Thursday, May 3, 2018

Desfilam palavras vazias
Arcas que perderam tesouro
Slogans e estereotipias
Chumbo pintado de ouro
 
Gestos ferramenta e espelho
Sorrisos néon e balcão
Salmos de um novo evangelho
Hologramas do coração
 
Mercantilização do afeto
Novos vendilhões do templo
E o menu está completo
São os mártires do exemplo
 
É o que é e assim será
Queira ou não queira, diga ou não diga
Porque o que temos é o que há
E é uma canção muito antiga.

Se este amor não fosse


Por tão frágil, quase intangível

Na infinita rede de causalidades

Necessárias ao ter sido

Bastava um elo não ter acontecido

Um “se” ter sido outro “se”

Um passo ter ido para norte

Quando deveria ter ido para sul

Um olhar não ter sido olhado

Uma escolha, ter sido outra escolha

Para que o amor não fosse

Este amor que é

E que eu sou

Por este amor me ser

 

Incomensuráveis possibilidades

De não ter sido

Agulha num palheiro cheio de agulhas

Pedra preciosa escondida num Himalaia de pedras

 

Ínfima probabilidade do encontro de duas almas

Que se vislumbram

Através da cortina de seis biliões de seres

E de histórias de vida

 

Tanto, tanto… que poderia não ter sido

Por ter sido outra coisa

Por ter sido outra gente, outro olhar, outro possível

E no meio de tanto impossível, de tanto poder não ser

De tanto que quase não foi

Foi, aconteceu, e é, e vive

Este amor

Tão ínfimo, na sua raridade

Tão grande, na sua magestade

Virtualidade sub-atómica de vir a ser

Que se tornou Cosmos de eu me viver

 

E este tesouro

Que eu me encontrei

Vivo-o inteiro

Por te ter encontrado

E se amanhã já não for

E isso não sei

Será sempre para sempre

Por amar-te agora

Com tudo o que sou

Fui e serei

 

Por isso este amor que quase não foi

Aconteceu porque teve de ser

Lei da causa e consequência

Porque se este amor

Não tivesse sido

Seria absurda a existência.
 

If this love were not
Because it is so fragile, almost intangible
In the infinite network of causalities
That needed to exist for this love to exist
 
If just one link had not happened
And one "if" had been another "if"
One step had gone north
When should had gone south
 
A look that had not been looked at
A choice, to had been another choice
So that this love was not
This love that is
And that I am
For this love is me
 
Incommensurable possibilities
Of not becoming to be
Needle in a haystack of needles
Precious stone hidden in a Himalaya of stones
 
Unlikely probability of two souls meeting
That glimpse
Through the curtain of six billion beings
And life stories
 
So much ... that it might not had been
Because it could had been something else
Another people, another look, another possibility
And in the midst of so much impossibility, of being so
So much so that it had hardly been
It was, happened, and is, and lives
This love
 
So tiny, in its rarity
So great in his majesty
Sub-atomic virtuality of becoming
What became to be the Cosmos of me
 
And this treasure
That I met
I live it whole
Because I found you
And if tomorrow is no longer
And that I do not know
It will always be forever
Because I love you now
With everything I am
I have been and will be
 
So this love that almost did not existed
It happened because it had to be
Law of cause and consequence
Because if this love
Had it not been
It would be absurd to exist.

Monday, January 29, 2018

I wish (I can only wish) ...

That celebrating the birth
Of the Sacred Child
Would celebrate all children...
Because they are sacred


And that all Christmas cribs that are created
Showing the holy family
Would Celebrate all families
Mono, hetero , homo
Polyamorous and of all colors
For all love, which is Love
It's sacred ... and it's family.

And that the animals that decorate
The perfect postcard image
Would not be decorating items
But that could show us what is
Heart like
And Life
By the perfection of truth and instinct

And that the wise men
Could be us all
Assuming our greatness
Human (yes, with capital letter)
Royal and magical
Bringing gifts of beauty and love
To the world (this one, here near us)
In respect gestures and words poem

And that nothing would be more sacred
Than the Sacredness of Life

And that Christmas could be
In every now
And every always
When not fear, but
Love…
Is our Guiding Star.

