Thursday, March 23, 2017
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Wednesday, February 1, 2017
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Tuesday, October 21, 2014
As chamas loucas do paraíso
Corro, danço, voo, canto a vida de improviso
Palhaço, mágico, mendigo, e, na dúvida, pouco sizo
Não sei nada, juro que não sei nada
Por vezes, no silêncio, surge a cacetada
É som, é rasgo, é flor arrancada
Mas no alto de cada baixo vence a gargalhada.
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Wednesday, October 8, 2014
A pérola como flor
O desejo como andor
Da Santa Liberdade
Na folha branca a verdade
Na cama branca a vontade
Ser poesia todas as manhãs
Não querer adormecer nas coisas vãs
Alto e baixo tudo é nexo
E da vida aberta ser o sexo
A carne mansa do mistério
Fronte, olhar, amor galdério
A boca na fruta acesa
Doces que tu fizeste sobre a mesa
Ser tudo o que o tudo almeja
E no teu rosto flor a minha igreja
Perante mim acordam os mitos
Por olhar-te sossegam os aflitos
Na tua paz será sempre dia
E o amor, por mais que fosse amor, nunca morria.
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Monday, July 21, 2014
Eu já te conheço
Agora só quero saber o teu nome…
Fui arrebatado pelo calor da tua força
Pelo Universo de flores e aves do paraíso
Que te brilham no sorriso glorioso
Coroa imperial e corpórea da Vida a festejar-se
Em ti
Fui batizado pelas tuas lágrimas de alegria
Em nome da sagrada trindade da Beleza, do Prazer e do Amor
Na terra fecunda da presença regressamos ao primeiro começar
Quando a luz se tornou luz e o ar se tornou ar
Paridos pela Grande Mãe Dança
Rendemo-nos ao mistério de onde brotam os mistérios
Pois é à sombra do Amor que descansa a Criança Divina
Semente da inocência eterna que renova o mundo a cada suspiro
O teu olhar, brilhante e húmido, santificou-me
Tornou-me Deus Criador que se ajoelha perante si mesmo
Menino descalço feito coração e Verdade
Que dos gestos cria céus, mares e terras
E as musas de todos os poetas e artistas
Eu já te conheço, eu já te conheço…
Desde sempre…
Não, desde sempre não
Antes do tempo, antes do sempre e do nunca
Antes de haver antes e depois
Antes de haver palavras que falem do tempo e do sentir
Dancei contigo e por isso eu já te conheço
Mesmo quando não te conhecia
Por favor… já te conheço…
Agora só quero saber o teu nome.
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Thursday, June 26, 2014
Corpos despejados no chão instinto
Enrolam-se com intensidade de briga
Sibilando-se no labirinto
Na potência febril que irrompe
Rugem as carnes e as memórias
De tempos criadores e glórias
Que já nem a palavra corrompe
...
Estertores pulsantes no centro
Onde agigantam os titãs
Fúria desejante adentro
Mais antiga que as manhãs
Raios certeiros da semente
Que a si dentro se envia
Assoma a verdade da Serpente
É na loucura da pele que o Criador se Cria.
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Wednesday, May 7, 2014
Espera pelo mistério da carícia
Pela sombra esvoaçante
Poisada na lapela do silêncio
Espera
Não julgues este fruto
Pela couraça da semente
Nem lhe peças para mentir
...
Permanece comigo
Á beira do horizonte
Na véspera fecunda do sentir
Onde o olhar aguarda a permissão da alvorada
É agora, a viagem
Rotundo assombro da presença
Majestade insondável do suspiro
Glorioso arrepio do éden
Se ficares, irás descobrir
Que já é teu o céu prometido
Fica tão longe como o encontro da pele
E tão perto como o Universo que és.
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Tuesday, February 25, 2014
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Thursday, January 16, 2014
Gestos horizonte e ouro, perfume e joias raras
Raízes de sangue, mitos e paixões do início
Subtileza pulsante da asa que vence o céu
Força vibrante do respirar que nunca morreu
Ponto mais alto e força da luz de solstício
Rumo à vida, ao sempre e à memória da chama
Flor ardente e mistério, religião de quem ama...
Vertigem de assombro e fé no passo do precipício
No paladar da pele ruge a selvajaria do instante
Febre, mar, terra farta e o gemido do amante
Muralha, sombra, templo e bandeira do armistício
Danço porque danço, insanidade dos crentes
Entorno-me no mundo sem mapa nem o freio nos dentes
Liturgia sagrada que me acende… desta coisa de Viver tenho o vício.
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Friday, December 20, 2013
E por nada também
Cada gesto amar
Cada passo um àmen...
Somos céu e somos terra...
Universo em carne gente
Somos mar que não se encerra
Nas margens do indiferente
Assomo de flores no asfalto
Riso de meninos felizes
Vamos fundo e vamos alto
Coragem de aprendizes
Habitam-nos deuses e fadas
Apetites de animais ferozes
Caminhos, veredas, estradas
Somos das estrelas as vozes
Dançamos para que a vida se sinta
A sentir-se a ser dançar
E a ser vida não há quem minta
Porque tudo é ser...e ser é amar
E a luz que se dance !
E que se dance o choro !
Movimento de alcance
Alquimia do ouro...
Nascem mundos em cada abraço
Em cada encontro, uma catedral
Já não separam tempo, nem espaço
Pois cada sorriso é cor de Natal
Por tudo dançar
E por nada também
Cada gesto amar
Cada passo um àmén...
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Monday, December 16, 2013
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Onde escrevo
Não sei o que vou escrever
Mas oiço esta voz por dentro
Que me dita o que escrevo
E o movimento nasce
Cresce até aos dedos
Que batem nas teclas...
