindo o toque das teclas
Nos meus dedos
Como se tocasse nessa pessoa
Dentro dela
Porque o que lê ouve por dentro
Com a sua voz
Por isso estou a tocar-lhe
A si
Agora
Por dentro
Neste momento em que lê.

Wednesday, November 5, 2008

Se te amasse
Um pouco mais
Seria Deus

Não sou Deus
Mas o teu amor
Torna-me divino.

A todos os meus amigos da Biodanza

Recriamo-nos
Nesta dança
Somos deuses
E criaturas
Num vórtice
Cósmico
Mitológico
Em cada toque
Abraço
Olhar
Evocam-se
As Grandes Histórias
Antigas
Primeiras
Somos Verbo
E somos carne
Sangue mais sangue
Amor mais amor
Atravessando a dor
Para o outro lado
Onde estamos
Á nossa espera
Connosco
Convosco
Somos tantos
E afinal
Somos só Um.

Wednesday, October 22, 2008

A caminho de Santiago com a vida às costas
Encontros sublimes com almas dispostas
Sacros Ofícios com tique de andaço
Gotejando o tempo ao ritmo do passo

Subindo as montanhas dentro de mim
Desertos de luta que ficam jardim
Estou-me mais perto de tanto andar
Mapas de mim só por respirar

O luxo de poisar o peso e o corpo
Dá-me céu por ter tanto em tudo tão pouco
Tudo é tão tudo e tudo é tão nada
E cada partida torna-se chegada

Dão-me laranjas e abraços de olhares
Bênçãos mezinhas e ventos solares
Encomendas de rezas aos pés do Santo
Madrugadas de chuva em mim como manto

Partilho-me em risos e bocados de pão
Durmo com estranhos que já o não são
Cada vez mais vida cada vez mais perto
O rumo que levo traz-me sempre desperto

Dou querer e presença e mais não tenho
Tudo é tão novo e tudo me estranho
Em tudo mais é o Caminho que manda
Em tudo o mais é o Caminho que me anda.

Friday, October 3, 2008

A tua carne é feita
Das palavras que te lançaram
Tens na pele o dicionário
Da língua que não escolheste
Mas que te fala
Mesmo sem quereres
Nos gestos e nos sons que emites

És feita de muita gente
Entrançada de muitas histórias
E nas tuas paixões ecoam mitos antigos
Rituais quotidianos de dar sentido
Ao seres a foz do grande rio
Aquele que se chama Vida
E que tem corrido desde a primeira luz.

Thursday, April 3, 2008

Construo-me pela derrota
Alargando-me para tudo caber
E a Rosa do meu mar
Dá-me a sede de amanhecer.

Dá-me quem seja
Apruma-me as asas
Sonha-me inteiro

Recruta-me para a vida
Dançando-me descalça
Na gruta dos meus silêncios

Já sou teu
Já vivo no teu gosto
Agora só basta comer do teu fruto.

A morte do silêncio
Névoa inteira sobre o sonho
Ruga de medo na manhã

Deixa-me sofrer a memória
Caído nos restos da minha sombra

Pergunta-me quem sou
E não me deixes responder

Dá-me o rio da tua viagem.

Thursday, March 6, 2008

A tua ausência são dez universos
Pois sinto-a como vastidão cósmica
Multiplicada pelo amor que te tenho

Por sentir universalmente
Sou do tamanho do que sinto
Condição absoluta de não te ter

Partires deu-me tamanho de Deus
De tanto que sinto por não te sentir
Verbo divino dos mundos que toco

Que não se perca este amor tão grande
Que crie galáxias e constelações de sorrisos
Nos corações que vibrarem ao meu som

Que se derrame este amor imenso
Nos campos, nas flores e nos corpos que vivem
Ensopando-os de sonhos de luz, para sempre

Que este amor criador não se apague na tua ausência
E permaneça no centro de tudo o que nasce
Na cor, no movimento, no ser de cada ser

É tão grande este amor
Que escrevo poemas para ti
Sabendo que nunca os irás ler

É tão grande este amor
Que mesmo na tua ausência
Sinto um imenso amor ao amor.

Wednesday, February 13, 2008

Escrevo do sangue
Da lágrima mordida
Do grito apagado
A queimar por dentro

Escrevo da paz e do sonho
Que me chega de mansinho
Por estar deitado na vida
Ao sol dos meus amores

Escrevo porque não sei
E escrevo porque não quero
Nem sei se vou querer
Querer mais do que sei

Escrevo para escrever
Dou som ao que sinto
Trago verdade ao que minto
Entorno-me em palavras

Escrevo para sair para fora
Para a rua dos olhares
Abrindo-me em janelas
Onde o mundo vem conversar

Escrevo porque sim
Não sei fazer diferente
Habitam-me outras histórias
Que me movem o olhar.

Ubiquidade de ti
Em mim
Vejo-te
Por todo o lado
Do que sou

E vejo-te
Sempre
Que me olho
Lá estás tu
No meu sorriso.

Estes corpos mentem
Dançam-se nocturnamente
Para se perderem
Não sabem que o sentir
È galope de fugida
Das sombras dos seus vãos

Não merecem ser poupados
Da vida que os eleve
Por os levar ao fundo
E lá, onde são órfãos no deserto
Os seus desejos são explodidos

È o rosto da noite universal
Que os acolhe no tormento
No milénio sem sono da solidão
Despidos de si mesmos nesta viagem
Ao fundo dos fundos de ser pessoa

Aí, onde já nada resta do que restava
Nasce aquilo que traz a luz
A consciência de que a dor já não é dor
Que não é deste mundo o que ganhamos
Por nos morrermos de quem sempre fomos.

Sou letra
Som
Imagem
Símbolo
De mim mesmo

Num universo que fala
Desenha
Desdenha
O que sou

Leio-me
Declamo-me
Descodifico-me
Pacifico-me

Na aventura mística
De ler o universo
Nas minhas entrelinhas
Nas páginas vazias de fazer

O silêncio de já ser.

Monday, January 28, 2008

Amo-te
A ti
Que em mim estranho
Enorme
Sem tamanho
Vida outra
Que me tenho

È teu
Outro mundo
Habitas-me
O fundo
Minha sombra chinesa
Apetite rotundo
Noite certeza

Mascaras-te
De mim
E sim
Tens-me vida
E eu
Que sou teu
Sonho-te na ferida.

Wednesday, December 19, 2007

Na sombra que me desperta encontro a rectidão do principio
Onde o mal é gémeo do bem e os abismos são montanhas do avesso
Equilibro-me em cima de nada porque não há nada que me seja
Desprendo-me de mim porque sou muito mais do que sou

Respiro um sopro infinito porque o infinito se respira em mim
Quando abro os olhos o universo acorda comigo e a luz acontece
Perdendo-se a memória de todos os feitos e de todos os ditos
E a presunção que destilo nos poemazitos que vou escrevendo.

Monday, December 3, 2007

E se o amor fosse uma torrada
meio queimadinha, de manhã?
Ou fosse uma meia quentinha?
E cuecas lavadinhas, com cheiro a fresco?
E se o amor fosse um corte de cabelo no verão?
E uma chuva que faz fugir da praia a rir?
E se o amor fosse um Natal cheio de miúdos contentes?
E uma rosa bonita na beira do caminho?
Ou um poema parvinho de carinho por ti?
E se o amor fosse um jantar de aniversário entre amigos?
E uma loja de flores bonitas?
E se o amor fosses tu a sorrir para mim?
Antes de dormirmos saciados?
E se o amor fosse eu?
Por ser tão simples ser assim
E gostar de mim a gostar de ti
No génio de querer tudo o que é pequeno
E sorvermos só assim
Por o amor sermos nós.