Desejo (só posso desejar)…

Que celebrar o nascimento
Da criança sagrada
Fosse o celebrar ...
De todas as crianças
Porque são sagradas


E que os presépios que se montam
Mostrando a sagrada família
Celebrassem todas as famílias
Mono, hetero, homo
Poliamorosas e de todas as cores
Pois todo o amor, que é Amor
É sagrado... e é família

E que os animais que decoram
A imagem perfeita dos postais
Não fossem coisa de decoração
Mas nos mostrassem o que é
De coração
E Vida
Na sua perfeição verdade e instinto

E que os reis magos
Fossemos nós todos
Assumindo a nossa grandeza
Humana (sim, com letra grande)
Régia e mágica
Trazendo presentes de beleza e de amor
Ao mundo (este, aqui perto de nós)
Em gestos respeito e palavras poema

E que nada houvesse de mais sagrado
Do que a sacralidade da Vida

E que o natal fossem todos os agora
E todos os sempre
Em que não o medo, mas
O Amor…
Fosse a nossa Estrela Guia.

The sun rises in my bed every morning
When your poem and life eyes embrace me...

Receiving me in the perfect glory of Love
I’m a God with messy hair and night's leftovers

Boy beast that doesn’t recognize himself as being
Rises to the silent power of infinity

Delicate fountain in the high peak of feeling
Waters and tames me in the amazement of reaching my self

I agree and remember that I exist more in your eyes
There's more everything in your eyes
I see more because you look at me
And I'm better for you being in me

And you are so much for being and looking
You create the world I want to see
And to be...

Because you are...

Because without you the world would be less world
It would be less everything
And everything would be less

And the Sun, which is so Sun in it´s being Sun
Without you it would not be the same Sun
It would be just a small warm candle
Silly joke in the morning
Rough draft of a vain form

Because it is yours the rising Sun on my bed
Every morning

It´s yours the Sun that rises every morning and creates me, the world and the laughter of children

It is yours the sun that gives color to colors and wind to the the seas
It is yours the sun that gives myself to me, whenever you look at me...

O Sol nasce-me na cama, todas as manhãs
Quando os teus olhos poema e vida me abraçam
Recebendo-me na perfeita glória do Amor...

Sou deus despentado e com as sobras da noite
Menino fera que se desconhece como ser
Que se eleva à silenciosa potência do infinito
Delicada fonte no alto cume do sentir
Que me rega e desbrava no espanto de me alcançar

Acordo e recordo que existo mais no teu olhar
Que existe mais no teu olhar
Que olho mais por me olhares
E sou melhor por tu me seres

Onde és tu tanto por seres olhar
E a olhar crias o mundo que eu quero ver
E ser…

Por seres…

Porque o mundo sem ti seria menos mundo
Seria menos tudo
E tudo seria menos ser

E o Sol, que é tão Sol no seu ser Sol
Sem ti não seria o mesmo Sol
Seria uma vela morna e anã
Piada parva na manhã
Esboço tosco de forma vã

Porque é teu o Sol que me nasce na cama
Todas as manhãs
Em mim, no mundo e no riso das crianças

É teu o Sol que dá cor às cores e vento aos mares
É teu o Sol que me dá a mim, sempre que me olhares…

A ti...

Imutabilidade na irresistível fervência do sentir
Broto urgente e impossível nas margens da ousadia
Já não restam as ossadas dos apetites primeiros...
Último respiro e gritar de opulência
Dança abrupta no sexo da existência
Garra a esventrar o véu da dormência


Radica no início a tua imparável divindade
De caminhos infinitos e mistérios de tudo
Irrefutável abismo no seu evidente absoluto
Clareza humilde do vencido amante
Que por tanto amar torna perto o distante
Gestos semente e carne exuberante

Vida dissiminada na efervescência do olhar
Palavras silêncio frescura na sombra da quietude
Lágrimas que voam na direção do arco-íris
E o teu nome celeste na minha alma impresso
Tão fundo me mora que já sei e confesso
Que por me teres tu és de mim o regresso.

Friday, August 11, 2017

No espaço
Que vai de mim
A ti
O que vai de mim...
No espaço
A ti


É o que de ti
Em mim
Se tornou espaço

Que de mim seja
No teu abraço
Já não é espaço
Ir de mim que já não vai
E a ti já não te chega

Porque no espaço
Que me abre
O teu abraço
Eu sou tu e chego a mim
Sem de mim chegar a ir

E de espaço já não há espaço
Nem que seja ir ou chegar
Porque no espaço do teu abraço
É onde me acordo a amar

E amar-te anula o espaço
O chegar e o partir
Chego a mim sem de mim sair
E já sou Eu no teu abraço.

