Thursday, March 23, 2017


Avisa, se me distraír de mim
Toca-me se desacordar de ser
Porque nas vésperas do fim
Quero-me cumprido viver 

Deixa-me que me seja em ti
Floresce-me no jardim da pele
Olha-me onde nunca me vi
Embriaga-me de pimenta e mel 

Chama se não lembrar meu nome
Dança se me congelar no ferro
Dá-me rasgo e traz-me a fome
Pinta-me de sangue e dá um berro 

Mais que viva e mais que seja
Se adormeço num canto normal
Não há impossível que me proteja
De estar morto, antes de tal 

A anestesia antiga da normalidade
É uma puta velha, mas envolvente
Por isso acende-me o rugir da vontade
E o viver certeiro de quem não mente 

Quero ter-me ao ter-te em mim
No desejo que se torna flor
Porque a vida se vive assim
Na loucura de ser Amor.

Wednesday, February 1, 2017


Não te dou nome, pois dar-te nome seria desonrar-te no teu mistério
Não te sei , mas conheço-te como nunca conheci algo ou alguém
Conheço-te por baixo e por cima da pele
Conheço-te como se tu fosses o eu que te conhece
A sombra que só é sombra porque amanhece
Memória esquecida que não se esquece 

Não te dou nome, mas sinto a tua teimosia em Ser
O teu oceano de força que me move
Que não me deixa não ser e me comove
Não queira eu, ou não aprove
A vida que me vive e faz viver 

És algo em mim que és mais que eu
Chama , fonte e chão de céu
Vaga , sussuro, fremir de sismo
És a mão que me segura no vão de abismo 

És a fome que se alimenta que querer ter fome
A espada , o beijo , a flor sem nome
O olhar que me rega e também me come 

De todos os escombros que me levantei
De todas as trincheiras em que lutei
Em todos os fogos que me queimei
Foi sempre a tua boca, que eu beijei 

Lá estarás tu, porque cairei
E quando cair, porque já não sei
Dir-me-ás sempre que eu te amei.