E eu sinto o prazer
Deste toque
Que cria sentido
Para quem entender este código
Linhas e curvas pretas
Contra um fundo branco
Tornam-se sons
Dentro da cabeça de quem as ler
Isso evocará pensamentos
Imagens
Sensações
Noutro que não eu
Lá, no outro
Onde estiver a ler
Longe daqui
Onde escrevo
E eu
Imagino quem será que me lê
O que sentirá essa pessoa
Como será ser esse outro
Como será estar nessa pele
Nessa vida
E sinto-me próximo dessa pessoa
Por pensar nela
Por imaginá-la a ler o que escrevo
Enquanto escrevo
Sentindo o toque das teclas
Nos meus dedos
Como se tocasse nessa pessoa
Dentro dela
Porque o que lê ouve por dentro
Com a sua voz
Por isso… estou a tocar-te
A ti
Agora
Por dentro
Neste momento em que lês
Estamos ligados
Enquanto eu escrevo e penso em ti
Enquanto me lês e sentes essa voz dentro de ti
Que te foi dada pelo que eu escrevi daqui
Anulamos distâncias e tempos
Ligamo-nos na dimensão do Ser
Não posso ser tu, nem tu podes ser eu
Mas somos irmãos, ambos filhos da Existência
E encontramo-nos no que nos damos a sentir
Enquanto escrevo
Enquanto me lês.
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Monday, November 25, 2013
Se o vento fosse o pasto
Do amor que me guia
Seria no céu o seu rasto
Cometa vida e alegria
Teus olhos vêm-me mais Eu
Tua boca fala-me poema
Beijas tudo o que é meu
Não há mistério que eu tema
As ilhas separadas parecem
Mas liga-as o fundo do mar
Mesmo longe cá permanecem
Os tesouros do teu amar
Fauno, herói, dançarino
Floresta de rituais encantados
Sou gesto e corpo celestino
Gesta de povos enamorados
Amo amar este amor
Amo amar quem eu amo
Mulher beleza e honor
É teu amor o meu amo.
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Friday, September 13, 2013
Começou por emergir um sorriso, quando te vi
Entraste em mim, enquanto te lia com o olhar
Lendo-te e sentindo-te
Lendo-me e sentindo-me enquanto te leio…saboreio
O sorriso espraiou-se até ao peito onde acendeu uma braseira quentinha,
Daquelas que afugentam o frio numa manhã de nevoeiro invernoso.
A braseira foi atiçada pelo combustível da possibilidade do desejo...
Um arrepio quente alcançou-me o ventre, enquanto as imagens e as sensações que me viajaste chegavam a mim...
Ouvi-te, senti-te, vi-te, e tudo era claro, vívido, presente ...
Num ecrã interior, onde todas as fantasias são reais, e os desejos alcançáveis... tangíveis... verdade... presença...
... o respirar elevou-se... o sexo elevou-se...
... tornou-se vivo, dono dele mesmo, tentando furar a impassibilidade das calças...
... como um cão que não quer estar preso e luta na sua ferocidade irreprimível para partir a corrente que o humilha...
E o teu cheiro, o teu calor, o teu olhar selvagem, tocaram-me na pele...
… por fora e por dentro...
... debrucei-me na vertigem...
Ouvi risos, que eram os nossos, mas que traziam algo de nós que era novo...
…surpreendentemente novo...
... quis afastar as presenças e os olhares das estátuas semi-vivas, que tentavam penetrar neste terreiro da loucura sagrada ...
.. em que nos despíamos de nós e para nós...
... desnudados de incerteza, glorificados de beleza...
... o nosso refúgio secreto no meio da multidão, é o centro da galáxia...
... é o palácio onde reinam os loucos e as feras...
... Taj Mahal vermelho onde acordam os anjos/demónio que fecundam a terra e põem vida nos mares...
... aqui dançamos...
Neste centro unificado onde o principio está sempre a acontecer...
.. dançamos debaixo das mesas, atrás das portas, no alto dos telhados...
... dançamos no cimo das águas, dentro das flores, no olhar dos pássaros...
... dançamos na beira das muralhas, porque rasgámos as mortalhas.. e as correntes...
E somos diferentes...
Dançamos, só por dançar... mesmo que não dancemos...
Porque a dança já não nos deixa...
Vivemos dentro dela... somos paridos por ela...
Porque a dança é a nossa Mãe....
A nossa Verdade...
E a nossa Verdade é a Vida
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Thursday, June 20, 2013
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Monday, April 22, 2013
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Thursday, April 4, 2013
Acendem-se todas as poesias
De todas as línguas
Consagram-se todos os templos
A todos os mistérios divinos
De aquém e além memória
Reinos ou impérios
No infinito da pele
Onde se deitam os deuses
Depois de criarem os mundos
Assombra-se o coração rubro da Vida
Na surpresa incandescente do início
Onde as estrelas abriram os olhos
E o tempo jorrou-se no espaço
É no segredo da pele
Que cintila a jóia que me mantém:
A tua pele que visto como minha
Manto oceânico da tua presença em mim
Que já não sei que assim não seja
E já não lhe encontro o que seja fim.
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Tuesday, February 12, 2013
O átomo universo aos olhos do nada
Não há régua de cálculo que nos diga
Que sentir é certo além da fachada
Na sombra angulosa da história antiga
Um murmúrio secreto pode ser chicotada
E o verso forçado na velha cantiga
Trazer o perfume da pele amada
A cada sentir seu sentir se obriga
Todo o olhar tem uma forma privada
Tem os contornos do que nos fustiga
Ou a cor da ternura que nos é dada
E de todo o sentir que a vida me irriga
Abismo, mar aberto e enseada
Não há nada nele que eu não bendiga
Como a força da ida que traz a chegada.
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Friday, January 18, 2013
Mas sinto o dia
Como lâmina de xisto
E nem sei porque disse isto
Talvez porque o que se ensombra
Quer a luz para ser visto
Sentimento misto
Feiura e beleza
Mas abraço-me na certeza
De que na doçura resisto
E de que é no amor que insisto
E, porque amo
Amo-me a amar
O amor que conquisto
E amo este dia
E a lâmina de xisto
E é neste amor que me Existo.