Quando danças
A Terra gira mais depressa
Porque no seu peso de esfera gigante...
É a única forma de poder dançar contigo


Quando danças
O Sol veste o fato de banho e as barbatanas
Porque na sua imensidão soberana e irradiante
Quer mergulhar na beleza oceânica do teu movimento

Quando danças
As montanhas abrem desfiladeiros e novos vales
Porque nas suas perenes e imóveis massas de rocha
Conseguem assim sorrir pelo encanto que lanças

Quando danças
Os átomos beijam-se e fazem amor entre eles
Porque na sua infima pequenez atómica
Querem criar novas moléculas para celebrar a graça de quem és

Quando danças
A própria Vida acorda num amanhecer de mundo novo
E chora por sentir-se tão bela ao ver-se a dançar em Ti

Em mim, quando danças
Criam-se novas Terras, novos Sóis, montanhas e moléculas
Nascem novas formas de ser e novos povos que riem
E um coração trovador galopa numa pradaria de flores

Quando danças, sou criado de novo e para sempre
Num Big-bang que me explode no peito e no sorriso
E me torna Universo do teu Amor.

When you dance
Earth spins faster
Because of it´s giant ball weight
It's the only way It can dance with you

When you dance
The sun wears the bathing suit and the fins
Because in its sovereign and radiant immensity
Want´s to dive into the oceanic beauty of your movement

When you dance
Mountains open canyons and new valleys
So, in their perennial and immovable rock masses
They can smile because of the charm you throw

When you dance
Atoms kiss and make love to each other
In their atomic smallness
They want to create new molecules to celebrate the grace of who you are

When you dance
Life itself wakes up in a new world dawn
And it cries for feeling so beautiful to see itself dancing in You

In me, when you dance
New Earths, new Suns, mountains and molecules are created
New forms of being are born and also new laughing tribes
And a troubadour heart gallops on a flowered prairie

When you dance, I am created again and forever
In a Big Bang that explodes in my chest and my smile
And makes me the Universe of your Love.

Thursday, March 23, 2017


Avisa, se me distraír de mim
Toca-me se desacordar de ser
Porque nas vésperas do fim
Quero-me cumprido viver 

Deixa-me que me seja em ti
Floresce-me no jardim da pele
Olha-me onde nunca me vi
Embriaga-me de pimenta e mel 

Chama se não lembrar meu nome
Dança se me congelar no ferro
Dá-me rasgo e traz-me a fome
Pinta-me de sangue e dá um berro 

Mais que viva e mais que seja
Se adormeço num canto normal
Não há impossível que me proteja
De estar morto, antes de tal 

A anestesia antiga da normalidade
É uma puta velha, mas envolvente
Por isso acende-me o rugir da vontade
E o viver certeiro de quem não mente 

Quero ter-me ao ter-te em mim
No desejo que se torna flor
Porque a vida se vive assim
Na loucura de ser Amor.

Wednesday, February 1, 2017


Não te dou nome, pois dar-te nome seria desonrar-te no teu mistério
Não te sei , mas conheço-te como nunca conheci algo ou alguém
Conheço-te por baixo e por cima da pele
Conheço-te como se tu fosses o eu que te conhece
A sombra que só é sombra porque amanhece
Memória esquecida que não se esquece 

Não te dou nome, mas sinto a tua teimosia em Ser
O teu oceano de força que me move
Que não me deixa não ser e me comove
Não queira eu, ou não aprove
A vida que me vive e faz viver 

És algo em mim que és mais que eu
Chama , fonte e chão de céu
Vaga , sussuro, fremir de sismo
És a mão que me segura no vão de abismo 

És a fome que se alimenta que querer ter fome
A espada , o beijo , a flor sem nome
O olhar que me rega e também me come 

De todos os escombros que me levantei
De todas as trincheiras em que lutei
Em todos os fogos que me queimei
Foi sempre a tua boca, que eu beijei 

Lá estarás tu, porque cairei
E quando cair, porque já não sei
Dir-me-ás sempre que eu te amei.