Monday, November 19, 2007

Nunca saí daqui
E nunca cá estou

Vou começar a viagem até aqui
Deixar que o tempo passe até agora
Onde tudo acontece
Permanece
Descansa
Na mudança

Aqui
Agora
Vou até cá
Neste momento
Que passou
Voltou
E nunca me deixou

Preciso de caminhar
Continuamente
Até onde já estou
E sou
E sou
E volto a caminhar
E vou para aqui
Nunca saí
Daqui
E nunca cá estou
E ando para não sair
Daqui
Agora
Neste tempo sem tempo
Onde tudo é Tudo
E tudo é o mesmo que Nada.

Tuesday, November 6, 2007

Atiro-me contra as esquinas da vida
Para me sentir
Para saber que cá estou
Porque se me deixo adormecer
Nos sofás limpinhos da escravidão
Fico sem a voz que é minha
Leio os guiões que me destinaram
E me tornam legenda de um filme que não é meu

Tenho a pele e o sentir marcados pelos embates
A alma que me vive tem mais anos que os meus
E a paz muitas vezes não se deita comigo
Às vezes sangro quando rio
E dói-me quando amo

Canto alto para não ouvir-me a gemer
Mas lanço longe a minha voz
Em tons de fogo e de mar
Abraços universos de quem eu sou

Da luz vibrante que verte a minha sombra
Morro-me todos os dias para me viver
Brincando para me levar a sério
E amando para ser tudo o que quero ser

As guerras já lá vão
Deixei-as do outro lado de mim
De onde espreitam em jeito de emboscada
Olho-as e rio
Levanto a cabeça
Sacudo o que já é velho
Abrindo-me em cores de festa
Piscando o olho aos miúdos que correm comigo

E tu amor
Estiveste sempre comigo
Ainda não te conhecia e já cá estavas
Aqui
Onde me deixaste quando nasci.

Se a vida toda
Fosse este momento
Era toda uma vida
De deslumbramento

Infinito fugaz
Verbo Criador
Alfa e Omega
Nos braços do Amor

Nascia e morria
No mesmo instante
Em glória perfeita
De ser teu amante.

Tuesday, October 23, 2007

Menina estrela
Constelação
Alma serena
Revelação

A casa que dá
A quem ela ama
È feita de riso
Sentir em chama

Vento solar
Ceptro na mão
Sorriso que deixa
No coração

Conforto de ninho
Abraços em rama
E o mar que me abre
Selva na cama

Os versos que escrevo
Ingenuidade a rimar
Só deles me atrevo
Por tanto a amar.

Thursday, September 20, 2007

O tempo, o mar, e a gente
Tudo é tudo
E tudo se sente

O tempo que é tempo
Porque nos pomos a contá-lo
Deixa-nos sem tempo
Para vir a deixá-lo

E o mar que é mar
Só é mar porque há margem
Ponto de partida
Onde começa a viagem

A gente, que é tanta gente
Naquilo que é ser gente
Vive e a viver se sente
Que a sentir vamos sendo gente

Porque tudo é tudo
E tudo se sente.

Wednesday, August 22, 2007

Do tempo que passo contigo
Passa-se o tempo e não há momento
De tempo cheio que entre em demasia
Neste momento de te ter um tempo
O mesmo digo a cada pensamento
De pensar breve ou pensar pousado
De estar lembrado de cada pensamento
Que pensei em ti só por ter pensado
E por ter sono, e por ser cansaço
E estar mais lentamente a querer pensar
Vejo o tempo passar e sem querer que passe
Fico ponteiro palavra adiar.

(Poema de Ana Sofia Passos, que é melhor poetisa do que eu poeta, mesmo que diga que não, quando eu digo que sim)

Monday, August 20, 2007

Rio de vento
Verde real
Silêncio que se ouve
Nos sons sem homem
Os passos esperam
Pela minha vontade
E eu tento-me ser
Árvore
Raiz
Chão
Mas o meu fruto
Não pega
Nega
E eu sou
Continuo
Homem vento
Força invisível
Abraço sem corpo
Nave sem porto
E poiso
Nos ramos
De quem me ama
Chama
Me dá corpo
Na sua rama
E beijo
Desejo
Estas vidas árvores
Que faço dançar
Resfolhar
Com meu soprar
E já sou tronco
Raíz
Chão
Pela tua mão.

Thursday, August 2, 2007

A alegria sombria
De andar contra o vento
Conversa vazia
Com quem come o tempo
Nos sonhos de amigos
Em tela esmeralda
Abraços rompidos
E gestos à balda
Fugas dormentes
Fumadas depressa
Ranger de dentes
Perder de cabeça
Que não encontrada
Anda sozinha
Na noite que é estrada
Iras da vinha
A vida é meia
Soluça a pobreza
Parece cheia
Mas bebe magreza
A lua que o tem
Maior que o olhar
Rainha mãe
De tudo largar
E esta cantiga
Que fala do fundo
Banal e antiga
E há tantas no mundo.

Monday, July 23, 2007

Respiro os mistérios dos rostos encobertos
Com olhares cemitérios e andares meio incertos
Nas suas vozes deitadas em discursos sumidos
Vejo as razões roubadas nos sermões já ouvidos

Gestos cintados a mofo da tristeza que finge não ser
Peitos largos sem estofo de tardes sem amanhecer
A vida escorre-lhes da vida com sorrisos monotonia
E o fim está sempre presente no futuro em banho-maria

Quero dar sol quero dar fruta a estes irmãos de sonhos pequenos
Que o riso não tem de dar luta e o viver não tem que ser menos
Vou pôr-me ao alto para lhes chover de cor sobre os tormentos
E dar-lhes o sonho e o salto em poemas de fogo largados aos ventos.

Sunday, July 22, 2007

O tempo
Abrupto e contundente
Larga-me em oásis de papel
Risos na noite e amor de gente
Assomos de longe debaixo da pele

A vida
Engulo-a sem querer
Porque corro de boca aberta
Danado de fome e de prazer
Sangue bem tinto e a alma desperta.

Amamo-nos
Amamo-nos, sim
Mas não falamos de amor
Como se a palavra Amor
Não fosse própria
Como se o seu significante
Ficasse aquém do significado
E o seu som molestasse o que sentimos
Sentimo-nos tão soltos, tão cheios de luz
E a palavra Amor transporta consigo o peso de amores passados
Mais o receio de um futuro que não se sabe onde nos leva
Amamo-nos, sim
E não o dizemos
Não dizemos: Amo-te
E assim amamo-nos
Na liberdade de estarmos plenos
Na felicidade de não termos palavras que nos prendam
È verdade, não falamos de amor
Porque nós fazemos amor
Nós somos amor
Falamos amor com os nossos corpos
Com o silêncio quentinho de uma noite abraçados
Os sorrisos felizes de estarmos juntos
Não dizemos: Amo-te
E ainda bem
Porque o dizemos mais
Ao nos amarmos.

