Friday, August 11, 2017

No espaço
Que vai de mim
A ti
O que vai de mim...
No espaço
A ti


É o que de ti
Em mim
Se tornou espaço

Que de mim seja
No teu abraço
Já não é espaço
Ir de mim que já não vai
E a ti já não te chega

Porque no espaço
Que me abre
O teu abraço
Eu sou tu e chego a mim
Sem de mim chegar a ir

E de espaço já não há espaço
Nem que seja ir ou chegar
Porque no espaço do teu abraço
É onde me acordo a amar

E amar-te anula o espaço
O chegar e o partir
Chego a mim sem de mim sair
E já sou Eu no teu abraço.

Quando danças
A Terra gira mais depressa
Porque no seu peso de esfera gigante...
É a única forma de poder dançar contigo


Quando danças
O Sol veste o fato de banho e as barbatanas
Porque na sua imensidão soberana e irradiante
Quer mergulhar na beleza oceânica do teu movimento

Quando danças
As montanhas abrem desfiladeiros e novos vales
Porque nas suas perenes e imóveis massas de rocha
Conseguem assim sorrir pelo encanto que lanças

Quando danças
Os átomos beijam-se e fazem amor entre eles
Porque na sua infima pequenez atómica
Querem criar novas moléculas para celebrar a graça de quem és

Quando danças
A própria Vida acorda num amanhecer de mundo novo
E chora por sentir-se tão bela ao ver-se a dançar em Ti

Em mim, quando danças
Criam-se novas Terras, novos Sóis, montanhas e moléculas
Nascem novas formas de ser e novos povos que riem
E um coração trovador galopa numa pradaria de flores

Quando danças, sou criado de novo e para sempre
Num Big-bang que me explode no peito e no sorriso
E me torna Universo do teu Amor.

When you dance
Earth spins faster
Because of it´s giant ball weight
It's the only way It can dance with you

When you dance
The sun wears the bathing suit and the fins
Because in its sovereign and radiant immensity
Want´s to dive into the oceanic beauty of your movement

When you dance
Mountains open canyons and new valleys
So, in their perennial and immovable rock masses
They can smile because of the charm you throw

When you dance
Atoms kiss and make love to each other
In their atomic smallness
They want to create new molecules to celebrate the grace of who you are

When you dance
Life itself wakes up in a new world dawn
And it cries for feeling so beautiful to see itself dancing in You

In me, when you dance
New Earths, new Suns, mountains and molecules are created
New forms of being are born and also new laughing tribes
And a troubadour heart gallops on a flowered prairie

When you dance, I am created again and forever
In a Big Bang that explodes in my chest and my smile
And makes me the Universe of your Love.

Thursday, March 23, 2017


Avisa, se me distraír de mim
Toca-me se desacordar de ser
Porque nas vésperas do fim
Quero-me cumprido viver 

Deixa-me que me seja em ti
Floresce-me no jardim da pele
Olha-me onde nunca me vi
Embriaga-me de pimenta e mel 

Chama se não lembrar meu nome
Dança se me congelar no ferro
Dá-me rasgo e traz-me a fome
Pinta-me de sangue e dá um berro 

Mais que viva e mais que seja
Se adormeço num canto normal
Não há impossível que me proteja
De estar morto, antes de tal 

A anestesia antiga da normalidade
É uma puta velha, mas envolvente
Por isso acende-me o rugir da vontade
E o viver certeiro de quem não mente 

Quero ter-me ao ter-te em mim
No desejo que se torna flor
Porque a vida se vive assim
Na loucura de ser Amor.

Wednesday, February 1, 2017


Não te dou nome, pois dar-te nome seria desonrar-te no teu mistério
Não te sei , mas conheço-te como nunca conheci algo ou alguém
Conheço-te por baixo e por cima da pele
Conheço-te como se tu fosses o eu que te conhece
A sombra que só é sombra porque amanhece
Memória esquecida que não se esquece 

Não te dou nome, mas sinto a tua teimosia em Ser
O teu oceano de força que me move
Que não me deixa não ser e me comove
Não queira eu, ou não aprove
A vida que me vive e faz viver 

És algo em mim que és mais que eu
Chama , fonte e chão de céu
Vaga , sussuro, fremir de sismo
És a mão que me segura no vão de abismo 

És a fome que se alimenta que querer ter fome
A espada , o beijo , a flor sem nome
O olhar que me rega e também me come 

De todos os escombros que me levantei
De todas as trincheiras em que lutei
Em todos os fogos que me queimei
Foi sempre a tua boca, que eu beijei 

Lá estarás tu, porque cairei
E quando cair, porque já não sei
Dir-me-ás sempre que eu te amei.

Tuesday, October 21, 2014

Movem-me as pétalas do sorriso
As chamas loucas do paraíso
Corro, danço, voo, canto a vida de improviso
Palhaço, mágico, mendigo, e, na dúvida, pouco sizo

Não sei nada, juro que não sei nada
Por vezes, no silêncio, surge a cacetada
É som, é rasgo, é flor arrancada
Mas no alto de cada baixo vence a gargalhada.

Wednesday, October 8, 2014

A pérola como flor
O desejo como andor
Da Santa Liberdade

Na folha branca a verdade
Na cama branca a vontade

Ser poesia todas as manhãs
Não querer adormecer nas coisas vãs

Alto e baixo tudo é nexo
E da vida aberta ser o sexo

A carne mansa do mistério
Fronte, olhar, amor galdério

A boca na fruta acesa
Doces que tu fizeste sobre a mesa

Ser tudo o que o tudo almeja
E no teu rosto flor a minha igreja

Perante mim acordam os mitos
Por olhar-te sossegam os aflitos

Na tua paz será sempre dia
E o amor, por mais que fosse amor, nunca morria.

Monday, July 21, 2014

Eu já te conheço
Agora só quero saber o teu nome…

Fui arrebatado pelo calor da tua força
Pelo Universo de flores e aves do paraíso
Que te brilham no sorriso glorioso
Coroa imperial e corpórea da Vida a festejar-se

Em ti

Fui batizado pelas tuas lágrimas de alegria
Em nome da sagrada trindade da Beleza, do Prazer e do Amor
Na terra fecunda da presença regressamos ao primeiro começar
Quando a luz se tornou luz e o ar se tornou ar

Paridos pela Grande Mãe Dança
Rendemo-nos ao mistério de onde brotam os mistérios
Pois é à sombra do Amor que descansa a Criança Divina
Semente da inocência eterna que renova o mundo a cada suspiro

O teu olhar, brilhante e húmido, santificou-me
Tornou-me Deus Criador que se ajoelha perante si mesmo
Menino descalço feito coração e Verdade
Que dos gestos cria céus, mares e terras
E as musas de todos os poetas e artistas

Eu já te conheço, eu já te conheço…
Desde sempre…

Não, desde sempre não
Antes do tempo, antes do sempre e do nunca
Antes de haver antes e depois
Antes de haver palavras que falem do tempo e do sentir

Dancei contigo e por isso eu já te conheço
Mesmo quando não te conhecia

Por favor… já te conheço…
Agora só quero saber o teu nome.