Tuesday, October 21, 2014

Movem-me as pétalas do sorriso
As chamas loucas do paraíso
Corro, danço, voo, canto a vida de improviso
Palhaço, mágico, mendigo, e, na dúvida, pouco sizo

Não sei nada, juro que não sei nada
Por vezes, no silêncio, surge a cacetada
É som, é rasgo, é flor arrancada
Mas no alto de cada baixo vence a gargalhada.

Wednesday, October 8, 2014

A pérola como flor
O desejo como andor
Da Santa Liberdade

Na folha branca a verdade
Na cama branca a vontade

Ser poesia todas as manhãs
Não querer adormecer nas coisas vãs

Alto e baixo tudo é nexo
E da vida aberta ser o sexo

A carne mansa do mistério
Fronte, olhar, amor galdério

A boca na fruta acesa
Doces que tu fizeste sobre a mesa

Ser tudo o que o tudo almeja
E no teu rosto flor a minha igreja

Perante mim acordam os mitos
Por olhar-te sossegam os aflitos

Na tua paz será sempre dia
E o amor, por mais que fosse amor, nunca morria.

Monday, July 21, 2014

Eu já te conheço
Agora só quero saber o teu nome…

Fui arrebatado pelo calor da tua força
Pelo Universo de flores e aves do paraíso
Que te brilham no sorriso glorioso
Coroa imperial e corpórea da Vida a festejar-se

Em ti

Fui batizado pelas tuas lágrimas de alegria
Em nome da sagrada trindade da Beleza, do Prazer e do Amor
Na terra fecunda da presença regressamos ao primeiro começar
Quando a luz se tornou luz e o ar se tornou ar

Paridos pela Grande Mãe Dança
Rendemo-nos ao mistério de onde brotam os mistérios
Pois é à sombra do Amor que descansa a Criança Divina
Semente da inocência eterna que renova o mundo a cada suspiro

O teu olhar, brilhante e húmido, santificou-me
Tornou-me Deus Criador que se ajoelha perante si mesmo
Menino descalço feito coração e Verdade
Que dos gestos cria céus, mares e terras
E as musas de todos os poetas e artistas

Eu já te conheço, eu já te conheço…
Desde sempre…

Não, desde sempre não
Antes do tempo, antes do sempre e do nunca
Antes de haver antes e depois
Antes de haver palavras que falem do tempo e do sentir

Dancei contigo e por isso eu já te conheço
Mesmo quando não te conhecia

Por favor… já te conheço…
Agora só quero saber o teu nome.

Thursday, June 26, 2014

Besuntados de lama antiga
Corpos despejados no chão instinto
Enrolam-se com intensidade de briga
Sibilando-se no labirinto

Na potência febril que irrompe
Rugem as carnes e as memórias
De tempos criadores e glórias
Que já nem a palavra corrompe
...
Estertores pulsantes no centro
Onde agigantam os titãs
Fúria desejante adentro
Mais antiga que as manhãs

Raios certeiros da semente
Que a si dentro se envia
Assoma a verdade da Serpente
É na loucura da pele que o Criador se Cria.

Wednesday, May 7, 2014

 
Não vás ainda
Espera pelo mistério da carícia
Pela sombra esvoaçante
Poisada na lapela do silêncio

Espera
Não julgues este fruto
Pela couraça da semente
Nem lhe peças para mentir
...
Permanece comigo
Á beira do horizonte
Na véspera fecunda do sentir
Onde o olhar aguarda a permissão da alvorada

É agora, a viagem
Rotundo assombro da presença
Majestade insondável do suspiro
Glorioso arrepio do éden

Se ficares, irás descobrir
Que já é teu o céu prometido
Fica tão longe como o encontro da pele
E tão perto como o Universo que és.

Tuesday, February 25, 2014


O cheiro intenso da vida
Despenteia-me as certezas
Penetra-me o amanhã
Parte as algemas de coisa vã  

O sabor do beijo suado
Engravida-me de agora
De sempre e de viagem
Flecha do centro até à margem 

Acordo e rasgo as cordas
Atiro-me da altura da memória
No balanço do alcance
Sem ladainha que me amanse 

Na brutalidade certa do instinto
Rompem-se as comportas e as maneiras
Já não há virtudes nem asneiras
Elevação acesa do faminto 

A vida alimenta-se da sua fome
De ser mais vida, de ser mais tudo
E nesta fronteira me desnudo
É ao rugir que digo o meu nome!
 