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Monday, January 14, 2013
Aceso pelo rosário da ternura
Descreve a história dos vivos
Que romperam a muralha amargura
Ao fel do desamor
Acende-se a claridade do sentir
Irrompe o voo do condor
É pelas tuas mãos que me semeio
É no teu olhar que me anseio
No amor que me trazes ao peito
Já canta um coração sem receio.
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Thursday, December 13, 2012
Os teus mamilos
São de fogo e são de
vento
Na minha cobra língua
De ti tem estado à míngua
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Tuesday, November 27, 2012
Chegou-me o
demónio na noite
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Friday, November 23, 2012
Como um riacho no veludo do musgo
Acordou-me a pele e as estrelas
Palavras carícia e sopro quente
Marotice do encantamento
Hipnose de astro que se inquieta
Mulher corpo lançando feitiço
Na fogueira dos afetos primeiros
Prazer de resistir ao prazer
Desejo de desejar mais desejo
Nutrido na fome de si
A noite acende-se para o céu
O universo destapa-se dos lençóis
E, no instante anterior à criação
Retorno a mim no teu abraço.
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Thursday, November 22, 2012
Escorre-me o tempo
Nas têmporas
O despeito
Afunda-me o peito
Mas são os dizeres sábios
Que me lambem os lábios
Que me deixam surdo
E contrafeito
Quero que a mudez
Me colore a tez
E que o ruído
Se cale de vez.
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Porque queres despir-me das sombras?
Porque me recusas a noite?
Se queres a minha intensidade dentro de ti
Deixa-me a intensidade dentro de mim
No poço do segredo
Estão as formas do indizível
As memórias do degredo
As fomes do impossível
Deixa-me que me deixe sentir
Sente-me a deixar-me deixar
E quando me encontrares perdido
Perde-me... para me encontrares.
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Tuesday, November 13, 2012
Sou o filho do céu e do inferno
Brilham estrelas no meu vazio
Lanço fogo que rasga do frio
Vulcão aceso na noite de inverno
Sou flor que ruge por entre alcatrão
Dor que fica do gozo arrojado
Sou vaga que bate nos adamastores
Sonho de preso no forte dos bons
Não sofro de cismas, virtudes ou dons
Nem das febres dos sábios doutores
Sou a sombra desperta no nevoeiro
O riso na véspera da multidão
Anéis de saturno ao alcance da mão
Abraço do Mundo no corpo inteiro
Sou a força gentil do amor verdadeiro
Sou todos aqueles que em mim são.
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Monday, November 5, 2012
No espaço entre palavras
Desfiladeiros do indizível
Vive o infinito silêncio
As possibilidades sem fim
Em tudo o que há por dizer
Nada diz o que vou sendo
E de dizer me arrependo
Ao limitar-me assim
Escrevo sem saber aonde vou
E quando lá chego nunca lá estou
Mas é neste caminho para não me encontrar
Que me encontro a mim.
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Sunday, November 4, 2012
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Tuesday, October 30, 2012
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Sunday, October 14, 2012
Riachos de arrepio
Na paisagem suave
Da carne
Inquietação
Do torpor
Ondas quentes
De veludo vermelho
Do desejo
Na margem do suspiro
Desdobra-se
Em quási-movimentos
Um fulgor aquém-memória
Germinação do sentir
Na floresta adormecida
Vale secreto do éden
A noite
Quente
Ronrona sobre os gestos
Manto que embala
O acordar da febre
No casamento da pele
Desvenda-se
O florescer sanguíneo
Que se abre ao beijo da vida
É o convite eterno
E terno
Nascente do grande rio sagrado
Majestade da doçura fervente
Coluna de fogo e mar
Descobre a rota do delírio
Até ao fundo mais fundo
Dos recantos da delícia
O gotejar de universos paraíso
Na gruta encantada do tesouro
Vai desnudando o dique
Que segura as formas
O caudal da fome
Escancara a carne
E transborda o ser
Obliterando as margens do sentir
O grito da Vida explode em infinito
Tremor soluçante dos perdidos
Que se encontraram nas alturas de si
Vertigem incomensurável da queda abrupta
No avassalador terramoto do prazer
Planetas de êxtase que se fundem
No glorioso mistério do início dos tempos
Deslizam Corpos Oceano
Espraiados à sombra da eternidade
Entregues às jóias do carinho
A pele não se destingue
Na beleza dos frutos da carne
E mesmo antes de adormecer
No sopé da grande Deusa-Montanha
Aquilo que toca o olhar
É o rosto do Amor.
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Wednesday, October 3, 2012
No espanto do fascínio
Sou tomado pelo delírio da beleza
Pelo fogo que eleva
E rompe as margens do impossível
Brisa que beija o corpo inteiro
Vaga que toca no segredo do prazer
E do prazer irrompe o bosque encantado
Mistérios sagrados da vida emergente
Carne na liquidez do êxtase
Colo primordial que funda a existência
Na pele oceano navegam naus de deslumbre
Prados viçosos de flores carícia e mel
Perfumes e cores do horizonte paixão
Sou o centro e sou a margem
Sou o olhar e o Universo
Sou o corpo e sou o Céu
Sou o que tu és
Ao seres em mim
E o beijo que me despertas
É o útero de onde nasço
Para a glória de me cumprir.
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Thursday, August 9, 2012
De fantasmas que não existem
Vazios com peso de pedras
Que delimitam feridas por abrir
Vislumbre de não sentir
Entre o sonho e o partir
Corações de mármore branco
Suspensos do esquecimento
Na tangente do infinito
E do medo que está para vir
Que esfaqueiam o nevoeiro
Um zero cortado ao meio
Ausência recortada
Numa vida sem surgir
Muro na ilha do degredo
Estátua partida no chão da fome
Presença inerte que não tem nome
Rumo ao cego que não quer ouvir
E isso que importa
Não há nesse umbral que valha a pena
E a descrença não é pequena
E o poeta não quer sair.
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11:26 PM
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Friday, June 29, 2012
Lança de
fogo abrupta
No centro
do gesto eleito
Que me
absolve da luta
Rio de mel
em campo de flores
Desagua no
meu secreto recanto
Bebedouro
de todas as dores
Dança no
meu interior
Galáxias de
sentir em verso
Constelações
do signo Amor
A olhar o
fulgor da Vida
Já não há bandeiras
na guerra
Apenas a alma
a ser cumprida.