Thursday, June 26, 2014

Besuntados de lama antiga
Corpos despejados no chão instinto
Enrolam-se com intensidade de briga
Sibilando-se no labirinto

Na potência febril que irrompe
Rugem as carnes e as memórias
De tempos criadores e glórias
Que já nem a palavra corrompe
...
Estertores pulsantes no centro
Onde agigantam os titãs
Fúria desejante adentro
Mais antiga que as manhãs

Raios certeiros da semente
Que a si dentro se envia
Assoma a verdade da Serpente
É na loucura da pele que o Criador se Cria.

Wednesday, May 7, 2014

 
Não vás ainda
Espera pelo mistério da carícia
Pela sombra esvoaçante
Poisada na lapela do silêncio

Espera
Não julgues este fruto
Pela couraça da semente
Nem lhe peças para mentir
...
Permanece comigo
Á beira do horizonte
Na véspera fecunda do sentir
Onde o olhar aguarda a permissão da alvorada

É agora, a viagem
Rotundo assombro da presença
Majestade insondável do suspiro
Glorioso arrepio do éden

Se ficares, irás descobrir
Que já é teu o céu prometido
Fica tão longe como o encontro da pele
E tão perto como o Universo que és.

Tuesday, February 25, 2014


O cheiro intenso da vida
Despenteia-me as certezas
Penetra-me o amanhã
Parte as algemas de coisa vã  

O sabor do beijo suado
Engravida-me de agora
De sempre e de viagem
Flecha do centro até à margem 

Acordo e rasgo as cordas
Atiro-me da altura da memória
No balanço do alcance
Sem ladainha que me amanse 

Na brutalidade certa do instinto
Rompem-se as comportas e as maneiras
Já não há virtudes nem asneiras
Elevação acesa do faminto 

A vida alimenta-se da sua fome
De ser mais vida, de ser mais tudo
E nesta fronteira me desnudo
É ao rugir que digo o meu nome!
 

Thursday, January 16, 2014

Danço como o vento de verão se derrama nas searas
Gestos horizonte e ouro, perfume e joias raras
Raízes de sangue, mitos e paixões do início

Subtileza pulsante da asa que vence o céu
Força vibrante do respirar que nunca morreu
Ponto mais alto e força da luz de solstício

Rumo à vida, ao sempre e à memória da chama
Flor ardente e mistério, religião de quem ama...
Vertigem de assombro e fé no passo do precipício

No paladar da pele ruge a selvajaria do instante
Febre, mar, terra farta e o gemido do amante
Muralha, sombra, templo e bandeira do armistício

Danço porque danço, insanidade dos crentes
Entorno-me no mundo sem mapa nem o freio nos dentes
Liturgia sagrada que me acende… desta coisa de Viver tenho o vício.

Friday, December 20, 2013



Por tudo dançar
E por nada também
Cada gesto amar
Cada passo um àmen...

Somos céu e somos terra...
Universo em carne gente
Somos mar que não se encerra
Nas margens do indiferente

Assomo de flores no asfalto
Riso de meninos felizes
Vamos fundo e vamos alto
Coragem de aprendizes

Habitam-nos deuses e fadas
Apetites de animais ferozes
Caminhos, veredas, estradas
Somos das estrelas as vozes

Dançamos para que a vida se sinta
A sentir-se a ser dançar
E a ser vida não há quem minta
Porque tudo é ser...e ser é amar

E a luz que se dance !
E que se dance o choro !
Movimento de alcance
Alquimia do ouro...

Nascem mundos em cada abraço
Em cada encontro, uma catedral
Já não separam tempo, nem espaço
Pois cada sorriso é cor de Natal

Por tudo dançar
E por nada também
Cada gesto amar
Cada passo um àmén...


Monday, December 16, 2013


Desde o Início que Tudo iniciou
Éons incomensuráveis acabaram por acabar 

Nasceram e morreram biliões de galáxias
Colidiram infinitos planetas e as suas luas
E intermináveis sóis apagaram-se
Para acenderem outros infindáveis sóis
Que foram grandiosos sóis até deixarem de ser

A infinitude só é infinitude
Para quem não a vê até ao fim 

Mas nos teus gestos de amor
Nobreza de alma em flor
Acho a Eternidade de mim.

Toco nestas teclas
Onde escrevo

Não sei o que vou escrever
Mas oiço esta voz por dentro
Que me dita o que escrevo

E o movimento nasce
Cresce até aos dedos
Que batem nas teclas...

E eu sinto o prazer
Deste toque
Que cria sentido
Para quem entender este código

Linhas e curvas pretas
Contra um fundo branco
Tornam-se sons
Dentro da cabeça de quem as ler

Isso evocará pensamentos
Imagens
Sensações
Noutro que não eu

Lá, no outro
Onde estiver a ler
Longe daqui
Onde escrevo

E eu
Imagino quem será que me lê

O que sentirá essa pessoa
Como será ser esse outro
Como será estar nessa pele
Nessa vida

E sinto-me próximo dessa pessoa
Por pensar nela
Por imaginá-la a ler o que escrevo
Enquanto escrevo

Sentindo o toque das teclas
Nos meus dedos
Como se tocasse nessa pessoa
Dentro dela
Porque o que lê ouve por dentro
Com a sua voz

Por isso… estou a tocar-te
A ti
Agora
Por dentro
Neste momento em que lês
Estamos ligados
Enquanto eu escrevo e penso em ti
Enquanto me lês e sentes essa voz dentro de ti
Que te foi dada pelo que eu escrevi daqui

Anulamos distâncias e tempos
Ligamo-nos na dimensão do Ser

Não posso ser tu, nem tu podes ser eu

Mas somos irmãos, ambos filhos da Existência
E encontramo-nos no que nos damos a sentir

Enquanto escrevo
Enquanto me lês.

Monday, November 25, 2013

Se o vento fosse o pasto
Do amor que me guia
Seria no céu o seu rasto
Cometa vida e alegria

Teus olhos vêm-me mais Eu
Tua boca fala-me poema
Beijas tudo o que é meu
Não há mistério que eu tema

As ilhas separadas parecem
Mas liga-as o fundo do mar
Mesmo longe cá permanecem
Os tesouros do teu amar

Fauno, herói, dançarino
Floresta de rituais encantados
Sou gesto e corpo celestino
Gesta de povos enamorados

Amo amar este amor
Amo amar quem eu amo
Mulher beleza e honor
É teu amor o meu amo.

Friday, September 13, 2013

Começou por emergir um sorriso, quando te vi
Entraste em mim, enquanto te lia com o olhar
Lendo-te e sentindo-te
Lendo-me e sentindo-me enquanto te leio…saboreio

O sorriso espraiou-se até ao peito onde acendeu uma braseira quentinha,
Daquelas que afugentam o frio numa manhã de nevoeiro invernoso.

A braseira foi atiçada pelo combustível da possibilidade do desejo...

Um arrepio quente alcançou-me o ventre, enquanto as imagens e as sensações que me viajaste chegavam a mim...

Ouvi-te, senti-te, vi-te, e tudo era claro, vívido, presente ...