Thursday, January 16, 2014

Danço como o vento de verão se derrama nas searas
Gestos horizonte e ouro, perfume e joias raras
Raízes de sangue, mitos e paixões do início

Subtileza pulsante da asa que vence o céu
Força vibrante do respirar que nunca morreu
Ponto mais alto e força da luz de solstício

Rumo à vida, ao sempre e à memória da chama
Flor ardente e mistério, religião de quem ama...
Vertigem de assombro e fé no passo do precipício

No paladar da pele ruge a selvajaria do instante
Febre, mar, terra farta e o gemido do amante
Muralha, sombra, templo e bandeira do armistício

Danço porque danço, insanidade dos crentes
Entorno-me no mundo sem mapa nem o freio nos dentes
Liturgia sagrada que me acende… desta coisa de Viver tenho o vício.

Friday, December 20, 2013



Por tudo dançar
E por nada também
Cada gesto amar
Cada passo um àmen...

Somos céu e somos terra...
Universo em carne gente
Somos mar que não se encerra
Nas margens do indiferente

Assomo de flores no asfalto
Riso de meninos felizes
Vamos fundo e vamos alto
Coragem de aprendizes

Habitam-nos deuses e fadas
Apetites de animais ferozes
Caminhos, veredas, estradas
Somos das estrelas as vozes

Dançamos para que a vida se sinta
A sentir-se a ser dançar
E a ser vida não há quem minta
Porque tudo é ser...e ser é amar

E a luz que se dance !
E que se dance o choro !
Movimento de alcance
Alquimia do ouro...

Nascem mundos em cada abraço
Em cada encontro, uma catedral
Já não separam tempo, nem espaço
Pois cada sorriso é cor de Natal

Por tudo dançar
E por nada também
Cada gesto amar
Cada passo um àmén...


Monday, December 16, 2013


Desde o Início que Tudo iniciou
Éons incomensuráveis acabaram por acabar 

Nasceram e morreram biliões de galáxias
Colidiram infinitos planetas e as suas luas
E intermináveis sóis apagaram-se
Para acenderem outros infindáveis sóis
Que foram grandiosos sóis até deixarem de ser

A infinitude só é infinitude
Para quem não a vê até ao fim 

Mas nos teus gestos de amor
Nobreza de alma em flor
Acho a Eternidade de mim.

Toco nestas teclas
Onde escrevo

Não sei o que vou escrever
Mas oiço esta voz por dentro
Que me dita o que escrevo

E o movimento nasce
Cresce até aos dedos
Que batem nas teclas...

E eu sinto o prazer
Deste toque
Que cria sentido
Para quem entender este código

Linhas e curvas pretas
Contra um fundo branco
Tornam-se sons
Dentro da cabeça de quem as ler

Isso evocará pensamentos
Imagens
Sensações
Noutro que não eu

Lá, no outro
Onde estiver a ler
Longe daqui
Onde escrevo

E eu
Imagino quem será que me lê

O que sentirá essa pessoa
Como será ser esse outro
Como será estar nessa pele
Nessa vida

E sinto-me próximo dessa pessoa
Por pensar nela
Por imaginá-la a ler o que escrevo
Enquanto escrevo

Sentindo o toque das teclas
Nos meus dedos
Como se tocasse nessa pessoa
Dentro dela
Porque o que lê ouve por dentro
Com a sua voz

Por isso… estou a tocar-te
A ti
Agora
Por dentro
Neste momento em que lês
Estamos ligados
Enquanto eu escrevo e penso em ti
Enquanto me lês e sentes essa voz dentro de ti
Que te foi dada pelo que eu escrevi daqui

Anulamos distâncias e tempos
Ligamo-nos na dimensão do Ser

Não posso ser tu, nem tu podes ser eu

Mas somos irmãos, ambos filhos da Existência
E encontramo-nos no que nos damos a sentir

Enquanto escrevo
Enquanto me lês.