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Saturday, May 26, 2012
Vou sendo o que sou
Sendo o que vou
E vendo o que sou
Mesmo que não seja o que vejo
Nem veja o que sou
E quando não vejo o que sou
Quando estou a ser
Sou, a não ver o que sou
E a não ver o que vou sendo, sou
O que vou sendo sem ver.
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10:08 PM
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Friday, April 20, 2012
O TEU ABRAÇO
Quando me recebes no teu abraço
Eu regresso e parto ao mesmo tempo
Retorno à origem do sentir
Início da grande viagem aguardada
Fundo-me no teu peito de fogo líquido
Memória dos pastos sagrados
Anteriores às religiões do Homem
Odores da certeza da carne
Corpo suspenso de si
No infinito deste céu
Gotejo-me para o fundo do prazer
Em que o não eu se torna tudo
Diluído pelo êxtase da vida a sentir-se vida
O tempo colapsa-se no mistério criador de oceanos
E eu, que deixei de ser eu
Sou mais eu do que nunca e sempre
Porque é no segredo do teu abraço
Que eu me sinto quem quero ser.
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3:55 PM
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Wednesday, March 28, 2012
Versos corridos com o mote EU SOU
Eu sou
O mar de Agosto
O perfume do prado recém nascido
Eu sou
Sou eu
A nota musical que brilha nas lágrimas
Poema entregue à vida
Sou
Sou o ser que é
Sem ser o que é
Sou o som de: Eu sou
Sou esta página
Não sou
Acabo de ser
O ser inacabado de ser
Sou o teu olhar
Olho o teu ser
Canto o ser
Sou o canto
E a vida
Que é em mim
Sou a noite
Sim, sou a noite
Sou e não sou
Porque não deixo de ser
Aquilo que não sou
Sendo aquilo que sou
Sou o não sou
Sou tudo
Sou o amor que ama
E amo amar o amor
Eu sou aquilo que amo
Eu sou tu
Tu és eu
Sou quem tu és
Porque ambos somos o ser que é
Eu sou nós
Porque o que eu sou
É-me dado pelo que és em mim.
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8:50 AM
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Tuesday, March 13, 2012
Poemazito teimoso, que saiu por sair
hoje nasceu do meu peito
o desejo de te beijar
e assim, por desejar
beijo-te por beijar
que desejar por desejar
É o meu desejar eleito
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Friday, February 24, 2012
Mulher Dança
Filigrana de gestos labareda
Esculpem de existência o nada
Carne que se antecipa à queda
A verdade é a sua espada
Olhar seara e infinito
Montanha régia de ser
Nascente de sonho e mito
Fome de desaprender
Desejo hasteado no mundo
Vermelho como a seiva da vida
Sentir que se enraíza no fundo
Da sua identidade cumprida
Cabelo ao vento esperança
Coroa de espiga e malmequer
Enamoro-me da tua dança
Deusa de encanto, Mulher.
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Thursday, February 16, 2012
VERSOS IMPERFEITOS SOBRE A PERFEIÇÃO
Amar é olhar com o coração
E o coração não julga, sente
E naquele instante presente
Está contida a perfeição
É perfeito aquilo que existe
Se não quisermos mais do que seja
Pois querer diferente do que se veja
Não é perfeição que se conquiste
Perfeito é ver como respirar
Natural como a erva na estrada
Que não quer que seja nada
Diferente de ali só estar
A perfeição é o amor a olhar
Que por amar tal como vê
Diz ao que ama: mostra-te e sê
E mais não sejas que ser a amar.
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Tuesday, January 24, 2012
Sou o centro ampliado do gesto
Volúvel como as sombras na neve
Suspira-se na antecâmara da palavra
O broto pulsante de infinito
Que acede à vertigem de ser
Sou a floresta mais antiga que o olhar
Vento que desbrava a certeza
Sulcos de ritmo despido e sanguíneo
Borbulham na seiva luminosa do meu peito
A dança veste-se de mim e do sopro universal
Sou inteiramente vivo e escancarado
Pela força serena e brutal das manhãs do princípio
Arrancado da lisura adormecida
Tomo a forma da paixão urgente dos náufragos
Dançando a criação do mundo no estrondo de quem se mergulha
Sou e serei
O rosto de céu dos virgens fecundos
Paraíso ondulante e descalço que se pare em cada gesto
Sou e serei
A dança que em mim se dança e sem mim já era dança
E desde o tempo em que o tempo é tempo brilha nos olhos de uma criança.
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4:00 PM
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Na véspera do sentir
Abri a janela dos dias
Pássaro incolor debruçado
Na réstia esquiva da memória
Útero subversivo
Remissão do tempo perdido
Alcance do grito primal
De quem nasce sozinho
Viver à sombra dos embates
Das máscaras soluçantes
Semente de fogo que rasga
A pele rugosa do inevitável
É tempo de ser presença
Vida sempre e criança
No sal estupefacto da lágrima
Cresce a rosa do amor.
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Palavras de pedra
Abruptas como a morte
Sulcos na margem do olhar
Enquanto sombras liquefeitas
Rasgam o espaço entre os dias
Abrir o sangue, abrir
Ao sopro da vertigem concreta
Na fome dos passos de inverno
Escasseia a carne no sentir
E a febre de partir
Entrançado de lágrimas na rota dos vencidos
As pegadas no teu peito
São o rosário da minha descrença
E já nem sonho sonhar em ter esperança
A música fechou-se no teu ventre antigo
E a garra que me marca sempre esteve contigo.