Num ecrã interior, onde todas as fantasias são reais, e os desejos alcançáveis... tangíveis... verdade... presença...

... o respirar elevou-se... o sexo elevou-se...

... tornou-se vivo, dono dele mesmo, tentando furar a impassibilidade das calças...
... como um cão que não quer estar preso e luta na sua ferocidade irreprimível para partir a corrente que o humilha...

E o teu cheiro, o teu calor, o teu olhar selvagem, tocaram-me na pele...

… por fora e por dentro...

... debrucei-me na vertigem...

Ouvi risos, que eram os nossos, mas que traziam algo de nós que era novo...

…surpreendentemente novo...

... quis afastar as presenças e os olhares das estátuas semi-vivas, que tentavam penetrar neste terreiro da loucura sagrada ...

.. em que nos despíamos de nós e para nós...

... desnudados de incerteza, glorificados de beleza...

... o nosso refúgio secreto no meio da multidão, é o centro da galáxia...

... é o palácio onde reinam os loucos e as feras...

... Taj Mahal vermelho onde acordam os anjos/demónio que fecundam a terra e põem vida nos mares...

... aqui dançamos...

Neste centro unificado onde o principio está sempre a acontecer...

.. dançamos debaixo das mesas, atrás das portas, no alto dos telhados...

... dançamos no cimo das águas, dentro das flores, no olhar dos pássaros...

... dançamos na beira das muralhas, porque rasgámos as mortalhas.. e as correntes...

E somos diferentes...

Dançamos, só por dançar... mesmo que não dancemos...

Porque a dança já não nos deixa...

Vivemos dentro dela... somos paridos por ela...

Porque a dança é a nossa Mãe....

A nossa Verdade...

E a nossa Verdade é a Vida

Thursday, June 20, 2013

Febre
Carne
Sentir aceso de vermelho
Rasgo purpuro poema
Vertigem assombro e fome
Orgasmos terramotos
Gemido dos que se perderam de si
Por se darem ao fim
E ao início
Sexo que ferve no sexo
Beijos mordedura
Gestos lâminas
Escancarar de rostos
Escancarar de verdades
Corpos vício e sombra
Rugir aberto aos incrédulos
Que se fodam os estreitos
Conceitos
Preceitos
Perfeitos
Que se fodam
Porque nos fodemos
E gostamos de nos foder
No riso desvairado e despenteado
No grito que usamos como bandeira
No rasgar dos mapas
No queimar dos livros santos
Queremos a surpresa e os espantos
Queremos a sede
O não saber
O não saber que sabemos
E que as putas sejam as santas
Largar o rosário e as infantas
E sermos a droga que nos droga
A carne que nos alimenta
O sangue que nos sustenta
E no suor que navegamos
Da fúria que explode no tempo incerto
Do prazer que nos toma em campo aberto
Nascer agora, já
Tudo começou, tudo acabou
Agora tudo é nosso, tudo é Tudo
E a puta que pariu se me importo
Que haja que importar
Seja depressa ou devagar
Que se estilhassem as fronteiras
E a merda das boas maneiras
Porque é aqui que eu quero estar
Corpo de terra e olhos de mar
Que morra agora ou viva para sempre
É no mergulho em ti que me faço gente.

Monday, April 22, 2013

São nos olhares de amor que nos perdemos, encontrando-nos no oceano do Nós.
 
As ilhas, separadas entre si pelo mar, estão todas ligadas pelo fundo onde assenta o oceano.
 
Também nós seres humanos, com tudo o que nos separa, liga-nos a existência, que se manifesta no desejo de amor.
 
Com o olhar simples e inocente de uma criança, sem julgamento ou análise, a existência do outro entra em mim.
 
Passo a ser mais, porque unido ao outro, que no fundo também é Eu, vivo um Nós sublime.
 
Os cientistas analisam e pensam o mundo. Os místicos são como as crianças, acolhem o mundo em si e tornam-se Mundo.
 

Thursday, April 4, 2013

No silêncio da pele
Acendem-se todas as poesias
De todas as línguas
Consagram-se todos os templos
A todos os mistérios divinos
De aquém e além memória
Reinos ou impérios

No infinito da pele
Onde se deitam os deuses
Depois de criarem os mundos
Assombra-se o coração rubro da Vida
Na surpresa incandescente do início
Onde as estrelas abriram os olhos
E o tempo jorrou-se no espaço

É no segredo da pele
Que cintila a jóia que me mantém:

A tua pele que visto como minha
Manto oceânico da tua presença em mim
Que já não sei que assim não seja
E já não lhe encontro o que seja fim.


 

Gosto · · · ·

Tuesday, February 12, 2013


Um seixo é montanha para a formiga
O átomo universo aos olhos do nada
Não há régua de cálculo que nos diga
Que sentir é certo além da fachada

Na sombra angulosa da história antiga
Um murmúrio secreto pode ser chicotada
E o verso forçado na velha cantiga
Trazer o perfume da pele amada
 

A cada sentir seu sentir se obriga
Todo o olhar tem uma forma privada
Tem os contornos do que nos fustiga
Ou a cor da ternura que nos é dada

E de todo o sentir que a vida me irriga
Abismo, mar aberto e enseada
Não há nada nele que eu não bendiga
Como a força da ida que traz a chegada.

Friday, January 18, 2013

Não sei o que é isto
Mas sinto o dia
Como lâmina de xisto

E nem sei porque disse isto
Talvez porque o que se ensombra
Quer a luz para ser visto

Sentimento misto
Feiura e beleza
Fome com fartura na mesa

Mas abraço-me na certeza
De que na doçura resisto
E de que é no amor que insisto

E, porque amo
Amo-me a amar
O amor que conquisto

E amo este dia
E a lâmina de xisto
E é neste amor que me Existo.

Monday, January 14, 2013

E o contorno dos corpos
Aceso pelo rosário da ternura
Descreve a história dos vivos
Que romperam a muralha amargura
 
Na sombra monumento
Ao fel do desamor
Acende-se a claridade do sentir
Irrompe o voo do condor

É pelas tuas mãos que me semeio
É no teu olhar que me anseio
No amor que me trazes ao peito
Já canta um coração sem receio.

Thursday, December 13, 2012


Os teus mamilos
São de fogo e são de vento
Na minha cobra língua
De ti tem estado à míngua 

São fogo porque ardem
Soltam chispa que me entumece
Carne quente do meio de mim
Grito carnal a dizer que sim 

São vento porque levantam
As velas do meu mastro
Deste oceano caravela
Que por te tocar se revela 

Os teus mamilos
São vesúvios rosados
Em erupções sempre novas
De meu desejo as trovas  

Sorvo-te os mamilos
Entrego-me a eles devagar
Para os dar a mim que mereço
Em prazeres que não confesso 

Lambo em febre os teus mamilos
Arrepios de vertigem a que me deixo
Vou tão longe neste sonho desperto
Por de ti eu estar tão perto 

Dou-te trinquinhas nos mamilos
Vontade de beijar a morder
Porque beijar-te é tão pouco
Neste desejo sufoco 

Ai, tão bom deixar-me ir
Deixar-me abraçar por esta tontura
Boca desejo a cobri-los
Sonhos de amor, teus mamilos. 