Monday, July 16, 2007

You bringer of the light
Freshness of a start
Goddess of my delight
Triumph of my heart

Vision of the good to be
Priestess of pure insight
And the glory stays in me
Woman of all my night.

Insanity was my middle name
Now is not the same
Because pain brings the shame
And the glory was not in fame
But in cultivating the flame
That brings to me your name

So I have paid my due
Blood and tears a few
Lost without a clue
Life in verb undo
Now my middle name is you.

Tuesday, May 8, 2007

Amar não é gostar
Amar é gostar mesmo quando não gostamos
E amamos que quem amamos não nos queira amar.

Thursday, April 26, 2007

Olhar que olha mesmo
Que olha o mesmo
E o transforma
Só por olhar
Já que é olhar
Que por abrir-se
Dá-se
Ao que olha
E já não é olhar
Eleva-se em altar
Gesto criador
Acto de amor
Rosto em flor
Que me cria
Alivia
Novo dia
E eu
Que sou o mesmo
Já não sou
Porque me olhas
Me desfolhas
E dás-me fim
Assim
E eu volto a mim
Em passeio
De sempre cheio
Homem novo
Cantar do povo
Mar de regresso
E eu olho-me
A voltar
A cantar
Porque eu nasço
Do teu olhar.

Friday, March 30, 2007

Tu és só tu sem mais que tu
Que seres só tu é mais que tanto
E brilhas no olhar do meu espanto.

Wednesday, March 14, 2007

Sim, são estes os olhos
É este o rosto
É neste Oceano que me perco
É nesta vida que me deixo
E de estar perdido não me queixo.

Monday, March 12, 2007

Cabelo moldura
Do sorriso de criança feliz
Assomo de luz em gargalhada
E sonhos coloridos em frente ao olhar
Beleza que se sente
Que se toca cá dentro
Por nos tomar de surpresa
E nos suspende
Por um instante
Em que nos pomos em bicos de pés
Para chegar ao alto deste sorriso
Queremos ser maiores
Melhores
Mais qualquer coisa
Para estar à altura deste sorriso
Para sermos dignos de o beber em nós
Naquilo que cá sentimos dentro
Naquilo que queremos continuar a sentir
Por a ver sorrir
E somos sorriso também
Também somos luz
E somos sonho
Por nos tocar este sorriso
Que é preciso
Que é palco
Onde se vive a beleza
A certeza
A vitória de ser belo
A glória de ser simples
E simplesmente ser vida
Que convida
Que acolhe
Que desassossega
Nos dá refrega
De querermos mais
De querermos ainda
O que nos lembra que podemos ser mais
Que somos mais
Que nunca deixámos de ser
E nos lembramos de quem somos
E sempre fomos
Ao tocar-nos este sorriso
Este olhar
Este quadro vivo que me pinta
Nas cores que me animam
De poder ser feliz.

Friday, March 9, 2007

Abres o que é mais teu no corpo
Enquanto abres a alma por te dares
De arfares por me sentires dentro de ti
Por sentires que é aí que eu quero estar
Aberto porque te abro
Inteiro
Duro e suave
Forte e vulnerável
Bem dentro de ti
Enquanto nos confundimos
Em carne
Em suor
Em gozo
Em tesão
Em dor
Em lágrima
Em perdão
Em frescura de ser novo
Em morte que é vida
Porque é entrega
Porque é lonjura
Loucura
Juízo
De estar certo
O que estamos perto
E o que nos tocamos
Na carne
Na alma
No fruto que partilhamos
No amor a que nos deixamos
E na vida que já sentimos
Por nos deitarmos para dentro um do outro
Em sons de fome e de fartura
Em rosários de ternura
E sonhos de outra altura
Em que fomos mais
Em que fomos sempre
E somos agora
Estamos dentro e estamos fora
Neste aperto de aurora
Neste templo de quem se ama
Altar da nossa cama.

Friday, March 2, 2007

Era de noite
Se fosse dia
Tanto fazia

A rua era aquela
Luar sem janela
Monotonia

A fome era dela
Dor na lapela
Vazio que sentia

Olhar anteontem
Mãos que não mentem
E o frio que havia

Paredes de vento
Casa tormento
A chuva caía

Já teve riso
Já teve siso
Mulher Maria

Amou e tanto
Chorou seu pranto
Soltou alegria

Pariu e deu leite
Viveu sem enfeite
Cheirou maresia

Mulher coração
Boca sem não
A quem lhe pedia

A vida correu
O amor morreu
Envelhecia

Mudou a sorte
Perdeu o Norte
E a companhia

E sem sustento
Viver tormento
Sofreu sangria

Viveu na rua
De alma nua
Ninguém a via

Tempo inimigo
Viver castigo
Desarmonia

E agora sim
Chegou o fim
Pois já morria

Ninguém chorava
Ninguém olhava
Acontecia

Porque é que a vida
Curta ou comprida
È lotaria?

Todos nascemos
Todos morremos
Temos mesma via

Mas uns morrem mais
E sem funerais
Como a Mulher Maria.

Friday, February 23, 2007

Vieste
Como se eu
Te tivesse chamado
Por te querer
E eu que não te queria
Queria-te sem saber
Por não te ver
Por não te saber
Mas sabia
Porque te queria
Sem saber
Que já te sabia
Que já te queria
E tu vieste
Sem eu te chamar
Por eu te chamar
Por te querer
Em sonho
Em desejo
Em querer
Sem saber
Que te queria
E quis
E quero
E tu vieste
E foste
Estrela cadente
Torrente de luz
Explosão de cor
Num segundo fugaz
Mas intenso
Imenso
Contra a noite
Que se faz dia
Num momento
Que se faz tempo
Que se faz tudo
E me deixa mudo
De espanto
De tanto
E foste
Mas ficaste
No teu rasto
No meu querer
No meu sonho
E no sorriso
Que dou ao Mundo.

Monday, January 29, 2007

Tenho o céu aqui na minha mão
E nos meus olhos sopram ventos do Sul
Pelas minhas palavras nascem universos
Que se banham nos rios dos meus lábios

No abraço e no espaço do meu regaço
Estão as cortes de todos os reinos
Em prazeres mornos de verão
Sorvendo licores de Sol tardio

O meu peito é um pasto de inverno
Onde a vida nasce-se e recria-se
Fauna de cor força e movimento
Músculo sangue e firmamento

Sinto-me assim, sempre e tudo
Deus natureza, começo do mundo
Mar certeza, efeito profundo
Templo beleza, amor rotundo

Tão fácil ser mais que infinito
Tão simples ser mais que perfeito
Suspiro de fervor meteorito
Basta deitar-me no teu leito.

O tempo não sobra
Enrola-se como cobra
Tem meio de fugida
Fogo que queima a ferida

Tempo cura-me de mim
Estaciona o fim
Mantém a regra do infinito
Desdobra a regra do mito

Terei fome de sempre
Espinho de lua no ventre
Vento à frente do grito
Lago salgado de espirito

Colheita de sonhos esquecidos
Sonos verdes mal dormidos
Suspiros ternos concordantes
Das mulheres dos viajantes

Ai de mim que pobre fico
De tanto querer ficar rico.

Wednesday, January 24, 2007

Messenger

(Obrigado Ana, pela tua criatividade, e pela divertida e louca conversa que tivemos no Messenger, que de tão poética se tornou poema. Beijo meu, para ti.)