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12:24 AM
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Tuesday, January 10, 2012
Do fundo do teu bosque antigo irradiam riachos de luz verde-esmeralda
Tremeluzem encantos na sombra das árvores, raízes poemas no abraço das copas
A terra respira-se no espaço ínfimo entre o sonho e a palavra
Teu peito desnudo cumpre a saga do amor
Lágrimas de assombro no mar da despedida, a boca vermelha no murmúrio do prazer
Mas é a tua noite de céu sistino que relembra a vitória da dança
Prado diamantino acima da memória, vento de março que traz o regresso
Hoje és Tu, ante e após o impossível
Rugido imperial dos Vivos pela ousadia de ser carne... e verdade
A marca do teu voo angelino esculpe os gestos do amor
Sobre os cumes da poesia, nos rostos altivos dos deuses
Serás sempre quem te ama
Pois quem te ama é mais ser
E amar...
É ver-te a Ser.
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4:45 PM
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Saturday, October 29, 2011
DANÇA DE SHIVA
A dançar...
O deus comeu da minha carne
E bebeu do meu sangue
Centro da Existência
Umbigo primordial criador de galáxias
Imobilidade e-terna
Oculta na vertigem do movimento
Real-idade do eixo do mundo
Presença...
Algo de mim é mais que Divino.
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Monday, May 16, 2011
A mão que agride
A voz que oprime
O olhar que mata
Esculpem os corpos
E o futuro.
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Monday, February 21, 2011
A vida soletra-se nos meus passos
Sou o chão que me caminha
E o raio de imensidão que me atinge por dentro
Sou a carne o silêncio e o sangue
A fúria de brotar de si
Sou o sexo ungido e total
Coluna do templo absoluto
Que respira em conjunto com os deuses
Sou os teus olhos de amor
A febre do teu desejo
A explosão do teu voo dourado
Sou a púrpura túnica
Que te dispo
A música que me lambe os sentidos
O grito murmurado do êxtase
Sou a glória da vida que se cumpre
No alcance inesperado da verdade
Sou, por vos ser a ser
Vejo, porque me dão a ver
E a terra sagrada é nossa
De corações a arder.
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4:01 PM
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Thursday, October 7, 2010
O teu rosto
Claro
De luz suave
Verdadeira
Onde a asa do anjo
Acabou de tocar
Traz a vida erguida
Por ser tão vida
E um pai tão vivo
Por ser feliz
E de ter tanto
Ser aprendiz
No teu rosto
Querida filha
Reescreve-se a história
E recria-se o mundo
Que baila e brilha
No teu sorriso
E é tudo do sonho
O que preciso.
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9:29 PM
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Friday, October 1, 2010
O Dionísio que me habita
Faz-me ferver e soletrar a loucura
Dos que se mergulham para se encontrarem
Na vastidão desmembrada do êxtase
Quer tornar-te bacante do meu ritual
Da minha religião desnudada
Sombra nocturna que sobe até ao cume dos apetites
E corpos entregues à irremediável explosão cósmica
Dos que chegaram à praia saciada e remota do descanso…
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11:10 PM
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Tuesday, August 10, 2010
Ser livre
Ser tudo
E tudo poder ser
Ser mar
Ser Mundo
E nada ser não ter
Viver o sonho
Comer a vida
Ter o céu como corpo
Saltar o nunca
Furar o não
Mudar destino com o coração
E ter, ter, ter, ter
Tanto que não haja mais a querer
E ser, ser, ser, ser
Nada, não ter mais nada a ser
Movimento absoluto de não fazer
Não ter limite, nunca
E ser, só sendo, a viver
No todo que me espera
De não ter dia de morrer.
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Sunday, August 1, 2010
O fogo de Dionísio tomou-me por dentro
E o meu sangue dourado vibra de heresia
Cavalgando o Dragão púrpura até ao centro do vulcão
Lanço a seta da loucura desperta
No último momento do suspiro
Instante prévio do fim
Que tudo inicia...
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1:30 AM
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Wednesday, May 5, 2010
Poesia
É o pão rasgado pelos dentes da fome
O sangue que escorre no matadouro
O uivo arcaico da mulher a parir
Poesia
É a estalada recente na cara do bruto
O punho erguido acima da turba
O fogo que aquece as mão calejadas
Poesia
É o sexo aberto na beira da noite
A febre vermelha que frita os corpos
O copo partido contra a parede
Poesia
É a faca cravada na vida de alguém
O riso tremente na boca do louco
O xaile caído na esquina da rua
Poesia
Não é nada disto nem deixa de ser
E eu que não sei dela
Lamento-me a escrever.
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Wednesday, March 31, 2010
Sim, eu sei
Eu entendo
Essa dor que confunde
Que estilhaça por dentro
Parece um sentir sem sentido
Um abismo que acena
Para a queda
Eu sei,
Custa muito
Lidar com feridas
Tão grandes
Que parece que
Somos ferida
Que somos dor
Sim, eu sei
Que por doer tanto
Apetece fugir
Saltar para longe
De quem somos
Eu entendo
Custa muito
E parece que
Todos os abraços
Do mundo
Não chegam
Para limpar as lágrimas
Do fundo secreto de nós mesmos
Nesse centro do labirinto
Onde estão as feras
Que temos medo que nos devorem
Eu sei, porque aí estive
E a dançar, no terreiro do amor
Fui descobrindo o caminho de volta
Para o céu dos abraços
Para a paisagem dos encontros
E dos olhares de cura
Vem
Dança connosco
Deixa-nos abraçar-te
Deixa-nos olhar-te
Dizer-te que tudo está bem
Que tudo está certo
O abismo não é abismo
É a antecâmera do voo
Nas asas douradas do amor
E as feras, depois de olhadas
São apenas sombras à procura da luz
Trá-las para dançar também
E deixa encantarmo-nos
Com a beleza do teu ser.
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8:21 AM
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Wednesday, March 17, 2010
Ser
Como quem tenta
Agarrar o nevoeiro
Gestos desertos
No corpo engrenagem
Sentir á margem
Semântica anestesista
Que derrota pela conquista
Sorrisos uniforme em tons néon
A vida a meia haste
Não há que chegue
Não há que baste
Penumbra intermitente
Viver sozinho no meio da gente.