Tuesday, November 27, 2012


Chegou-me o demónio na noite 

Por vezes a noite chega como noite
Outras a noite chega como ser
Que traz o ser que somos
Ou que sentimos que somos 

Por ser 

Já vivi muitas noites demónio
Muitas 

Agora... 

Tento rodear-me o mais possível de anjos
Para que me venham na noite  

Por vezes o demónio volta
Como hoje 

Eu tento abraçá-lo
Como se abraça o escuro da noite
E as dores dos nossos filhos 

Afinal...
 
O demónio é só um anjo ferido.

 

Friday, November 23, 2012

Um sussurro doce e límpido
Como um riacho no veludo do musgo
Acordou-me a pele e as estrelas

Palavras carícia e sopro quente
Marotice do encantamento
Hipnose de astro que se inquieta

Mulher corpo lançando feitiço
Na fogueira dos afetos primeiros
Reacordar da fénix sanguínea

Prazer de resistir ao prazer
Desejo de desejar mais desejo
Nutrido na fome de si

A noite acende-se para o céu
O universo destapa-se dos lençóis
E, no instante anterior à criação

Retorno a mim no teu abraço.

Thursday, November 22, 2012

Escorre-me o tempo
Nas têmporas
O despeito
Afunda-me o peito

Mas são os dizeres sábios
Que me lambem os lábios
Que me deixam surdo
E contrafeito

Quero que a mudez
Me colore a tez
E que o ruído
Se cale de vez.

Porque queres despir-me das sombras?
Porque me recusas a noite?

Se queres a minha intensidade dentro de ti
Deixa-me a intensidade dentro de mim

No poço do segredo
Estão as formas do indizível
As memórias do degredo
As fomes do impossível

Deixa-me que me deixe sentir
Sente-me a deixar-me deixar

E quando me encontrares perdido
Perde-me... para me encontrares.

Tuesday, November 13, 2012


Sou o filho do céu e do inferno
Brilham estrelas no meu vazio
Lanço fogo que rasga do frio
Vulcão aceso na noite de inverno


Sou flor que ruge por entre alcatrão
Dor que fica do gozo arrojado
Fita vermelha em uniforme rasgado
Chuvada intensa em mês de Verão

Sou vaga que bate nos adamastores
Sonho de preso no forte dos bons
Não sofro de cismas, virtudes ou dons
Nem das febres dos sábios doutores

Sou a sombra desperta no nevoeiro
O riso na véspera da multidão
Anéis de saturno ao alcance da mão
Abraço do Mundo no corpo inteiro

Sou a força gentil do amor verdadeiro
Sou todos aqueles que em mim são.

Monday, November 5, 2012

No espaço entre palavras
Desfiladeiros do indizível
Vive o infinito silêncio
As possibilidades sem fim

Em tudo o que há por dizer
Nada diz o que vou sendo
E de dizer me arrependo
Ao limitar-me assim

Escrevo sem saber aonde vou
E quando lá chego nunca lá estou
Mas é neste caminho para não me encontrar
Que me encontro a mim.

Sunday, November 4, 2012

 

Traz-me a noite ao sentir
Chama os pássaros dourados
Se morrer é partir
Parto e levo os pecados 

O vento sopra onde quer
A chuva molha onde cai
Sombra amarga mulher
Dá-me peso e não sai 

A muralha resignada
Que te guarda o rosto
É uma estátua de nada
Fenda no chão do desgosto 

O tempo que não te perde
A  fúria que não te esgota
A paciência que já fede
A esperança já está rota 

Ainda assim ergo o queixo
Abro o peito à aurora
E é no amor que me deixo
Enquanto o segredo me chora.

Tuesday, October 30, 2012


 Olhar supremo
Subitamente eterno
Como as flores da inocência
Na manhã do primeiro dia 

Olhar que me corre dentro
Que me percorre dentro
Plantando oásis nos cantos da fome
E sonhos de vida no cantar de menino 

Olhar que descobre a lágrima de sal
Que se traz à luz do amor
Desde a remota nascente invernosa
Dos gestos trémulos e dos passos perdidos 

Olhar que me abre o olhar
Que me abre o (a)mar interior
Onde navego com bússola coração
Zarpando, imenso, da deserta praia solidão 

Cheguei ao teu olhar
E ao chegar, tão longe que cheguei
Foi a mim que encontrei
No fundo, mais fundo, do teu olhar.

 

 

Sunday, October 14, 2012

Dedos pétalas
Riachos de arrepio
Na paisagem suave
Da carne

Inquietação
Do torpor

Ondas quentes
De veludo vermelho
Inundam a enseada
Do desejo

Na margem do suspiro
Desdobra-se
Em quási-movimentos
Um fulgor aquém-memória

Germinação do sentir
Na floresta adormecida
Vale secreto do éden

A noite
Quente
Ronrona sobre os gestos
Manto que embala
O acordar da febre

No casamento da pele
Desvenda-se
O florescer sanguíneo
Que se abre ao beijo da vida

É o convite eterno
E terno
Nascente do grande rio sagrado

Majestade da doçura fervente
Coluna de fogo e mar
Descobre a rota do delírio

Até ao fundo mais fundo
Dos recantos da delícia

O gotejar de universos paraíso
Na gruta encantada do tesouro
Vai desnudando o dique
Que segura as formas

O caudal da fome
Escancara a carne
E transborda o ser
Obliterando as margens do sentir

O grito da Vida explode em infinito

Tremor soluçante dos perdidos
Que se encontraram nas alturas de si

Vertigem incomensurável da queda abrupta
No avassalador terramoto do prazer

Planetas de êxtase que se fundem
No glorioso mistério do início dos tempos

Deslizam Corpos Oceano
Espraiados à sombra da eternidade
Entregues às jóias do carinho

A pele não se destingue
Na beleza dos frutos da carne

E mesmo antes de adormecer
No sopé da grande Deusa-Montanha

Aquilo que toca o olhar
É o rosto do Amor.

Wednesday, October 3, 2012

No espanto do fascínio
Sou tomado pelo delírio da beleza
Pelo fogo que eleva
E rompe as margens do impossível

Brisa que beija o corpo inteiro
Vaga que toca no segredo do prazer

E do prazer irrompe o bosque encantado
Mistérios sagrados da vida emergente

Carne na liquidez do êxtase
Colo primordial que funda a existência

Na pele oceano navegam naus de deslumbre
Prados viçosos de flores carícia e mel
Perfumes e cores do horizonte paixão

Sou o centro e sou a margem
Sou o olhar e o Universo
Sou o corpo e sou o Céu

Sou o que tu és
Ao seres em mim

E o beijo que me despertas
É o útero de onde nasço
Para a glória de me cumprir.