E se a vida fosse tão vida que não precisasse de ser vivida?

E se um sorvete fosse tão sorvete que não precisasse de ser sorvido?

E se um céu fosse tão céu que não precisasse de ser seu?

E se um mar fosse tão mar que não precisasse de amar?

E se tu fores tão tu que não precises de ninguém?

E se tu se fores tão ninguém que não precises de tu?

A quem é ninguém todos dão um pontapé no

Mas tu respondeste ao tu com tu... trocaste de pessoa

O teu tu não era o teu de ti

Alguém não é já gente antes de aparecer alguém

Por isso antes quero ser alguém tão alguém que alguém me aguente

Quero aguentar alguém tão alguém que de mim faça gente.

Saboreio-te em mim
Quase como se tua pele já fosse minha pele
E teu cheiro já fosse meu cheiro

No deserto da multidão continuo deitado em teu abraço
E nas conversas de estranhos sinto-me na nossa casa de amor
Embrulhado na alegria dos nossos cobertores

Vejo-te no sorriso dos miúdos felizes por jogarem à bola
E nas caras vermelhas de tanto riso
Dos amigos que lembram a alegria de ser novo

Acordo contigo sempre que respiro este ar fresco
De andar na vida mais alto que eu
Confiança serena de já ser tudo

O céu que todos olham é nosso, minha querida
Porque o criamos com nossos beijos
Nos deuses lábios da nossa paixão.

A fúria do mar
Que não é fúria
Não deixa de matar
Com a minha lamúria

O castigo do vento
Que não é castigo
Não olha ao lamento
Que trago comigo

Ai, porque dou ais ao céu
Se ele é mudo à minha reza?
Porque choro o que é meu
A quem meu chorar despreza?

Não sou mais que o cotão
Que vejo neste quarto
E vivo na prisão
De saber que estou farto

Quem me dera ser calhau
Que de si não tem saber
E que não é bom nem mau
Nem se vive a gemer

Ai, apenas estar sobre a terra
Em tom amarelo de ser flor
Sem conhecer o estar em guerra
Nem ter que procurar o amor

Ser apenas por estar ali
Na liberdade de não querer
E não viver a olhar para si
Em queixume de se sofrer.

Tuesday, January 23, 2007

A minha casa é nos abraços de quem amo
E o meu jardim brilha nos olhos de quem me quer
A cidade que percorro constrói-se nas conversas e nos risos
Avenidas de luz aberta e becos secretos que dão para as traseiras

O meu emprego é amar
É ser lírico no meio dos burocratas
E servir utopia ao balcão da vida
Mantendo conta no Banco Sentir & Companhia

Produzo momentos que não produzem
E tenho o lucro de não dar lucro
Que eu sou muito mais que o preço que me dão
E tenho muito mais do que aquilo que tenho

Sou aquilo que se é por se ser
E tenho aquilo que se tem por não se ter
Choro-me porque não sou mais, é certo
Mas tenho-me mais por me chorar

Dizem-me que não tenho futuro
Que a vida não é feita de poesias e amores perfeitos
Mas o futuro vem sempre com o amanhã
E a minha vida é mais vida no amor da poesia.

Monday, January 22, 2007

A noite está loura e a luz confessa-se em mim
Não são modernos os desejos que olho
Dentes sem uso
Vontades de morder
E uma fome gorda que espreita por de trás do sofá
Comédia de mudos debaixo do palco
Plateia de cegos virados de costas
E o assombro das palavras que não se dizem
Tudo está roto de ser e remenda-se com buracos
Abafo os desabafos dos desaforados
Desacomodam-se quando se penteiam
Em gestos presos de chatice
Arrozais de guerra no meu quarto soluçam-me de atenção
Não me deixam dormir o sonho que não quero
Mas já me durmo na insónia
Que é outro tempo do tempo que é sempre o mesmo.

Cruzo-me na cruz
Que me atravessa
Perder que seduz
Sonho que esqueça

Sou Pilatos do viver
Não sou, logo existo
Lavo as mãos de ser
Mas grito-me Cristo

De viver esqueço
Ao sonhar vida
O tempo desmereço
Não lhe dou guarida

Não sou herói da vida
Por querer vida de herói
Ando a ser de fugida
Que estar em mim dói.

Ainda hoje já foi ontem
E eu que não sou
Não sou senão eu
Em ser que não é meu

Serei em não me ser
No amanhã que já lá vai
Agora que não tem fim
Ser de tudo e tudo em mim

Não sou o que me sou
Em mim não posso ser
De mim cá estar não sou quem sou
Paro-me de mim e a mim vou

Tão difícil ser só ser
Não me ter a querer ter
De mim para mim ser mudo
E não ser para ser tudo.

A verdade é um muro
Do qual se vê parede
Do lado que nos cabe

Quem olha não sabe
No outro lado sucede
Outro sonho de futuro

A verdade encurta a vista
É opaca de certeza
Vive a alma no cercado

Mude a alma de estado
Ganhe sopro de leveza
Eleve-se em conquista

Sem parede que fira
O cá e o lá do sentir
Olhe o muro do alto

Assim, sem sobressalto
Deixa verdade de existir
Porque não há mentira.

A loucura dos loucos é a sua vitória
Dos sãos não querem a história
A loucura é a sua liberdade
Perante os fazedores da verdade

Não usam as máscaras dos conformes
Rasgaram os uniformes
Não beijam as batinas
Enxugam-se das doutrinas
Passeiam nos seus jardins
Sem motivos nem fins
Não saúdam os generais
Doutores e outros que tais
Não honram pais e mães
Do poder não estão reféns
Em nome da paz não fazem a guerra
Sabem a mentira que a sanidade encerra

Nós somos os loucos dos nossos loucos
É pena eles serem tão poucos
Se eles fossem a maioria
Cada são, louco seria.

Friday, January 19, 2007

No Oceano do não ser
Procurei a praia do eu
P’ra aprender a nascer
Viver quem não viveu

Construí-me como nação
História de grandes batalhas
De ódio levantei padrão
Foram crescendo muralhas

Ganhei fronteiras a pelejar
Em guerreira prontidão
Dei províncias a governar
A um feroz capitão

Em nome da independência
E da conquista de território
Tornou-se grande eminência
De imenso poder notório

Salvou-me de invasões
De saques de inimigos
Guardou-me os portões
Protegeu-me de castigos

Musculou-se nas vitórias
Ganhou fama de salvador
Viciou-se nas glórias
Tornou-se ursupador

Periga o seu poder
Sem castelos a conquistar
inimigos a vencer
Reinos a salvar

Velhos fantasmas assombram-no
Almas caídas em combate
Antigas fúrias tomam-no
Como sinos a rebate

Da lei quer ser regente
Governante intestino
Mandar no que se sente
Ser senhor do destino

Em guerra o enfrentei
Em emboscada ou no terreiro
Sempre a mim derrotei
Cansei de ser guerreiro

Vou lançar mão de homens sábios
P’ra aprender como se faz
Vou educar meus lábios
A saber falar de paz

P’ra ter melhor sorte
Da que me coube em mão
Convido p’ra minha corte
O meu velho capitão

Quero ter como aliada
A sua astúcia feroz
Alinhar a nossa armada
Falar a uma voz

Este poder combinado
De quem pisa o mesmo chão
Seria o estandarte içado
Na minha embarcação

Seria bela esta nave
Com rota rumo ao centro
Proa em forma de chave
Do mar que me está dentro.