Monday, November 25, 2013

Se o vento fosse o pasto
Do amor que me guia
Seria no céu o seu rasto
Cometa vida e alegria

Teus olhos vêm-me mais Eu
Tua boca fala-me poema
Beijas tudo o que é meu
Não há mistério que eu tema

As ilhas separadas parecem
Mas liga-as o fundo do mar
Mesmo longe cá permanecem
Os tesouros do teu amar

Fauno, herói, dançarino
Floresta de rituais encantados
Sou gesto e corpo celestino
Gesta de povos enamorados

Amo amar este amor
Amo amar quem eu amo
Mulher beleza e honor
É teu amor o meu amo.

Friday, September 13, 2013

Começou por emergir um sorriso, quando te vi
Entraste em mim, enquanto te lia com o olhar
Lendo-te e sentindo-te
Lendo-me e sentindo-me enquanto te leio…saboreio

O sorriso espraiou-se até ao peito onde acendeu uma braseira quentinha,
Daquelas que afugentam o frio numa manhã de nevoeiro invernoso.

A braseira foi atiçada pelo combustível da possibilidade do desejo...

Um arrepio quente alcançou-me o ventre, enquanto as imagens e as sensações que me viajaste chegavam a mim...

Ouvi-te, senti-te, vi-te, e tudo era claro, vívido, presente ...

Num ecrã interior, onde todas as fantasias são reais, e os desejos alcançáveis... tangíveis... verdade... presença...

... o respirar elevou-se... o sexo elevou-se...

... tornou-se vivo, dono dele mesmo, tentando furar a impassibilidade das calças...
... como um cão que não quer estar preso e luta na sua ferocidade irreprimível para partir a corrente que o humilha...

E o teu cheiro, o teu calor, o teu olhar selvagem, tocaram-me na pele...

… por fora e por dentro...

... debrucei-me na vertigem...

Ouvi risos, que eram os nossos, mas que traziam algo de nós que era novo...

…surpreendentemente novo...

... quis afastar as presenças e os olhares das estátuas semi-vivas, que tentavam penetrar neste terreiro da loucura sagrada ...

.. em que nos despíamos de nós e para nós...

... desnudados de incerteza, glorificados de beleza...

... o nosso refúgio secreto no meio da multidão, é o centro da galáxia...

... é o palácio onde reinam os loucos e as feras...

... Taj Mahal vermelho onde acordam os anjos/demónio que fecundam a terra e põem vida nos mares...

... aqui dançamos...

Neste centro unificado onde o principio está sempre a acontecer...

.. dançamos debaixo das mesas, atrás das portas, no alto dos telhados...

... dançamos no cimo das águas, dentro das flores, no olhar dos pássaros...

... dançamos na beira das muralhas, porque rasgámos as mortalhas.. e as correntes...

E somos diferentes...

Dançamos, só por dançar... mesmo que não dancemos...

Porque a dança já não nos deixa...

Vivemos dentro dela... somos paridos por ela...

Porque a dança é a nossa Mãe....

A nossa Verdade...

E a nossa Verdade é a Vida

Thursday, June 20, 2013

Febre
Carne
Sentir aceso de vermelho
Rasgo purpuro poema
Vertigem assombro e fome
Orgasmos terramotos
Gemido dos que se perderam de si
Por se darem ao fim
E ao início
Sexo que ferve no sexo
Beijos mordedura
Gestos lâminas
Escancarar de rostos
Escancarar de verdades
Corpos vício e sombra
Rugir aberto aos incrédulos
Que se fodam os estreitos
Conceitos
Preceitos
Perfeitos
Que se fodam
Porque nos fodemos
E gostamos de nos foder
No riso desvairado e despenteado
No grito que usamos como bandeira
No rasgar dos mapas
No queimar dos livros santos
Queremos a surpresa e os espantos
Queremos a sede
O não saber
O não saber que sabemos
E que as putas sejam as santas
Largar o rosário e as infantas
E sermos a droga que nos droga
A carne que nos alimenta
O sangue que nos sustenta
E no suor que navegamos
Da fúria que explode no tempo incerto
Do prazer que nos toma em campo aberto
Nascer agora, já
Tudo começou, tudo acabou
Agora tudo é nosso, tudo é Tudo
E a puta que pariu se me importo
Que haja que importar
Seja depressa ou devagar
Que se estilhassem as fronteiras
E a merda das boas maneiras
Porque é aqui que eu quero estar
Corpo de terra e olhos de mar
Que morra agora ou viva para sempre
É no mergulho em ti que me faço gente.