Thursday, August 9, 2012


As palavras são sempre sombras
De fantasmas que não existem
Vazios com peso de pedras
Que delimitam feridas por abrir
Vislumbre de não sentir
São a ínfima penumbra
Entre o sonho e o partir
Corações de mármore branco
Suspensos do esquecimento
Na tangente do infinito
E do medo que está para vir
As palavras são punhais de nada
Que esfaqueiam o nevoeiro
Um zero cortado ao meio
Ausência recortada
Numa vida sem surgir
São a véspera do segredo
Muro na ilha do degredo
Estátua partida no chão da fome
Presença inerte que não tem nome
Rumo ao cego que não quer ouvir
As palavras não têm porta
E isso que importa
Não há nesse umbral que valha a pena
E a descrença não é pequena
E o poeta não quer sair. 

Friday, June 29, 2012


A tua beleza explode-me no peito
Lança de fogo abrupta
No centro do gesto eleito
Que me absolve da luta
A minha pele sorve-te o encanto
Rio de mel em campo de flores
Desagua no meu secreto recanto
Bebedouro de todas as dores
Um recém-nascido Universo
Dança no meu interior
Galáxias de sentir em verso
Constelações do signo Amor
Sou o Primeiro Homem na Terra
A olhar o fulgor da Vida
Já não há bandeiras na guerra
Apenas a alma a ser cumprida.

Saturday, May 26, 2012

Vou sendo o que sou
Sendo o que vou
E vendo o que sou

Mesmo que não seja o que vejo
Nem veja o que sou

E quando não vejo o que sou
Quando estou a ser
Sou, a não ver o que sou

E a não ver o que vou sendo, sou
O que vou sendo sem ver.

Friday, April 20, 2012

O TEU ABRAÇO

Quando me recebes no teu abraço
Eu regresso e parto ao mesmo tempo

Retorno à origem do sentir
Início da grande viagem aguardada

Fundo-me no teu peito de fogo líquido
Memória dos pastos sagrados
Anteriores às religiões do Homem

Odores da certeza da carne
Corpo suspenso de si
No infinito deste céu

Gotejo-me para o fundo do prazer
Em que o não eu se torna tudo
Diluído pelo êxtase da vida a sentir-se vida

O tempo colapsa-se no mistério criador de oceanos

E eu, que deixei de ser eu
Sou mais eu do que nunca e sempre

Porque é no segredo do teu abraço
Que eu me sinto quem quero ser.

Wednesday, March 28, 2012

Versos corridos com o mote EU SOU

Eu sou

O mar de Agosto
O perfume do prado recém nascido

Eu sou
Sou eu

A nota musical que brilha nas lágrimas
Poema entregue à vida

Sou

Sou o ser que é
Sem ser o que é

Sou o som de: Eu sou

Sou esta página
Não sou

Acabo de ser
O ser inacabado de ser

Sou o teu olhar
Olho o teu ser

Canto o ser
Sou o canto

E a vida
Que é em mim

Sou a noite
Sim, sou a noite

Sou e não sou
Porque não deixo de ser
Aquilo que não sou
Sendo aquilo que sou

Sou o não sou

Sou tudo

Sou o amor que ama
E amo amar o amor

Eu sou aquilo que amo

Eu sou tu
Tu és eu

Sou quem tu és
Porque ambos somos o ser que é

Eu sou nós

Porque o que eu sou
É-me dado pelo que és em mim.

Tuesday, March 13, 2012

Poemazito teimoso, que saiu por sair

hoje nasceu do meu peito
o desejo de te beijar
e assim, por desejar
beijo-te por beijar
que desejar por desejar
É o meu desejar eleito

Friday, February 24, 2012

Mulher Dança

Filigrana de gestos labareda
Esculpem de existência o nada
Carne que se antecipa à queda
A verdade é a sua espada

Olhar seara e infinito
Montanha régia de ser
Nascente de sonho e mito
Fome de desaprender

Desejo hasteado no mundo
Vermelho como a seiva da vida
Sentir que se enraíza no fundo
Da sua identidade cumprida

Cabelo ao vento esperança
Coroa de espiga e malmequer
Enamoro-me da tua dança
Deusa de encanto, Mulher.

Thursday, February 16, 2012

VERSOS IMPERFEITOS SOBRE A PERFEIÇÃO

Amar é olhar com o coração
E o coração não julga, sente
E naquele instante presente
Está contida a perfeição

É perfeito aquilo que existe
Se não quisermos mais do que seja
Pois querer diferente do que se veja
Não é perfeição que se conquiste

Perfeito é ver como respirar
Natural como a erva na estrada
Que não quer que seja nada
Diferente de ali só estar

A perfeição é o amor a olhar
Que por amar tal como vê
Diz ao que ama: mostra-te e sê
E mais não sejas que ser a amar.

Tuesday, January 24, 2012

Sou o centro ampliado do gesto
Volúvel como as sombras na neve
Suspira-se na antecâmara da palavra
O broto pulsante de infinito
Que acede à vertigem de ser

Sou a floresta mais antiga que o olhar
Vento que desbrava a certeza
Sulcos de ritmo despido e sanguíneo
Borbulham na seiva luminosa do meu peito
A dança veste-se de mim e do sopro universal

Sou inteiramente vivo e escancarado
Pela força serena e brutal das manhãs do princípio
Arrancado da lisura adormecida
Tomo a forma da paixão urgente dos náufragos
Dançando a criação do mundo no estrondo de quem se mergulha

Sou e serei
O rosto de céu dos virgens fecundos
Paraíso ondulante e descalço que se pare em cada gesto

Sou e serei
A dança que em mim se dança e sem mim já era dança
E desde o tempo em que o tempo é tempo brilha nos olhos de uma criança.

Na véspera do sentir
Abri a janela dos dias

Pássaro incolor debruçado
Na réstia esquiva da memória

Útero subversivo
Remissão do tempo perdido

Alcance do grito primal
De quem nasce sozinho

Viver à sombra dos embates
Das máscaras soluçantes

Semente de fogo que rasga
A pele rugosa do inevitável

É tempo de ser presença
Vida sempre e criança

No sal estupefacto da lágrima
Cresce a rosa do amor.

Palavras de pedra
Abruptas como a morte

Sulcos na margem do olhar
Enquanto sombras liquefeitas
Rasgam o espaço entre os dias

Abrir o sangue, abrir
Ao sopro da vertigem concreta
Na fome dos passos de inverno

Escasseia a carne no sentir
E a febre de partir
Entrançado de lágrimas na rota dos vencidos

As pegadas no teu peito
São o rosário da minha descrença
E já nem sonho sonhar em ter esperança

A música fechou-se no teu ventre antigo
E a garra que me marca sempre esteve contigo.

Tuesday, January 10, 2012

Do fundo do teu bosque antigo irradiam riachos de luz verde-esmeralda
Tremeluzem encantos na sombra das árvores, raízes poemas no abraço das copas

A terra respira-se no espaço ínfimo entre o sonho e a palavra
Teu peito desnudo cumpre a saga do amor

Lágrimas de assombro no mar da despedida, a boca vermelha no murmúrio do prazer

Mas é a tua noite de céu sistino que relembra a vitória da dança
Prado diamantino acima da memória, vento de março que traz o regresso

Hoje és Tu, ante e após o impossível
Rugido imperial dos Vivos pela ousadia de ser carne... e verdade

A marca do teu voo angelino esculpe os gestos do amor
Sobre os cumes da poesia, nos rostos altivos dos deuses

Serás sempre quem te ama
Pois quem te ama é mais ser
E amar...
É ver-te a Ser.