Sonhar é ser
Sem se ser
Sonhar faz mais de nós

Sonhar não é viver
Mas é viver
O que se sonha

Sonhar é ter
Sem se ter
Dá mais do que não temos

Sonhar é vermos
O que não vemos
É ter olhos por dentro

Sonhar dá
O que não dá
Neste viver que é sonho.

A luz cobre o que me divide
Várias almas me assolam
Não há pena qu’eu olvide
Das várias penas que m’amolam

Tenho jeito de vagabundo
De querer estar não estando
Quero haver do mundo
As dores que lhe mando

Sou porteiro da porta aberta
Regedor sem fazenda
Nunca faço a coisa certa
Espero que o tempo se estenda

Quero servir a vários amos
Dar azo a várias cobiças
Baloiçar em muitos ramos
Sentir belezas postiças

Doem-me as coisas que não me doem
Os mares que nunca vi
As paixões que não me destroem
Os caminhos que nunca parti

Sou só um em todos os sítios
Mas sou eu em muitos lugares
Divido-me por todos os vícios
Multiplico-me por todos os estares.

Tenho-me debaixo da língua
Palavra importante que se esquece a meio do discurso
Palavra que sempre soube e esqueci de tanto aprender
Palavra que murchou no meio das palavras

Estou quase a dizer-me
Não, esqueci-me outra vez

Quando quero falar-me fico mudo de mim mesmo
Só no silêncio me escuto
Mas não tenho silêncio porque insisto em dizer-me.

Deus,
Não quero acreditar-te
Quero saber-te

No acreditar há espaço ente mim e a coisa acreditada
No saber sou-te

Ainda que te olhe como o outro que precisa de mim para ser sabido

E no entanto és tu que me sabes
Sabendo por mim que eu te sei.

Eu quero a verdade
Assim, só pergunto
Resposta não junto
Quero liberdade

Ao perguntar
Crio possibilidade
De saber verdade
De libertar

Falece a condição
Da verdade ao responder
Verdade deixa de ser
Do engano a razão

É nado-morto
Pergunta ávida
De verdade grávida
Não traz conforto

Se traz resposta
A quem duvida
Deixa ferida
Do que não mostra

Iniciação perfeita
Espera receptiva
Não de resposta cativa
Silêncio de pergunta feita

A resposta de pequenez cansa
A pergunta de verdade dá esperança.

O Amor é estranho
Quando mais o dou
Mais o tenho

Tenho-o mas não é meu
È de si mesmo, o Amor
E a si se basta

Por isso não o dou
Não é meu para dar
E já está onde o dou

É estranho o Amor
Só vem se não o quero
E não o prendo no querer

E o solto para vir a mim
Dando-o mesmo sem ser meu
A quem já o tem de seu

O Amor tem um segredo
Este dar que se recebe
É a total ausência de medo

O Amor é estranho
Se o dou e não o quero
Já o vivo e já o tenho

O Amor não se quer
O Amor não se dá
O Amor É-se

Quero não querê-lo, para amar
Quero não tê-lo, para dar .

Madrasta libertina
A esperança cansa
Não lhe peço a benção
Não quero dever-lhe favores

A esperança cobra-me
E eu pago em desilusão
Não quero esperar
Quero lá estar.

Thursday, January 18, 2007

O Brasil foi descoberto por Cabral
Os índios não lhe levam a mal
De não serem índios antes da descoberta
Levaram-lhes o mundo, como oferta
Estavam perdidos, do mundo ausentes
Viviam infelizes as suas gentes
Há milénios esperavam o navegador
Que lhes levasse a cultura do amor
Padres para ensinar o Bem
E a honrar pai e mãe

Levaram cruzes p’ra beijar
E outras a carregar
Aos que não queriam salvação
Pregavam de espada na mão
Pois com mandato de Deus
Se deve salvar os ateus

Nesta missão santa
Morreu gente, tanta
Mas antes mortos e cristãos
Que vivos e pagãos

Chegou também o colono soldado
Àquela terra virgem de arado
Mostrou à gente desgraçada
Que a terra deve ser explorada
A floresta é um abcesso
No caminho do progresso
Glória aos homens de empresa
Que desbravaram natureza
Construíram novas estradas
A buscar almas desgarradas
E botar riqueza nos porões
A bem das nobres nações
Que levaram virtude
Ao índio sujo e rude

De anos, meio milhar
Estamos agora a celebrar
De novo mundo ao mundo trazer
Que era mundo sem ser
Tristeza dos índios, que estavam sós
Não nos terem descoberto a nós.

Nunca me senti de pleno direito entre os vivos
Alguém me segurava por trás
Irritante e secretamente
Eu não conseguia passar o umbral para onde se vive

Olhei de fome o festim na firmeza das minhas metáforas
Saciando-me comendo apetite
Lástima subnutrida
Tanta barriga como olhos, palitando os dentes de nada

Comi-me nos banquetes do fingir, e dei-me a comer também
Em vénias disfarçadas de muito
Prazer do desprazer
Dos que se trocam em conversas de arrotos

Num salto de penúria rodei-me para quem me segurava
Rosto meu que lá estava
De eu para eu me virei
Não me queria vivo como os vivos

De estar e não estar ficava acordado
Umbilicalmente separado
Ver-me de não me querer viver
Só ser em desejar

Quando voltei aos comensais do come eu
Vi as mãos que os atavam
Mãos deles mesmos, como a minha
Na porta do vou viver

O meu meio-viver é quase inteiro
Porque o sei e porque o vejo
Passou-me a fome de ter fome
Vivo mais de não querer comer

Eu meio-vivo com quem já sabe
Da mão que o segura
Que é mais vivo que o que come
A fome de estar vivo.

Wednesday, January 17, 2007

Terra de muitas lavras
Gravidez inconsequente
Futuro já presente
No vício das palavras

Sou lexicodependente
Este prazer que não chega
Dormir que não sossega
Plenitude carente

Não digo o que quero
Quero o que não digo
É escrever de castigo
Já silêncio não espero

Benditas palavras mal ditas
Vingo-me do acervo
De preso estar ao verbo
Malditas palavras bem ditas

Do ser já sou turista
(Sem fim) Escrevo p’ra que chegue
Silêncio que me descegue
As palavras tiram-me a vista

Tenho dor de palavrar
É a dor que me vive
Escrevo onde ainda não estive
Só por medo de acabar.

Sombras de almas anãs
Colheitas de vozes imberbes
Lamentam-me as manhãs

Derreteu-se-me o fogo
Molhei-me de não ter sorte
Na vida em que me jógo

Desfolhei-me em mãos
Surpresas margaridas
Rego-me de nãos

Sinto-me em golpes de estado
Escrevo para estar calado.

Dizes-me
Que escreva poemas
Que tens fome dos meus poemas
E eu digo-te
Tu és poema
E eu tenho fome de ti.