Monday, April 22, 2013

São nos olhares de amor que nos perdemos, encontrando-nos no oceano do Nós.
 
As ilhas, separadas entre si pelo mar, estão todas ligadas pelo fundo onde assenta o oceano.
 
Também nós seres humanos, com tudo o que nos separa, liga-nos a existência, que se manifesta no desejo de amor.
 
Com o olhar simples e inocente de uma criança, sem julgamento ou análise, a existência do outro entra em mim.
 
Passo a ser mais, porque unido ao outro, que no fundo também é Eu, vivo um Nós sublime.
 
Os cientistas analisam e pensam o mundo. Os místicos são como as crianças, acolhem o mundo em si e tornam-se Mundo.
 

Thursday, April 4, 2013

No silêncio da pele
Acendem-se todas as poesias
De todas as línguas
Consagram-se todos os templos
A todos os mistérios divinos
De aquém e além memória
Reinos ou impérios

No infinito da pele
Onde se deitam os deuses
Depois de criarem os mundos
Assombra-se o coração rubro da Vida
Na surpresa incandescente do início
Onde as estrelas abriram os olhos
E o tempo jorrou-se no espaço

É no segredo da pele
Que cintila a jóia que me mantém:

A tua pele que visto como minha
Manto oceânico da tua presença em mim
Que já não sei que assim não seja
E já não lhe encontro o que seja fim.


 

Gosto · · · ·

Tuesday, February 12, 2013


Um seixo é montanha para a formiga
O átomo universo aos olhos do nada
Não há régua de cálculo que nos diga
Que sentir é certo além da fachada

Na sombra angulosa da história antiga
Um murmúrio secreto pode ser chicotada
E o verso forçado na velha cantiga
Trazer o perfume da pele amada
 

A cada sentir seu sentir se obriga
Todo o olhar tem uma forma privada
Tem os contornos do que nos fustiga
Ou a cor da ternura que nos é dada

E de todo o sentir que a vida me irriga
Abismo, mar aberto e enseada
Não há nada nele que eu não bendiga
Como a força da ida que traz a chegada.

Friday, January 18, 2013

Não sei o que é isto
Mas sinto o dia
Como lâmina de xisto

E nem sei porque disse isto
Talvez porque o que se ensombra
Quer a luz para ser visto

Sentimento misto
Feiura e beleza
Fome com fartura na mesa

Mas abraço-me na certeza
De que na doçura resisto
E de que é no amor que insisto

E, porque amo
Amo-me a amar
O amor que conquisto

E amo este dia
E a lâmina de xisto
E é neste amor que me Existo.

Monday, January 14, 2013

E o contorno dos corpos
Aceso pelo rosário da ternura
Descreve a história dos vivos
Que romperam a muralha amargura
 
Na sombra monumento
Ao fel do desamor
Acende-se a claridade do sentir
Irrompe o voo do condor

É pelas tuas mãos que me semeio
É no teu olhar que me anseio
No amor que me trazes ao peito
Já canta um coração sem receio.

Thursday, December 13, 2012


Os teus mamilos
São de fogo e são de vento
Na minha cobra língua
De ti tem estado à míngua 

São fogo porque ardem
Soltam chispa que me entumece
Carne quente do meio de mim
Grito carnal a dizer que sim 

São vento porque levantam
As velas do meu mastro
Deste oceano caravela
Que por te tocar se revela 

Os teus mamilos
São vesúvios rosados
Em erupções sempre novas
De meu desejo as trovas  

Sorvo-te os mamilos
Entrego-me a eles devagar
Para os dar a mim que mereço
Em prazeres que não confesso 

Lambo em febre os teus mamilos
Arrepios de vertigem a que me deixo
Vou tão longe neste sonho desperto
Por de ti eu estar tão perto 

Dou-te trinquinhas nos mamilos
Vontade de beijar a morder
Porque beijar-te é tão pouco
Neste desejo sufoco 

Ai, tão bom deixar-me ir
Deixar-me abraçar por esta tontura
Boca desejo a cobri-los
Sonhos de amor, teus mamilos. 