Saturday, October 29, 2011

DANÇA DE SHIVA

A dançar...
O deus comeu da minha carne
E bebeu do meu sangue

Centro da Existência

Umbigo primordial criador de galáxias

Imobilidade e-terna
Oculta na vertigem do movimento

Real-idade do eixo do mundo

Presença...

Algo de mim é mais que Divino.

Monday, May 16, 2011

A mão que agride
A voz que oprime
O olhar que mata
Esculpem os corpos
E o futuro.

Monday, February 21, 2011

A vida soletra-se nos meus passos

Sou o chão que me caminha
E o raio de imensidão que me atinge por dentro

Sou a carne o silêncio e o sangue
A fúria de brotar de si

Sou o sexo ungido e total
Coluna do templo absoluto
Que respira em conjunto com os deuses

Sou os teus olhos de amor
A febre do teu desejo
A explosão do teu voo dourado

Sou a púrpura túnica
Que te dispo
A música que me lambe os sentidos
O grito murmurado do êxtase

Sou a glória da vida que se cumpre
No alcance inesperado da verdade

Sou, por vos ser a ser
Vejo, porque me dão a ver

E a terra sagrada é nossa
De corações a arder.

Thursday, October 7, 2010

O teu rosto
Claro
De luz suave
Verdadeira
Onde a asa do anjo
Acabou de tocar

Traz a vida erguida
Por ser tão vida
E um pai tão vivo
Por ser feliz
E de ter tanto
Ser aprendiz

No teu rosto
Querida filha
Reescreve-se a história
E recria-se o mundo
Que baila e brilha
No teu sorriso

E é tudo do sonho
O que preciso.

Friday, October 1, 2010

O Dionísio que me habita
Faz-me ferver e soletrar a loucura
Dos que se mergulham para se encontrarem
Na vastidão desmembrada do êxtase

Quer tornar-te bacante do meu ritual
Da minha religião desnudada
Sombra nocturna que sobe até ao cume dos apetites
E corpos entregues à irremediável explosão cósmica
Dos que chegaram à praia saciada e remota do descanso…

Tuesday, August 10, 2010

Ser livre
Ser tudo
E tudo poder ser

Ser mar
Ser Mundo
E nada ser não ter

Viver o sonho
Comer a vida
Ter o céu como corpo
Saltar o nunca
Furar o não
Mudar destino com o coração

E ter, ter, ter, ter
Tanto que não haja mais a querer
E ser, ser, ser, ser
Nada, não ter mais nada a ser

Movimento absoluto de não fazer

Não ter limite, nunca
E ser, só sendo, a viver
No todo que me espera
De não ter dia de morrer.

Sunday, August 1, 2010

O fogo de Dionísio tomou-me por dentro

E o meu sangue dourado vibra de heresia

Cavalgando o Dragão púrpura até ao centro do vulcão

Lanço a seta da loucura desperta

No último momento do suspiro

Instante prévio do fim

Que tudo inicia...

Wednesday, May 5, 2010

Poesia
É o pão rasgado pelos dentes da fome
O sangue que escorre no matadouro
O uivo arcaico da mulher a parir

Poesia
É a estalada recente na cara do bruto
O punho erguido acima da turba
O fogo que aquece as mão calejadas

Poesia
É o sexo aberto na beira da noite
A febre vermelha que frita os corpos
O copo partido contra a parede

Poesia
É a faca cravada na vida de alguém
O riso tremente na boca do louco
O xaile caído na esquina da rua

Poesia
Não é nada disto nem deixa de ser
E eu que não sei dela
Lamento-me a escrever.

Wednesday, March 31, 2010

Sim, eu sei

Eu entendo

Essa dor que confunde

Que estilhaça por dentro



Parece um sentir sem sentido

Um abismo que acena

Para a queda



Eu sei,

Custa muito

Lidar com feridas

Tão grandes

Que parece que

Somos ferida

Que somos dor



Sim, eu sei

Que por doer tanto

Apetece fugir

Saltar para longe

De quem somos



Eu entendo

Custa muito

E parece que

Todos os abraços

Do mundo

Não chegam



Para limpar as lágrimas

Do fundo secreto de nós mesmos



Nesse centro do labirinto

Onde estão as feras

Que temos medo que nos devorem



Eu sei, porque aí estive

E a dançar, no terreiro do amor

Fui descobrindo o caminho de volta

Para o céu dos abraços

Para a paisagem dos encontros

E dos olhares de cura



Vem

Dança connosco

Deixa-nos abraçar-te

Deixa-nos olhar-te

Dizer-te que tudo está bem

Que tudo está certo



O abismo não é abismo

É a antecâmera do voo

Nas asas douradas do amor



E as feras, depois de olhadas

São apenas sombras à procura da luz

Trá-las para dançar também




E deixa encantarmo-nos

Com a beleza do teu ser.

Wednesday, March 17, 2010

Ser
Como quem tenta
Agarrar o nevoeiro

Gestos desertos
No corpo engrenagem
Sentir á margem

Semântica anestesista
Que derrota pela conquista
Sorrisos uniforme em tons néon

A vida a meia haste
Não há que chegue
Não há que baste

Penumbra intermitente
Viver sozinho no meio da gente.

Friday, March 12, 2010

Alguém

(Que pensa nestas coisas)

Disse

E eu ouvi

Que este universo

Não é isso

Universo

É apenas mais

Um

Verso

Do Multiverso



Disse

Que múltiplos cosmos

Flutuam

Como bolas de sabão

Na imensidão

Da não existência



Como berlindes

Nas mãos de miúdos

Que faltaram à escola

Ou bolas de naftalina

Que caíram do saco



Eu, que fiquei a pensar nisso

Porque alguém

(que estuda estas coisas)

O disse e eu ouvi



Pensei

Que raio é que interessa

O que penso sobre isso

Ou sobre quem pensa em pensar nisso

Já que pensava na minha

Pequenez de pensar

Em frente de algo tão grande

Que pensar ou não pensar

É o mesmo que o inverso

E tanto faz se lembro ou esqueço

De esquecer ou de lembrar



Apre! Tropecei no passeio

Perdi-me em desequilíbrio

No susto de ir ao chão



Lá se foi a cosmologia

A coxear pela rua abaixo.