Saí-me todo para ti
Em soluços de aceitação
Do que em mim há maior que eu
Oiço longe voz que se rendeu
Gemido que espanta porque é meu

Se tenho corpo é ao sentir-te
Que de mim não dou conta
Se tenho dentro está fora
E já em ti mora
Neste sempre agora

Estás tu mais eu que tu
Estou eu mais tu que eu
Não distingo o teu do meu abraço
Entre nós não há espaço
De mim em nós me estilhaço

Se em mim não estou
Em mim não mando
Estou em ti como manta
Teu respirar em mim canta
Já o querer não se levanta

É justo este repouso
De quem viveu algo maior
Nada mais é preciso
Ajeita-me a cara um sorriso
De amor não tenho juízo

Noto a chuva que cai lá fora
Ri-se o lugar comum das cantigas
De tanto dele me ter rido
No conforto estou vencido
Este é lugar comum merecido

Ah querida, deixa-te estar
Que daqui é sempre a descer
Quem desta água bebeu
Sabe que a evidência venceu
È nos teus braços que existe o céu.

O amor alivia-me de quem sou
Para eu verdadeiramente ser
Traz memória de quem já fui
Não ser, sendo, que em mim flui

Tão grande dá-se em coisas pequenas
Tira-me o que julgo não poder perder
E dá-me o que nunca sonhei ganhar
Vou-me de mim para depois voltar

O amor toca-me no fundo
E eu que sei que fundo não há
Onde sonhamos abraçados
Coração aberto e olhos fechados

Mereço-me amando
Por amor ao amor
Deixo ser como é
Em acto de fé

Não estou agora a amar
Se estivesse não escreveria
Estaria lá, em mim
Sem estar a gaguejar assim.

Primeiro encontro a sós
Tejo, rio que era nós
Som de água calmante
Memória que veio, distante

Eras tu mais rio que o Tejo
Água toda em ti em cortejo
Lembrei a sede que não sabia
Quando minh’alma de ti bebia

Sabia-te sem lembrar
Sonho doce a alcançar
De mim mesmo me fiz ponte
Para voltar à tua fonte

Em que antes da vida bebi
No tempo que não nasci
Luminoso momento sagrado
Voltei onde tinha estado

Regressei ao melhor de mim
Por tu seres rio sem fim.

Não sei que diga ou escreva
Para me livrar deste tédio
Talento não tenho peva
Escrevo sem ter remédio

Não tivesse que escrever
Para de mim intervalar
Sinal seria de viver
Sem de mim me falhar

Perdoe quem me leia
O som deste enfado
Espero que não creia
Que me gosto deste lado

Amanuense do versejar
Em quadras me suspiro
Sem ter que desejar
De viver me retiro.

Olhava o dia apenas para olhar
Doce preguiça de quem cheira o mar
Sentei-me na praia sem nada querer
O Sol em cima e a vida a correr

Mãos na areia, contente comigo
Por ter o mundo como amigo
Calma morna e sincera
Feliz esperança de quem não espera

Silêncio, vento, pele

Saltou do mar onda grande
Nela não tem quem mande
Caiu-me no corpo desnudo
Fresca, mudando tudo

Sem forma no seu abraço
Longe do tempo e do espaço
Entrou em mim, não foi convidada
Festa brilhante e molhada

Fê-lo apenas, sem saber
Pois onda viva não tem querer
Passa e molha, é assim
Sem propósito nem fim

Faz sentir, é real
Explode o bem e o mal
Não pensei, mergulhei
Porquê? Não perguntei

A praia o céu e o mar
Estavam lá e deixaram de estar
Senti na pele a verdade
Num minuto de eternidade.

Pássaro mergulhão de olho róseo
Na humidade do pasto aurora
Tilintam pios de orvalho
Em árvores sozinhas de silêncio

Não costuma ser tão novo
O dia que sobe na frescura
A soprar de luz frágil
Momento perfeição de prata

Tempo parado no movimento
Dos cascos em salto curto
Chão de céu para quem o vive
Sem pensar no viver

Em castanhos sem memória
Das águas que já lá vão
Perfumo-me de cá estar
Sabores em que enterro os pés

De raiz me deixo
Bebo-me sumo de vida
Nesta cama mundo
Coito larvar do imenso

Não há noite neste dia
Que já é há tanto tempo
E me sonha nos seus tons
Por me apanhar distraído.

Gosto da mulher comum
Anónima, passa na rua sem me olhar
Leva consigo o mistério da estranheza
E o conforto da beleza familiar

Nela todas as histórias são possíveis
Porque dela não conheço história nenhuma
Provoca surpresa erótica porque não sabe que o faz
O desejo que desperta não sei de onde vem
Comichão interior que não sei coçar

Conforta-me este desconforto
Prazer silencioso no barulho da rua
Elevo-me da multidão por me sentir mais eu
Por isso faço-me notar

Ela olha-me
Uma cumplicidade inocente retira-nos dali
Estamos num espaço só nosso
Sorri-me, não sei bem porquê
Talvez precisasse de alguém a quem sorrir
E eu estava ali
Sorriso gratuito de quem não tem razão para sorrir
É o sorriso mais valioso

Continua a andar, no mesmo passo
A vida ainda é a mesma
A multidão ainda lá está
O barulho torna

Pestanejo
Volto a cabeça para a ver desaparecer
Um sorriso resignado move-me o rosto
Moldura nostálgica do futuro que podia ter sido

Pressinto um suspiro
Abano a cabeça alegremente
Como quando se descobre a humanidade do outro nos seus pequenos vícios

Já não estou tão sério
Os meus passos cantam pela rua quando volto a andar
Contente por estar contente
Obrigado mulher comum, pelo teu sorriso extraordinário

Não sei que diga ou escreva
Para me livrar deste tédio
Talento não tenho peva
Escrevo sem ter remédio

Não tivesse que escrever
Para de mim intervalar
Sinal seria de viver
Sem de mim me falhar

Perdoe quem me leia
O som deste enfado
Espero que não creia
Que me gosto deste lado

Amanuense do versejar
Em quadras me suspiro
Sem ter que desejar
De viver me retiro.

Tuesday, January 16, 2007

A poesia assusta-me
Dá-me a saber o que já sabia
Sem saber que sabia

Dá-me a ler em local público
Tal prostituta que se despe
Sem nunca chegar a despir-se

Confunde de tanta clareza
Desmente a certeza
Promete o que não dá

A poesia sorri sem se ver
Que ver é sorrir
E sorrir é ver poesia

Mercado da presunção
Vende o poeta o que compra
Em burlas de si mesmo

Dizeres de fuga sobre o mesmo
O mesmo é a fuga que se diz
Fugir é o mesmo que dizer

Abraço de verdades congeladas
Gemido de não saber
Física de amanhecer

A poesia assusta-me
Sabe-me mais que eu a ela
E poesia é isto mesmo.

Estar comigo é sempre igual
E sempre diferente
É ver que eu sou imensa gente
Neste meu corpo que olha em frente

Estar comigo é sempre natural
E sempre pungente
Pois sou este que nunca mente
E a mentir vou estando ausente

Estar comigo é estar contigo
E estar solitário
Viver de sonhos ao contrário
Com rasgos de sentir primário

Estar comigo é amar-te
E de mim ter amor
Porque amar-te é estar em flor
Num jardim da tua cor.

Dizes que tens defeitos, que não és perfeita
Sentes-te assim, como quem se estreita
E dás-te a sentir, a medo
Do defeito queres fazer segredo

Tu és o que és, totalmente
E sabe quem sabe, quem te sente
Não te queiras onde não estás
Quere-te agora, o que te dás

O abismo entre o que és, e o dever ser
Pesa-te no riso, de fazer doer
Não vais até ti, vives-te às arrecuas
Usando as caras que não são as tuas

Corres para algo que já está aqui
Tu és o Modelo que há para ti
Deixa correr o que te está no peito
Defeituoso é quem te vê defeito.