Tuesday, November 27, 2012


Chegou-me o demónio na noite 

Por vezes a noite chega como noite
Outras a noite chega como ser
Que traz o ser que somos
Ou que sentimos que somos 

Por ser 

Já vivi muitas noites demónio
Muitas 

Agora... 

Tento rodear-me o mais possível de anjos
Para que me venham na noite  

Por vezes o demónio volta
Como hoje 

Eu tento abraçá-lo
Como se abraça o escuro da noite
E as dores dos nossos filhos 

Afinal...
 
O demónio é só um anjo ferido.

 

Friday, November 23, 2012

Um sussurro doce e límpido
Como um riacho no veludo do musgo
Acordou-me a pele e as estrelas

Palavras carícia e sopro quente
Marotice do encantamento
Hipnose de astro que se inquieta

Mulher corpo lançando feitiço
Na fogueira dos afetos primeiros
Reacordar da fénix sanguínea

Prazer de resistir ao prazer
Desejo de desejar mais desejo
Nutrido na fome de si

A noite acende-se para o céu
O universo destapa-se dos lençóis
E, no instante anterior à criação

Retorno a mim no teu abraço.

Thursday, November 22, 2012

Escorre-me o tempo
Nas têmporas
O despeito
Afunda-me o peito

Mas são os dizeres sábios
Que me lambem os lábios
Que me deixam surdo
E contrafeito

Quero que a mudez
Me colore a tez
E que o ruído
Se cale de vez.

Porque queres despir-me das sombras?
Porque me recusas a noite?

Se queres a minha intensidade dentro de ti
Deixa-me a intensidade dentro de mim

No poço do segredo
Estão as formas do indizível
As memórias do degredo
As fomes do impossível

Deixa-me que me deixe sentir
Sente-me a deixar-me deixar

E quando me encontrares perdido
Perde-me... para me encontrares.

Tuesday, November 13, 2012


Sou o filho do céu e do inferno
Brilham estrelas no meu vazio
Lanço fogo que rasga do frio
Vulcão aceso na noite de inverno


Sou flor que ruge por entre alcatrão
Dor que fica do gozo arrojado
Fita vermelha em uniforme rasgado
Chuvada intensa em mês de Verão

Sou vaga que bate nos adamastores
Sonho de preso no forte dos bons
Não sofro de cismas, virtudes ou dons
Nem das febres dos sábios doutores

Sou a sombra desperta no nevoeiro
O riso na véspera da multidão
Anéis de saturno ao alcance da mão
Abraço do Mundo no corpo inteiro

Sou a força gentil do amor verdadeiro
Sou todos aqueles que em mim são.

Monday, November 5, 2012

No espaço entre palavras
Desfiladeiros do indizível
Vive o infinito silêncio
As possibilidades sem fim

Em tudo o que há por dizer
Nada diz o que vou sendo
E de dizer me arrependo
Ao limitar-me assim

Escrevo sem saber aonde vou
E quando lá chego nunca lá estou
Mas é neste caminho para não me encontrar
Que me encontro a mim.

Sunday, November 4, 2012

 

Traz-me a noite ao sentir
Chama os pássaros dourados
Se morrer é partir
Parto e levo os pecados 

O vento sopra onde quer
A chuva molha onde cai
Sombra amarga mulher
Dá-me peso e não sai 

A muralha resignada
Que te guarda o rosto
É uma estátua de nada
Fenda no chão do desgosto 

O tempo que não te perde
A  fúria que não te esgota
A paciência que já fede
A esperança já está rota 

Ainda assim ergo o queixo
Abro o peito à aurora
E é no amor que me deixo
Enquanto o segredo me chora.

Tuesday, October 30, 2012


 Olhar supremo
Subitamente eterno
Como as flores da inocência
Na manhã do primeiro dia 

Olhar que me corre dentro
Que me percorre dentro
Plantando oásis nos cantos da fome
E sonhos de vida no cantar de menino 

Olhar que descobre a lágrima de sal
Que se traz à luz do amor
Desde a remota nascente invernosa
Dos gestos trémulos e dos passos perdidos 

Olhar que me abre o olhar
Que me abre o (a)mar interior
Onde navego com bússola coração
Zarpando, imenso, da deserta praia solidão 

Cheguei ao teu olhar
E ao chegar, tão longe que cheguei
Foi a mim que encontrei
No fundo, mais fundo, do teu olhar.