Thursday, March 11, 2010

Aquele momento
Aquele momento
Infinitamente pequeno
Tão pequeno
Que o tempo já não se é
Fica a olhar para si
Eterno
Tão grande
Por ser tão infinitesimal

Sim, esse momento
Antes
Mesmo antes
Exactamente antes
De levar um murro na cara

Instante relâmpago
Dimensão outra
Tempo outro
De um universo contido
Colapsado
Num punho

Toda a existência
Concentrada
Focada
Situada
Num objecto de carne
E ossos

Naquele instante
Muito menos que instante
Tão pequeno que teríamos
De inventar
Uma nova palavra
Se o quiséssemos dizer

Nesse não instante
Nesse não momento
Sim, esse mesmo

O corpo ruge
Rebenta
Sem som
Na erupção
Violenta
Da sua animalidade

Toda a história
Cósmica
Evolutiva
Filogénica

Explode
Estilhaça os diques
Os limites

Da normalidade
Neo cortical
Verbal
Individual
Para ser
Animal

Esse momento
Infinito
Parado
Em movimento

Mesmo antes
Exactamente antes
De levar um murro na cara

Rasga qualquer filosofia
Oblitera toda a crença
Remorso ou esperança

Todo o ser
Resumido
Ao antecipar do embate

Na inevitabilidade
Suprema
Absoluta
Abrupta

Do instante
Sim, esse
Esse mesmo
Exactamente antes
De levar um murro na cara

Tuesday, March 9, 2010

Viste o céu?
Sei lá
A noite
Já não é minha

E a ternura?
Murchou
Talvez
De se ter cansado

Já não voltas?
No sonho
Talvez na cantiga
Ou na chuva sobre a pele

Porquê?
A vida é dona dela
E o rio não pede desculpa
Por ter como destino o mar.

Friday, February 19, 2010

Já tudo foi dito
O que há a dizer
Não pode ser dito
Aquilo que é ser

E eu que o digo
Só para o dizer
Sou sendo o que digo
E dizendo sou ser.

Tuesday, January 19, 2010

A existência surda e fria
Desta mesa
Só é fria e surda
E existência
Porque eu existo
E tenho consciência
De que existo
E tenho consciência
E dou nome
E qualidade
À existência

A mesa é o que é
Mas só é
Porque eu sou
E a sinto
E a penso a ser
Não fosse eu
E não a pensasse
Não seria
Ou seria o que fosse
Não sendo eu a ser.

Sunday, November 22, 2009

A menina Pinóquio

Feita de carne e vontade

Aprendeu o que é próprio

A uma menina da sua idade



Para agradar ao carpinteiro

Senhor do bom e do mau

Anulou-se por inteiro

Tornou-se menina de pau



Agora fios invisíveis

Estão a guiar-lhe os gestos

E dos mundos possíveis

Só lhe sobraram os restos



Não suporta a verdade

Nem a vida que é acesa

Vive-se pela metade

E precisa de certeza



Defende de queixo erguido

O senhor que a manobra

Que lhe criou o sentido

Na tentação da cobra



Ai que o prazer é maldito

O sacrifício é que eleva

O sentir é proscrito

E da luz fez-se treva.

Wednesday, November 4, 2009

Que a dor de ser
Não me faça
Um ser de dor
E que beber
Da rubra taça
Me traga o amor.

Nas galés da produção
Ao som do chicote sucesso
Congela-se o coração
Não se lhe pode dar preço

Ecoa o tambor da escassez
Ainda falta o que satisfaça
Nunca chega o que se fez
E a fome que não passa

Mantêm o desejo nos curros
Conforto de não ousar
Minguam o touros a burros
E alegram-se a comprar.

Thursday, October 29, 2009

Primeira Dança

Recordo-me de estar contigo
Algures em mim
No abrir de olhos da madrugada
No rio que trouxe a descoberta

Estive contigo
Tenho a certeza que sim
A minha pele recorda quem tu és

Corremos juntos, talvez
À sombra da grande montanha
Que segura o céu

Conquistámos a beleza
Criámos a verdade de estarmos vivos
No embalo da nossa dança

Já cá estiveste
No meu sorriso arco-íris
Encantamento que cá deixaste

Olha-me, agora
Lembras-te de mim?
Sou aquele que por te recordar
Te ama sem te conhecer.

Wednesday, August 26, 2009

Uma gota de Universo
Caiu-me na renúncia
Á esperança

O sonho duplicou-se
De ambrósia
E o amor tornou-se rei.

Marcar a folha
Com a marca da palavra
Para haver mais
Para ser mais

E com a marca da palavra
Entrar dentro do corpo
De quem lê
Através dos olhos
E pela voz que lê
Dentro

A palavra
Feita de pontos e linhas
E sons dentro da cabeça
Que por um código
Que existe
Apenas porque sim
Evoca
Invoca
Sensações
Imagens
Memórias
Significados

Esta palavra
Aqui escrita
E lida
Agora
Deixará de ser palavra
Quando não estiver ninguém
A lê-la

Nesse momento
Já não é palavra
Será apenas pontos e linhas

Ou já será coisa nenhuma
Porque não haverá alguém
Que veja e sinta
Que é alguma coisa

Assim, esta palavra
Daqui a pouco
Já não será.

Liberdade
Escusa
Esquina
Difusa
Reserva de sonho
Recusa

Centro
Invisível
Ser o
Possível
Sondar a presença
Desnível

Religião
Certeza
Vida
Represa
Perder a conquista
Torpeza

Palavra
Verso
Ser o
Inverso
Escrever a impulso
Imerso

Gestos fragmento
De sentir disperso.

Monday, August 24, 2009

Raiar penumbra
No recôndito espaço
Solene
Da solidão

Pátria sanguínea
Recobro da ternura
Deslumbramento

Luz confessa
Regressada à noite
Após a batalha
De ser gente

Ser vítima
È o estatuto
Dos esquecidos
De si.

Thursday, August 20, 2009

Dizem
Ao homem
Pequeno
Que é livre

E ele acredita
Até houve
Uma revolução
Para o libertar

E assim
Ele
Livremente
Escolhe
A servidão.

Corpo
Preso
Á máquina
Estilizada
Esterilizada
Brilhante
Cortante
Que o alimenta
Fragmenta
Dormenta
Automatiza
Des-somatiza
E o corpo
Autoriza.

Todo o homem
Nasce
De mulher

No caminho
Para ser
Homem

Tem de separar-se
Largar
A casa
Do feminino

E voltar
Quando quiser
Tornar-se Pessoa.

Sunday, August 16, 2009

A procura de sentido
Esgota-se no sentido
Da procura

Procurar o sentido
Separa o sentido
Do sentir

Sentir o sentir
Sem procurar
O sentido

Dá sentido ao sentir
Sem sentido encontrar
Por sentir se bastar.

Thursday, August 13, 2009

Para a vastidão cósmica
Uma galáxia é mais pequena
Que um átomo para um homem

O universo fica impassível
Infinitamente indiferente
À morte de um homem

Mas quando morre
Um homem
Morre um universo.

Antes do princípio
De tudo
Não havia antes
Nem tudo
Nem havia não haver

Havia nada
Que não havia
Porque para haver
Nada
Teria de haver
E nada havia

Antes do princípio
Não havia fim
Porque não havia
Que fosse
E acabasse

Antes do princípio
Não havia
Quem pensasse
No que havia
Antes de haver pensar
E antes de haver que houvesse
Que desse que pensar.

Wednesday, August 12, 2009

Vento descalço
Delírio
Ombreira das sombras

Chuva imóvel
Cigarro
Cheiro de vidas opacas

Cristal difuso
Presente
Função de estar sozinho

Intenção reclusa
Desnorte
Rua sem regresso

Corpo escancarado
Fuga
Venda em que se perde

Olhar remoto
Ausência
Velho em tom criança.