Faço vénias de estranheza
Ao que ontem foi certeza
Do que fui já estou surdo
Lamentam-me o absurdo

Convido o pasmo a servir-me
Cegueira de vazio firme
Tiro de guerra perdida
Sangue de luta mordida

Haja vão de não saber
Fome de desaprender
Que me guie o estar quieto
De não ter chão nem tecto

É-me mais fácil o impossível
Que ter vida perecível
Sob o chapéu de outra gente
Que julga saber e a si mente.

Dói-me nos outros o que lhes faço doer
Os outros doem-se em mim por eu os viver
É meu desgosto o gosto que não lhes dou
Não me encontro quando neles não estou

Preciso que me precisem
Que seja dos outros meu fim
Que de meu ser me avisem
Que me dêem a mim.

Não penso só o que penso que penso
Há em mim muito mais pensar
Impensável imenso
Que me pensa sem eu deixar

Em pensamento não acho
Quem me pensa e dá ser
Quem me habita embaixo
E se esconde no parecer

Se penso no que não penso
E que em mim está a pensar
Fico a pensar que penso
Aquilo que não sei pensar

Esta tontura pensante
Ladainha comprida
É massa embotante
Penso na minha ferida.

Não sei que seja
Não sei que faça
Para ter o Absoluto
Que em mim se promete

Promete-se porque o quero
E porque sinto que o quero sentir

É possibilidade no meu desejo
É promessa do meu querer
É verdade na minha procura

O Absoluto quer o meu querer
O Absoluto quer que eu O queira
Porque o meu querer existe
E nada do que existe
Pode existir fora do Absoluto

O paradoxo absurdo está no querer
Porque sou eu que quero, o querer cria eu
E eu sou parcela, fracção, limite
E o Absoluto é a soma de tudo o que se soma
O Tudo É, sem haver eu a ser

Para ser Tudo não posso querer
E se não quiser não irei ter

Assim,
Quero ser nada do que me é eu
Para ser Tudo o que há a mais de mim.

Fernando, fizeste-te mais pessoa que as pessoas
Foste pelos outros para eles serem também
Sofreste holocausto no altar do ser
Cristo moderno do dar a viver

Dizes fingir o sentir
Como quem mente em verdade
Esvaziaste-te de ti como morto
Bebeste-te em goles curtos de Porto

Foste tu mais tu, por seres outros
Sou eu mais eu, por te ler.

MAR

Salgado, revolto, poderoso, tenta libertar-se das margens que o prendem, com fúria, quase com desespero, arrastando tudo em que toca para o turbilhão do seu desencanto, por vingança da mesquinhez da terra que o segura, tão imóvel e estúpida.
Não compreende, o mar, a razão de tais barreiras, que lhe travam a maré, e o impedem de estender-se pelos campos, de cobrir os caminhos, de encher os vales, e de correr...
...correr muito, até encontrar aquilo que sonha. Julga existir algures para lá do cais.
Perde, o mar, a luta contra os muros.
Esquece, o mar, que aquilo que procura pode estar para cá da estupidez.
Aprende, mar, a ganhar força nas costas que te oprimem!
Bebe, mar, os rios que correm para ti!
Ouve, mar, o canto das aves que poisam nas tuas aguas!
E sente, mar, sente sempre!
O Mundo é um pingo, tu és o Mar.

Os olhos são desertos vermelhos
Num rosto máscara de quem se abandonou
Já não se dá aos outros porque não se tem para dar-se
É um vazio forrado de esqueleto e pele
Erecto na altivez dum boneco de cera
Vivendo um sonho de que não se recorda

Os seus passos lentos e antigos
Levam-no sempre ao sítio de onde nunca saiu
Ontem, hoje e amanhã são sempre a mesma hora
A hora de viver para aquilo que o mata
Aquilo que apaga a memória de quem é
E anula a esperança daquilo que será

Talvez seja este o chuto de ouro
Aquele que lhe traga Absoluto
Talvez seja este o tal
Que lhe dê tudo, tudo, tudo
Sem nunca faltar
Talvez seja este o Pai de todos os caldos.

Mais, mais, sempre mais...
Fui educado a ser sempre mais
Mais trabalhador
Mais rápido
Mais...qualquer coisa

Tentar ser mais é sentir-se a ser menos
Tentar ser mais para ser alguém
É sentir-se ninguém se não for mais
E como se pode ser a ser ninguém?
È um contra-senso, uma vida sem vida

Então, mais, mais...
E nunca chega
Como pode chegar?
Sou-me a tentar ser mais
Se parar não me sei ser
E fica o vazio do ninguém que sou
Porque só se é alguém no mais
Mais, mais...

A pedra é menos pedra por não querer ser mais?
Será que pode ser mais pedra?
Se fosse mais pedra já não seria aquela pedra
Seria outra pedra ou outra coisa qualquer
O mais não deixa ser
O mais diz que ainda não se é
E mais, mais...

E agora aprendo a ser mais eu
Nos livros de auto-ajuda
Nas terapias de cabeceira
Nos encontros de Quinta-feira
Ser mais eu é não ser eu
Naquilo que sou eu a querer ser mais
Que raio de eu seria aquele que é mais?
Se é mais já não é eu
Tem outro eu que é seu

Mais, mais...
Este querer ser mais
Dá-me o ser de menos

Ah, se não quisesse ser mais...
Ah, não quisesse ser...
Seria Mais
Seria Tudo
Porque tudo já é Tudo naquilo que é.

Estás aqui, ao meu lado
Enquanto escrevo para ti
Neste sonho acordado
Leito que não dormi

És tu que me acordas
E me fazes sonhar
Libertas as cordas
Que não deixam voar

Acabaste de falar
Sem notar que escrevo
Tua voz a vibrar
Com frescura de trevo

Escrevo para te sentir
Neste cantinho só meu
Por te ver a sorrir
È meu escrever só teu.

Monday, January 15, 2007

Não escrevo para transmitir mensagens
Os meus poemas não têm mensagem nenhuma
Esta é a sua mensagem

Não escrevo panfletos
Não distribuo manifestos
Escrevo da mesma maneira que abro os olhos de manhã para ver o dia.

Serenas tardes
Calmas noites
Mulheres, homens
Sentindo fogo
Tristeza alegre
Do nosso povo

Somos trovadores da dor que nos é emprestada
Somos mercadores indo pela estrada
Bebendo, sorrindo, sofrendo, sentindo
A noite é nossa, o espaço é amplo
Vivamos sem mágoa a dor que afaga.

Visão dos tempos que se abrem
Em céu laranja e roxo
De nuvens castelos mortais
Sobre o peso das almas que gemem
O ar pastoso e salgado
Desespero que se reproduz
Em mares que já morreram

Ventos que levam e não trazem
Solidões em cavalos negros
Garras na lama derretida
E o murmúrio dos que partiram
Ecos que picam os que estão
De vontades de já não estar
Surdos para quem já foram

Noite sem manhã
Ruínas cinzentas ao vento
E uma solidão que não se esquece
No som sozinho dos passos
Pela vastidão vazia do absurdo
Glórias caídas em desgraça
Patéticas por estarem podres

Trovões ao longe e já perto
E a chuva que já não vem
Porque nada é o que era
O mistério do que nunca será
Aberto à minha frente
Peito com peito com o que não existe
E as mãos caídas sem acerto

Vértice de ser agora
No medo que está para vir
E tudo acabou por acabar
Sem deixar mais que não lembrar.