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3:11 PM
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Friday, March 12, 2010
Alguém
(Que pensa nestas coisas)
Disse
E eu ouvi
Que este universo
Não é isso
Universo
É apenas mais
Um
Verso
Do Multiverso
Disse
Que múltiplos cosmos
Flutuam
Como bolas de sabão
Na imensidão
Da não existência
Como berlindes
Nas mãos de miúdos
Que faltaram à escola
Ou bolas de naftalina
Que caíram do saco
Eu, que fiquei a pensar nisso
Porque alguém
(que estuda estas coisas)
O disse e eu ouvi
Pensei
Que raio é que interessa
O que penso sobre isso
Ou sobre quem pensa em pensar nisso
Já que pensava na minha
Pequenez de pensar
Em frente de algo tão grande
Que pensar ou não pensar
É o mesmo que o inverso
E tanto faz se lembro ou esqueço
De esquecer ou de lembrar
Apre! Tropecei no passeio
Perdi-me em desequilíbrio
No susto de ir ao chão
Lá se foi a cosmologia
A coxear pela rua abaixo.
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10:31 PM
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Thursday, March 11, 2010
Aquele momento
Aquele momento
Infinitamente pequeno
Tão pequeno
Que o tempo já não se é
Fica a olhar para si
Eterno
Tão grande
Por ser tão infinitesimal
Sim, esse momento
Antes
Mesmo antes
Exactamente antes
De levar um murro na cara
Instante relâmpago
Dimensão outra
Tempo outro
De um universo contido
Colapsado
Num punho
Toda a existência
Concentrada
Focada
Situada
Num objecto de carne
E ossos
Naquele instante
Muito menos que instante
Tão pequeno que teríamos
De inventar
Uma nova palavra
Se o quiséssemos dizer
Nesse não instante
Nesse não momento
Sim, esse mesmo
O corpo ruge
Rebenta
Sem som
Na erupção
Violenta
Da sua animalidade
Toda a história
Cósmica
Evolutiva
Filogénica
Explode
Estilhaça os diques
Os limites
Da normalidade
Neo cortical
Verbal
Individual
Para ser
Animal
Esse momento
Infinito
Parado
Em movimento
Mesmo antes
Exactamente antes
De levar um murro na cara
Rasga qualquer filosofia
Oblitera toda a crença
Remorso ou esperança
Todo o ser
Resumido
Ao antecipar do embate
Na inevitabilidade
Suprema
Absoluta
Abrupta
Do instante
Sim, esse
Esse mesmo
Exactamente antes
De levar um murro na cara
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7:36 PM
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Tuesday, March 9, 2010
Viste o céu?
Sei lá
A noite
Já não é minha
E a ternura?
Murchou
Talvez
De se ter cansado
Já não voltas?
No sonho
Talvez na cantiga
Ou na chuva sobre a pele
Porquê?
A vida é dona dela
E o rio não pede desculpa
Por ter como destino o mar.
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5:08 PM
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Friday, February 19, 2010
Já tudo foi dito
O que há a dizer
Não pode ser dito
Aquilo que é ser
E eu que o digo
Só para o dizer
Sou sendo o que digo
E dizendo sou ser.
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4:06 PM
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Tuesday, January 19, 2010
A existência surda e fria
Desta mesa
Só é fria e surda
E existência
Porque eu existo
E tenho consciência
De que existo
E tenho consciência
E dou nome
E qualidade
À existência
A mesa é o que é
Mas só é
Porque eu sou
E a sinto
E a penso a ser
Não fosse eu
E não a pensasse
Não seria
Ou seria o que fosse
Não sendo eu a ser.
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11:02 PM
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Sunday, November 22, 2009
A menina Pinóquio
Feita de carne e vontade
Aprendeu o que é próprio
A uma menina da sua idade
Para agradar ao carpinteiro
Senhor do bom e do mau
Anulou-se por inteiro
Tornou-se menina de pau
Agora fios invisíveis
Estão a guiar-lhe os gestos
E dos mundos possíveis
Só lhe sobraram os restos
Não suporta a verdade
Nem a vida que é acesa
Vive-se pela metade
E precisa de certeza
Defende de queixo erguido
O senhor que a manobra
Que lhe criou o sentido
Na tentação da cobra
Ai que o prazer é maldito
O sacrifício é que eleva
O sentir é proscrito
E da luz fez-se treva.
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8:30 PM
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Wednesday, November 4, 2009
Que a dor de ser
Não me faça
Um ser de dor
E que beber
Da rubra taça
Me traga o amor.
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9:37 PM
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Nas galés da produção
Ao som do chicote sucesso
Congela-se o coração
Não se lhe pode dar preço
Ecoa o tambor da escassez
Ainda falta o que satisfaça
Nunca chega o que se fez
E a fome que não passa
Mantêm o desejo nos curros
Conforto de não ousar
Minguam o touros a burros
E alegram-se a comprar.
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9:35 PM
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Thursday, October 29, 2009
Primeira Dança
Recordo-me de estar contigo
Algures em mim
No abrir de olhos da madrugada
No rio que trouxe a descoberta
Estive contigo
Tenho a certeza que sim
A minha pele recorda quem tu és
Corremos juntos, talvez
À sombra da grande montanha
Que segura o céu
Conquistámos a beleza
Criámos a verdade de estarmos vivos
No embalo da nossa dança
Já cá estiveste
No meu sorriso arco-íris
Encantamento que cá deixaste
Olha-me, agora
Lembras-te de mim?
Sou aquele que por te recordar
Te ama sem te conhecer.
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10:10 PM
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Wednesday, August 26, 2009
Uma gota de Universo
Caiu-me na renúncia
Á esperança
O sonho duplicou-se
De ambrósia
E o amor tornou-se rei.
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8:51 PM
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Marcar a folha
Com a marca da palavra
Para haver mais
Para ser mais
E com a marca da palavra
Entrar dentro do corpo
De quem lê
Através dos olhos
E pela voz que lê
Dentro
A palavra
Feita de pontos e linhas
E sons dentro da cabeça
Que por um código
Que existe
Apenas porque sim
Evoca
Invoca
Sensações
Imagens
Memórias
Significados
Esta palavra
Aqui escrita
E lida
Agora
Deixará de ser palavra
Quando não estiver ninguém
A lê-la
Nesse momento
Já não é palavra
Será apenas pontos e linhas
Ou já será coisa nenhuma
Porque não haverá alguém
Que veja e sinta
Que é alguma coisa
Assim, esta palavra
Daqui a pouco
Já não será.