Tuesday, August 11, 2009

A António Sarpe, mestre e amigo.

Suave como amanhecer
Desliza na força do corpo Mundo
Enraizado no coração

Alegria primavera
Ave do paraíso
Lançando a semente dourada

Abraços universais
Criam constelações de ser feliz
No ninho branco da esperança

Deus que é mais deus
Por ser o berço de deuses
No fulgor da doçura encantada

Palavra, carne e sangue fortaleza
Prazer de ter prazer no mar de ser grande
Cores da renascença da vida

Conquistaste esta praia com a nau do teu sorriso
Desfraldando o padrão da liberdade
E nós que te bebemos, encontrámos o tesouro.

Larga o riso, João
Senta-te à mesa direito
Com o peso do olhar que te põe freio

Sabes, João
Querer ser mais faz mal
Sonhar tira o pão da mesa

Pois é, João
Eu também nunca fiz o que quis
Temos de fazer sacrifícios para sermos alguém

Se eu me sinto alguém?
Não faças perguntas parvas
E come a sopa!

Diáspora inerte
Respiração nocturna
Fragmentos de sentir peremptório
Império ajoelhado a si mesmo

Realidades metafóricas equilibram-se
Na tristeza emprestada

Dormir é o desejo
De quem marcha em seu redor
Buscando a nota certa
Que alivie o acordar.

O ser deixou de só ser
Quando passou a existir
Olhou-se no espanto de si
Começando a reflectir

Ser só ser já não chegava
Precisava de sentido
“Se existo é para quê?”
Queria sentir-se cumprido

Ao descobrir-se mortal
Criou deuses eternos
Negou a vida acabar
Vieram céus e infernos

Para livrar-se do medo
Colou ordem ao caos
Tornou o mito em lei
Selando os bons e os maus

O medo que não acaba
Demarcou-se a terra
Sobre muros e estandartes
Começou-se a guerra

De tanto querer existir
Deu cabo da existência
Reaprender a só ser
Impõe-se a nova ciência

Bastar-se no que se é
Na luz de cada olhar
Em que tudo é perfeito
Por apenas ali estar.

Friday, August 7, 2009

Para os seres que são
E pensam no que é ser
Não ser é uma intrusão
Que não podem conceber

Só se conheceram sendo
Não sendo não se conheciam
Paradoxo tremendo
E do facto desconfiam

Não pode a morte ser morte
Traria o fim infinito
E num golpe de sorte
São salvos pelo mito

Já não morrem afinal
Porque matam o não ser
Acontece a vida total
Só depois de morrer.

Wednesday, August 5, 2009

“O que hei de fazer?”
Resigna-se o explorado
Desnutrido do poder
Que lhe mudaria o fado

Uma mão invisível
Pesada como aço
Limita-lhe o possível
Sustenta-lhe o cansaço

“Temos de produzir
Dar lucro ao país”
Repete a sorrir
Levantando o nariz

Orgulho de cego
Na sua falta de luz
Martelando no prego
Que o prende à cruz

A dominação é completa
Quando o dominado
Aceita como certa
A lógica do seu estado.

Thursday, July 2, 2009

A cadela entrou na igreja
E urinou no altar
Na sua voz que troveja
Correu o padre a gritar

Ai, tinhosa que te esgano
Candelabro como clava
Persegue o bicho profano
Que de medo se raspava

Arremesso bem medido
Da lança improvisada
Coxeio e ganido
Da fêmea escanzelada

Vá de retro saco de pulgas
Uivou alto o guardião
Quem é que tu te julgas
Digna de salvação?

Ficou feliz o sacerdote
Do seu acto sacrossanto
Ajeitando o seu capote
Como de rei fosse o manto

É tão bom ser dos bons
Ser um porteiro do céu
Concentrar em si os dons
E saber para cá do véu

E eu que sou ignorante
E percebo pouco de fés
Ficaria radiante
Se o bicho lhe mijasse nos pés.

Tuesday, June 30, 2009

Corpo de Mar

Deusa descalça

Celebra a dançar

O sonho de amar

Que o gesto realça



Sorriso estandarte

Do reino carícia

Que leva a amar-te

Só por olhar-te

Serena delícia



Danças a vida

E a vida te dança

Em cor divertida

Por ser tão vivida

No teu riso criança



O Universo conspira

Juntou-nos enfim

E este poema respira

Esta Deusa que inspira

A vida em mim.

Wednesday, June 24, 2009

Pulsar

A noite espessa e antiga escorre sangue virgem
Retorno alucinado nos uivos das bacantes

A lua reina metáfora de si mesma
Explodindo nas sombras e nos olhares de vida abrupta

A fêmea resfolega de insaciedade no centro dos sexos que se mergulham
Fúria acesa de imortalidade, rasgar de carnes e fronteiras

O deus renascido emerge dos corpos diluídos
A dança ferve-se e tolda-se orgásmica e soluçante
Paroxismo tremente dos perdidos

O vórtice enraíza-se no seu útero de seiva renovada
Fecundando a terra aberta e receptiva
Que da morte necessária faz emergir a vida

Na curva que recria o início
As dançarinas despejam-se esgotadas no torpor de sexo sanguíneo
Deixando-se no sono inerte dos vencidos

O silêncio primordial ecoa e dissolve as formas
Corpos universo em sentir de éden amniótico
Só Um em êxtase de si mesmo

Novo cosmos
Novo tempo
Natureza reiniciada

Pulsa o ritmo do retorno
No limiar da luz

Imagina-se a manhã no fresco que ensopa a pele

Regresso
Encontro do outro em si
E de si no outro

Abrem-se os olhares
Chegou o Sol, a palavra, a regra.

Wednesday, June 3, 2009

A promessa da vida depois da vida criou o desprezo pela vida
É a vida de um “santo” mais santa do que a de uma criança a morrer de fome?
A vida é os seres que a vivem!

Enfiem Platão dentro da caverna a que nos condenou.

Wednesday, May 27, 2009

DEMÉTER E DIONÍSIO

Estou bêbado de ser
Mergulhado na ambrósia do encontro

Toda a vida é uma vida
Todo o corpo é um corpo
E a música enraíza-me em ti

Partilhamos pão e vinho
Casa e mundo
Divino e humanidade

Viço de corpos semente
Gestos colheitas
Ritmos da criação

Esta dança de fogo sagrado
É um casamento divino
Dura este momento fugaz
Mas é um mistério eterno
Que dura um mundo inteiro

Porque os deuses dão-se vida
Nos suspiros da nossa entrega.

CANÇÃO DE EMBALAR

Pequenino
Pequeno funcionário
Tudo encolhes
Nas contas do teu rosário

Tuas certezas
E pompas arrogantes
Misérias convictas
Do céu dos ignorantes

Pequenino
Pequeno ditador
Apodreces
Os frutos do amor

São teus filhos
Coisas sem vontade
A tua sombra
Esmaga a liberdade

Pequenino
Pequeno moralista
Dás morte ao sonho
Desprezas a conquista

Vê se dormes
Para te calares
Um bom soninho
Sem nos chateares.