Recordo o rosto
Quente de Agosto
Cabelo ardente
Paz em gente
Sorriso despido
De tudo vivido
Gesto lento
Braços vento
Voz esperança
Olhar que dança
Nasceu ali
Toda em si
Apenas para o Verão
Sonho em mão
Interior externo
Memória de inverno
Que esquece o rosto
Quente de Agosto.

Não sei que idade tenho
Não conto as coisas do Mundo
Sou pequeno em tamanho
Grande em olhar profundo

Não sei as regras do deve ser
Por isso rio a qualquer hora
Também sei merecer
Minha alma quando chora

Os meus olhos de miúdo
Não treinaram a escolher
Por isso vejo tudo
Mesmo o que os grandes não querem ver

A Flor á beira do asfalto
Jardim só meu porque o vi
Pró sonho dou o salto
Se não quero estar aqui

Vivo com dragões e fadas
Brinco ao verão no inverno
Descubro montanhas nas escadas
Vivo no presente eterno

Não vivo na fantasia
O Maravilhoso é real
Que o mundo sorria
Ninguém lhe leva a mal

Parece que tenho de crescer
Ser homem grande e tudo
Mas não quero deixar de ver
Com meus olhos de miúdo

Se me querem ensinar
Não me façam esquecer o céu
Deixem-me sempre parar
Para ver um jardim só meu.

S

Sacrifico serenidades sombrias
Salteador sanguinário sou
Sorvendo singelas senhoras
Sumptuoso sobre sal
Semeio saudades serôdias
Sinistras sinfonias secretas
Sitiam sussurros sedentos sonhando ser Sol

Sou
Soldado sísmico
Senhor separatista
Solitário sensualista
Solsticio sideral

Serei
Sarcófago singular.

Tenta conhecer-me como não me conheço
Tenta amar-me como não me amo
Tenta ser tu para ser eu
Tenta o Mundo para eu tentar a vida

Adeus e até já, amor

Lembra-te de mim como do Sol que nasce todos os dias
E todos os dias morre.

Quero ser-te
Cantar-te
Colher-te
Desfraldar-te

Quero sorver-te
Inventar-te
Enrubescer-te
Versejar-te

Universalizo-te
Rimando-te
Preciso-te
Cantando-te

Neologismo-me
Letrando-te
Turismo-me
Viajando-te

Áfico-te
Porque europas-me
Mundo-te
Porque galáxias-me

Cleopátro-te
Porque egiptas-me
Idolatro-te
Porque obeliscas-me

Guerra das estrelas-te
Quando eu blade run
Greta garbas-te
Quando eu boris vian

Procuro-me
Por calor-te
Loucuro-me
Por amor-te.

Quero trincar
Degustar e engolir
A Maçã da Sabedoria

A Maçã que me proíbem
Dá-me a mim
E eu quero ter-me

Preciso que a Eva em mim
Liberte o meu Adão
E o faça andar de pé

Não quero Deuses que proíbam
Têm medo que eu seja
E isso é não ser Deus

Deuses não têm medo, São
E São através de quem É
E quem É, É Deus

Eu sou Filho
E o destino de um Filho
É crescer até ser Pai

Eu Sou
Deus É
Eu sou Deus.

O teu olhar sopra em mim
É difícil prender olhar assim
Não posso fechá-lo com corrente
Deixo-o soprar, simplesmente

Prefiro transformar-me em vela
Para que teu vento bata nela
Ajusto-me ao soprar, a cada instante
Para do teu olhar me tornar amante.

Não te quero
Por isso amo-te
Já te quis
Não te amava

Queria-te
E querer é faltar qualquer coisa
Que satisfaça o querer
Encha o vazio do que falta

No querer está o desejo de ter
Torna-te coisa que se tenha
E que se tem medo de perder
Ou de não vir a ganhar

Este medo dá-te prisão dourada
No querer de quem te quer
Que corta as asas de quem és
Não vás fugir no teu voo

E tu tens que te voar para seres tu
No espaço de céu que te vives
Longe de quereres que não queres
E de amores que não amas

Nesse voo em que te és
Sobrevoas não me amando
Por isso não te quero e amo-te
Amando que não me ames.

Alguém de mim usa com orgulho
A medalha da humildade

De ter amor ao poder
Perde o poder do amor

Tem tanto de si
Que a si não tem

Cospe no que quer
Porque vive de querer

De tão simples, é impossível a verdade
Escorrega, não tem complicação onde agarrar.

Sabeis senhores quem sois
Sem as vestes que usais?
Como ficareis depois
Nus como animais?

Despi-vos de nobrezas
Largai vossas carteiras
Perdei vossas certezas
Baixai vossas bandeiras

Deixai-vos estar nus
A sós convosco
Apresentai-vos à luz
Sem olhar fosco

Todos conheceram parteira
Cara que viram primeiro
Mas a face derradeira
Será aquela do coveiro

Sois diferentes em adereços
Coisas doutas e habilidades
Pagais diferentes preços
Ao comprar identidades

Mas todos usam penico
Seja d’ouro ou de cartão
Faz o pobre e faz o rico
E limpa com o que tem à mão

Adornam-se de banalidades
De esforços para ser
Fazem guerras de vontades
Grandes lutas a vencer

Fiquem nus de pança ao léu
Não tapem a vossa vergonha
Só andam debaixo do céu
Até que a morte a mão vos ponha

Mirem-se bem, tudo a nu
Não são assim tão importantes
Todos têm boca e cu
E na vida são passantes.

No minuto infinito
Condensa-se o ser
Sinto quando permito
Deixar-me conhecer

Angústia de ser em memória
Fuga de enredos meus
Ser apenas em história
É fechar os olhos a Deus

Desejo de perfeição que esquece
Dor do oposto vivido
Luto que não fenece
De tudo o que é querido

Querer mais do que é
Servir a dor do desejo
Torna a vida ré
De tudo o que almejo

Não fico pelo que sou
Nem sou pelo que fico
A vida já se gastou
E eu o simples complico

Quero aceitar o real
Deitar-me no seu leito
Conflito fundamental
Não aceito que não aceito

Ser não querendo ser
Não sendo e querer
Pela vida me estendo
Vivendo o não viver.

A Dinastia de Ser Feliz
Tornou-se a casa reinante
Na alma que é o meu país
E onde vivo como infante

Neste reino de alegria
Sem muralhas ou castelos
Vivem lendas hoje em dia
E poetas sempre belos

São novas as catedrais
E os sinos que lá brilham
Lançam rimas os jograis
Em canções que maravilham

E as ruas que são sorrisos
Trazem gentes de mundos novos
Outros olhos são precisos
Para a luz dourada destes povos

Os rostos que me abraçam
São novos porque os vejo
Outras vidas em mim passam
Neste ser feliz em cortejo

Novo mundo no meu mundo
Chegou o teu reino a mim
És tu que me dás a ver profundo
Neste reinar de que sou Delfim.