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8:49 PM
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Liberdade
Escusa
Esquina
Difusa
Reserva de sonho
Recusa
Centro
Invisível
Ser o
Possível
Sondar a presença
Desnível
Religião
Certeza
Vida
Represa
Perder a conquista
Torpeza
Palavra
Verso
Ser o
Inverso
Escrever a impulso
Imerso
Gestos fragmento
De sentir disperso.
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8:48 PM
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Monday, August 24, 2009
Raiar penumbra
No recôndito espaço
Solene
Da solidão
Pátria sanguínea
Recobro da ternura
Deslumbramento
Luz confessa
Regressada à noite
Após a batalha
De ser gente
Ser vítima
È o estatuto
Dos esquecidos
De si.
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7:06 PM
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Thursday, August 20, 2009
Dizem
Ao homem
Pequeno
Que é livre
E ele acredita
Até houve
Uma revolução
Para o libertar
E assim
Ele
Livremente
Escolhe
A servidão.
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7:56 PM
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Corpo
Preso
Á máquina
Estilizada
Esterilizada
Brilhante
Cortante
Que o alimenta
Fragmenta
Dormenta
Automatiza
Des-somatiza
E o corpo
Autoriza.
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7:54 PM
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Todo o homem
Nasce
De mulher
No caminho
Para ser
Homem
Tem de separar-se
Largar
A casa
Do feminino
E voltar
Quando quiser
Tornar-se Pessoa.
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7:34 PM
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Sunday, August 16, 2009
A procura de sentido
Esgota-se no sentido
Da procura
Procurar o sentido
Separa o sentido
Do sentir
Sentir o sentir
Sem procurar
O sentido
Dá sentido ao sentir
Sem sentido encontrar
Por sentir se bastar.
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10:09 PM
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Thursday, August 13, 2009
Para a vastidão cósmica
Uma galáxia é mais pequena
Que um átomo para um homem
O universo fica impassível
Infinitamente indiferente
À morte de um homem
Mas quando morre
Um homem
Morre um universo.
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5:30 PM
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Antes do princípio
De tudo
Não havia antes
Nem tudo
Nem havia não haver
Havia nada
Que não havia
Porque para haver
Nada
Teria de haver
E nada havia
Antes do princípio
Não havia fim
Porque não havia
Que fosse
E acabasse
Antes do princípio
Não havia
Quem pensasse
No que havia
Antes de haver pensar
E antes de haver que houvesse
Que desse que pensar.
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5:29 PM
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Wednesday, August 12, 2009
Vento descalço
Delírio
Ombreira das sombras
Chuva imóvel
Cigarro
Cheiro de vidas opacas
Cristal difuso
Presente
Função de estar sozinho
Intenção reclusa
Desnorte
Rua sem regresso
Corpo escancarado
Fuga
Venda em que se perde
Olhar remoto
Ausência
Velho em tom criança.
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Tuesday, August 11, 2009
A António Sarpe, mestre e amigo.
Suave como amanhecer
Desliza na força do corpo Mundo
Enraizado no coração
Alegria primavera
Ave do paraíso
Lançando a semente dourada
Abraços universais
Criam constelações de ser feliz
No ninho branco da esperança
Deus que é mais deus
Por ser o berço de deuses
No fulgor da doçura encantada
Palavra, carne e sangue fortaleza
Prazer de ter prazer no mar de ser grande
Cores da renascença da vida
Conquistaste esta praia com a nau do teu sorriso
Desfraldando o padrão da liberdade
E nós que te bebemos, encontrámos o tesouro.
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6:02 PM
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Larga o riso, João
Senta-te à mesa direito
Com o peso do olhar que te põe freio
Sabes, João
Querer ser mais faz mal
Sonhar tira o pão da mesa
Pois é, João
Eu também nunca fiz o que quis
Temos de fazer sacrifícios para sermos alguém
Se eu me sinto alguém?
Não faças perguntas parvas
E come a sopa!
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Diáspora inerte
Respiração nocturna
Fragmentos de sentir peremptório
Império ajoelhado a si mesmo
Realidades metafóricas equilibram-se
Na tristeza emprestada
Dormir é o desejo
De quem marcha em seu redor
Buscando a nota certa
Que alivie o acordar.
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5:59 PM
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O ser deixou de só ser
Quando passou a existir
Olhou-se no espanto de si
Começando a reflectir
Ser só ser já não chegava
Precisava de sentido
“Se existo é para quê?”
Queria sentir-se cumprido
Ao descobrir-se mortal
Criou deuses eternos
Negou a vida acabar
Vieram céus e infernos
Para livrar-se do medo
Colou ordem ao caos
Tornou o mito em lei
Selando os bons e os maus
O medo que não acaba
Demarcou-se a terra
Sobre muros e estandartes
Começou-se a guerra
De tanto querer existir
Deu cabo da existência
Reaprender a só ser
Impõe-se a nova ciência
Bastar-se no que se é
Na luz de cada olhar
Em que tudo é perfeito
Por apenas ali estar.
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Friday, August 7, 2009
Para os seres que são
E pensam no que é ser
Não ser é uma intrusão
Que não podem conceber
Só se conheceram sendo
Não sendo não se conheciam
Paradoxo tremendo
E do facto desconfiam
Não pode a morte ser morte
Traria o fim infinito
E num golpe de sorte
São salvos pelo mito
Já não morrem afinal
Porque matam o não ser
Acontece a vida total
Só depois de morrer.
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4:50 PM
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Wednesday, August 5, 2009
“O que hei de fazer?”
Resigna-se o explorado
Desnutrido do poder
Que lhe mudaria o fado
Uma mão invisível
Pesada como aço
Limita-lhe o possível
Sustenta-lhe o cansaço
“Temos de produzir
Dar lucro ao país”
Repete a sorrir
Levantando o nariz
Orgulho de cego
Na sua falta de luz
Martelando no prego
Que o prende à cruz
A dominação é completa
Quando o dominado
Aceita como certa
A lógica do seu estado.
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Thursday, July 2, 2009
A cadela entrou na igreja
E urinou no altar
Na sua voz que troveja
Correu o padre a gritar
Ai, tinhosa que te esgano
Candelabro como clava
Persegue o bicho profano
Que de medo se raspava
Arremesso bem medido
Da lança improvisada
Coxeio e ganido
Da fêmea escanzelada
Vá de retro saco de pulgas
Uivou alto o guardião
Quem é que tu te julgas
Digna de salvação?
Ficou feliz o sacerdote
Do seu acto sacrossanto
Ajeitando o seu capote
Como de rei fosse o manto
É tão bom ser dos bons
Ser um porteiro do céu
Concentrar em si os dons
E saber para cá do véu
E eu que sou ignorante
E percebo pouco de fés
Ficaria radiante
Se o bicho lhe mijasse nos pés.
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8:28 PM
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Tuesday, June 30, 2009
Corpo de Mar
Deusa descalça
Celebra a dançar
O sonho de amar
Que o gesto realça
Sorriso estandarte
Do reino carícia
Que leva a amar-te
Só por olhar-te
Serena delícia
Danças a vida
E a vida te dança
Em cor divertida
Por ser tão vivida
No teu riso criança
O Universo conspira
Juntou-nos enfim
E este poema respira
Esta Deusa que inspira
A vida em mim.
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Wednesday, June 24, 2009
Pulsar
A noite espessa e antiga escorre sangue virgem
Retorno alucinado nos uivos das bacantes
A lua reina metáfora de si mesma
Explodindo nas sombras e nos olhares de vida abrupta
A fêmea resfolega de insaciedade no centro dos sexos que se mergulham
Fúria acesa de imortalidade, rasgar de carnes e fronteiras
O deus renascido emerge dos corpos diluídos
A dança ferve-se e tolda-se orgásmica e soluçante
Paroxismo tremente dos perdidos
O vórtice enraíza-se no seu útero de seiva renovada
Fecundando a terra aberta e receptiva
Que da morte necessária faz emergir a vida
Na curva que recria o início
As dançarinas despejam-se esgotadas no torpor de sexo sanguíneo
Deixando-se no sono inerte dos vencidos
O silêncio primordial ecoa e dissolve as formas
Corpos universo em sentir de éden amniótico
Só Um em êxtase de si mesmo
Novo cosmos
Novo tempo
Natureza reiniciada
Pulsa o ritmo do retorno
No limiar da luz
Imagina-se a manhã no fresco que ensopa a pele
Regresso
Encontro do outro em si
E de si no outro
Abrem-se os olhares
Chegou o Sol, a palavra, a regra.
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Wednesday, June 3, 2009
A promessa da vida depois da vida criou o desprezo pela vida
É a vida de um “santo” mais santa do que a de uma criança a morrer de fome?
A vida é os seres que a vivem!
Enfiem Platão dentro da caverna a que nos condenou.
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Wednesday, May 27, 2009
DEMÉTER E DIONÍSIO
Estou bêbado de ser
Mergulhado na ambrósia do encontro
Toda a vida é uma vida
Todo o corpo é um corpo
E a música enraíza-me em ti
Partilhamos pão e vinho
Casa e mundo
Divino e humanidade
Viço de corpos semente
Gestos colheitas
Ritmos da criação
Esta dança de fogo sagrado
É um casamento divino
Dura este momento fugaz
Mas é um mistério eterno
Que dura um mundo inteiro
Porque os deuses dão-se vida
Nos suspiros da nossa entrega.
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CANÇÃO DE EMBALAR
Pequenino
Pequeno funcionário
Tudo encolhes
Nas contas do teu rosário
Tuas certezas
E pompas arrogantes
Misérias convictas
Do céu dos ignorantes
Pequenino
Pequeno ditador
Apodreces
Os frutos do amor
São teus filhos
Coisas sem vontade
A tua sombra
Esmaga a liberdade
Pequenino
Pequeno moralista
Dás morte ao sonho
Desprezas a conquista
Vê se dormes
Para te calares
Um bom soninho
Sem nos chateares.
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Wednesday, May 13, 2009
Minotauro
Ariadne
Dá-me a segurança da tua espera
Repousa-me com a tua guia luzente
Que vou lançar-me neste útero
Labirinto pulsante e irrigado de desejo
Está em mim o Mito
A renúncia de quem avança
Vou perder-me
Tenho de perder-me
Se quero receber-me em glória
Mantém-me ligado ao fora
Ao terreiro dos olhares
Que lá dentro estou comigo sem mim
Senta-te e espera-me
Com o teu vaso de água fresca
E o cesto de romãs
Que eu já venho
Vou salvar o Minotauro
Libertá-lo da vergonha que o prendeu aqui
O resgate do seu poder
Será a salvação do nosso reino, Ariadne
Os deuses serão mais homens
E os homens serão mais deuses
E deusas, Ariadne
Espera-me, meu amor sereno
Que eu vou libertar a vida
Lá longe
Sem sair do teu colo.
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Fundo do Poço
Na queda olhava o fundo
Tentando antecipar o dano
Do embate todo humano
De quem lhe dói o mundo
E por olhar para o fundo
Nem sonho de luz via
O negrume não alumia
No seu abraço rotundo
Precisou bater no fundo
Sofrer a dor do embate
Desamparo sem resgate
Ricochete imundo
Para a queda ser parada
Que todo o ser lhe doa
Neste fundo de ser pessoa
Mentira derrotada
O fundo também é chão
Sustenta o levantar
E agora já pode o olhar
Erguer-se em elevação
E é no escuro menos dia
Abismo que tudo reduz
Que consegue ver a luz
Que a cair não via.
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